quarta-feira, 5 de maio de 2021

Aumenta repressão policial contra greve na Colômbia

https://www.brasildefato.com.br/2021/05/05/aumenta-repressao-policial-contra-greve-na-colombia-quais-as-origens-da-violencia 



LUTA SOCIAL

Aumenta repressão policial contra greve na Colômbia; quais as origens da violência

Há mais de uma semana com mobilizações populares intensas, país se vê envolto por violações de direitos humanos

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
 
Manifestantes fazem um gesto em frente a uma fila da polícia de choque durante um protesto contra a reforma tributária em frente à casa do presidente Iván Duque, em Bogotá, em 1º de maio - Juan Barreto/AFP

A greve nacional contra as medidas neoliberais impostas pelo governo do presidente colombiano, Iván Duque, completou uma semana nessa terça-feira (4). Mobilizações ocorrem em várias cidades e rodovias da Colômbia, enquanto as forças de segurança aumentam a violência repressiva contra os manifestantes. Um novo grande protesto foi convocado para esta quarta-feira (5) pelo Comitê Nacional de Greve na Colômbia.

Organizações de direitos humanos do país registram 1.181 casos de violência policial entre os dias 18 de abril, início dos protestos, e essa segunda-feira (3), além de 26 mortes, 142 vítimas de violência física e 761 detenções arbitrárias por parte das forças de segurança estatais.

Mas as cifras podem ser ainda maiores, com a Defensoria colombiana informando que até essa terça (4) recebeu 87 relatos de pessoas desaparecidas durante as manifestações. De acordo com o órgão estatal, 36 desaparecimentos são reportados da cidade de Cali (departamento de Valle del Cauca), enquanto na capital, Bogotá, 18 denúncias foram registradas, incluindo dois menores.

Ao longo dos dias de greve, Cali vem registrando a maioria dos casos de violência policial. Segundo a Human Rights International, um massacre perpetrado pela polícia ocorreu na noite de segunda (3) no bairro popular de Siloé, em Cali. A ONG investiga as mortes de 6 pessoas, entre elas um menino de 11 anos, além de 18 feridos, incluindo uma criança de 7 anos. Contudo, a violência policial também se dirige aos defensores de direitos humanos, que relatam ameaças físicas e verbais por parte de agentes do Estado.

A greve iniciada no último 28 de abril, ainda que sob forte ataque, já conquista vitórias. O ministro da Fazenda colombiano, Alberto Carrasquilla, renunciou na segunda-feira (3), depois que Duque desistiu de seu projeto de reforma tributária e pediu ao Congresso que retirasse a proposta.

A derrubada da reforma tributária – que pretendia aumentar em 19% impostos sobre serviços públicos, como gás e energia – é uma das pautas da jornada de protestos. A lista de reivindicações ainda inclui a retirada do “pacotaço” – que prevê mudanças e reformas nas leis do trabalho, na área da saúde e da previdência social –, o fim da violência policial contra líderes sociais e defensores de direitos humanos, além de uma série de exigências em diversas áreas sociais.

Conflitos recentes

Desde 2019, a Colômbia é cenário de manifestações contra abusos policiais. A cidadania exige o fim do Esquadrão Móvil Antidistúrbios (Esmad), criado em 1999, durante a gestão do ex-presidente Andrés Pastrana. De acordo com a ONG Liga contra o Silêncio, em 20 anos de existência do Esmad, 43 pessoas foram assassinadas de forma sumária. 

Enquanto na cidade a Polícia Nacional atua na repressão, no campo a tarefa fica à cargo do Exército Nacional e de grupos paramilitares. 

Para Clemencia Carabalí Rodallega, vencedora do Prêmio Nacional de Defesa de Direitos Humanos na Colômbia de 2019, os eventos violentos seguem acontecendo pela impunidade dos agentes de segurança do Estado e grupos irregulares que atuam nos territórios.

"Justamente esta violência se agudiza no país porque o sistema de Justiça não funciona. Realmente não existem investigações sérias que levem à captura tanto dos autores materiais como intelectuais, que seguem promovendo a violência apesar dos Acordos de Paz de 2016", assegura.

Organizações sociais denunciam que a impunidade se expressa em novas ameaças. Jovens e estudantes receberam mensagens do grupo paramilitar Águilas Negras [Águias Negras] prometendo a "morte da esquerda".

Os paramilitares também são acusados pelos movimentos populares como responsáveis por crimes que vitimaram 267 líderes sociais e ex-combatentes em 2020, segundo levantamento do Indepaz. Outro informe sinaliza que entre novembro de 2016 e o 14 de julho, 2020, 973 líderes sociais, defensores de direitos humanos e ex-combatentes foram assassinados. 

Já o governo de Iván Duque sinaliza o narcotráfico como principal gerador de violência no país. 

O senador Carlos Lozada, do partido Farc, afirma que tanto paramilitares, como narcotraficantes estão relacionados aos crimes cometidos contra jovens nas zonas rurais e urbanas colombianas, no entanto, o Estado utiliza a narrativa como argumento negacionista.

"Sem dúvidas há uma intenção de ocultar sua responsabilidade, determinada pela Constituição, de que o Estado deve garantir a vida de todos colombianos. Nessa afirmação, o que existe é uma tentativa de reduzir a complexidade desse fenômeno",  opina o parlamentar. 

Duque chegou ao poder através de uma forte campanha contra as guerrilhas colombianas e os Acordos de Havana. Durante seu governo, estima-se que foram mortos 52% dos 349 ex-combatentes assassinados nos últimos quatro anos. 

"Eles tentam utilizar o argumento do narcotráfico como justificativa para esse banho de sangue, quando realmente eles estão vinculados ao narcotráfico. É o que evidencia o financiamento da campanha de Iván Duque, que recebeu dinheiro a máfia, e esse é o Centro Democrático, isso é o que se conheceu também com Alvaro Uribe e outros personagens que se vinculam a esse partido", aponta o senador Lozada.

O processo de paz entre o governo nacional e o Exército da Liberação Nacional (ELN), que entrou na fase pública em março de 2016, também sofreu muito com a entrada do governo de Duque. O presidente nunca delegou pessoas para assistir os diálogos na Havana e finalmente suspendeu o processo depois de um atentado em Bogotá, em janeiro do 2019.

Violência de Estado 

A Colômbia vive um conflito armado há mais de 60 anos, que tem como centro a disputa pela terra, como base para viver, produzir alimentos e gerar riquezas.

Por um lado, as guerrilhas lutam pelo direito à terra aos camponeses e à classe trabalhadora; por outro o narcotráfico precisa do terreno fértil para manter a produção de ilícitos – a Colômbia é o maior produtor de cocaína do mundo, segundo a ONU; enquanto os grupos armados irregulares fazem sua riqueza com todo tipo de atividade ilegal, incluindo o contrabando de cultivos.

Os Acordos de Paz firmados pelo governo nacional sob o comando de Juan Manuel Santos e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (Farc-EP) no ano 2016, abordavam uma série de temas, entre eles o uso da terra e a necessidade de uma Reforma Agrária que pudesse equiparar a distribuição do território entre os distintos setores sociais.

A Unidade de Planificação Rural Agropecuária da Colômbia, organismo vinculado às Nações Unidas, sinaliza que 82% das terras produtivas do país estão nas mãos de 10% da população.


Conflito na Colômbia têm origem na luta pela reforma agrária que opõe trabalhadores rurais e proprietários de terras desde os anos de 1920 / Luis Robayo/AFP

O partido governante, Centro Democrático é composto por representantes da oligarquia agrícola e extrativista colombiana. Criado pelo ex-presidente Álvaro Uribe Vélez, o partido também sempre deixou claro sua proximidade com setores do paramilitarismo e seu rechaço absoluto às mesas de diálogo.

E esse grupo se mantém no comando da Casa Nariño durante boa parte das duas últimas décadas, com exceção dos dois mandatos de Juan Manuel Santos (2010 - 2018) que tinha uma perspectiva aberta aos processos de paz com objetivo de pacificar os territórios para que Colômbia pudesse ser um lugar seguro pela investimento estrangeiro. 

Em 2018, a vitória de Duque contra Gustavo Petro concretou a volta do uribismo à Casa Nariño. Justamente por representar agentes econômicos que se beneficiam com a concentração de terras, o partido FARC explica que a violência se tornou uma ferramenta de poder. 

"O terrorismo de Estado é um meio adotado na Colômbia, para que possam impor através do terror os interesses das companhias transnacionais de atividades extrativistas intensivas das nossas riquezas.Também é uma forma e manter esse modelo político", afirma Carlos Lozada. 

"Com um Estado centralizado decidiu garantir a manutenção das máfias nas regiões que não somente têm o controle territorial, como também lucram com atividades ilegais e para isso requerem a existência de grupos paramilitares. O objetivo é claro: impedir que as forças que estão lutando pela paz consigam consolidar-se, porque eles necessitam da guerra, do terror e do medo para dar continuidade ao seu regime político", completa o senador.

Depois dos dias de repressão violenta em Bogotá e outras cidades do país na semana passada, as principais forças políticas, sociais da esquerda na Colômbia emitiram uma declaração “Pelo direito à vida e contra a impunidade: resistência popular e mobilização social.” 

Eles declaram que os massacres e assassinatos nos últimos meses acontecem “num processo de alta militarização dos territórios e da vida que se acentua com a pandemia e se constituiu através de um governo autoritário, fascista, genocida, repressivo e criminoso".

Afirmam que estão “ante um genocídio contra o movimento social como expressão do terrorismo de Estado, o qual se expressa com o aumento dos assassinatos, o deslocamento forçado, as judicializações, o paramilitarismo, a militarização, o narcotráfico, e outras formas que aumentam a guerra e perseguição, sob o olhar cúmplice do governo e autoridades".


A Colômbia é o país com mais bases militares dos Estados Unidos, que anualmente recebem novas tropas do Pentágono / BdF

Relação com os EUA 

Esse mecanismo de usar a violência como ferramenta coercitiva há anos recebe apoio direto dos Estados Unidos. Em setembro do ano passado, a Força Aérea Colombiana (FAC) iniciou exercícios militares conjuntos com os estadunidenses. A operação "Poseidon" teve duração de quatro dias e supostamente buscou afinar a defesa dos dois países contra o narcotráfico

Em 2009, Uribe assinou um acordo com o então chefe da Casa Branca, Barack Obama para instalar sete bases militares no território colombiano. 

“Com a cooperação estadunidense sempre tivemos as duas caras. Uma parte que se apoia em temas como a militarização, que no caso das nossas comunidades, nós mulheres estamos em risco. Por outro lado, está todo o sistema de ajuda humanitária, assim como o fortalecimento de dinâmicas organizativas que eles utilizam com essas duas caracas, como com o programa Colombia Crece”, assegura a defensora de direitos humanos Carabali. 

Tanto para Lozada como para Carabali, a solução para a insegurança generalizada está na pressão popular, que deve exigir o respeito aos Acordos de Paz, assim como o direito à vida e à livre organização.

“Enquanto não se faça justiça, não só o perdão com aqueles de colarinho branco, mas que se faça justiça com todos, incluindo os de colarinho branco, não vamos passar essa página, em que o capitalismo e os mais poderosos deste país seguem exercendo esse controle sobre a população, sobre os recursos, impondo seus interesses a qualquer custo”, declarou Clemencia Carabali.

Além de justiça, o partido FARC também exige uma mudança substancial no país para poder iniciar tempos de paz.

“A paz chegará quando superemos as condições estruturais que deram início ao conflito. Por isso a reforma rural integral, que acabe com o latifúndio; reforma política, que desmonte os caciques políticos nas regiões; a substituição voluntária de cultivos, que vincule esses territórios, historicamente esquecidos pela economia legal. Também precisamos desmontar o paramilitarismo. O Estado deve estar presente nos territórios não somente através da Força Pública. Esse é o caminho que nos levará a uma paz completa e integral e deve abrir a possibilidade de resolver os conflitos ainda vigentes, pela via do diálogo”, finaliza Lozada.

*Trecho da reportagem sobre histórico do conflito foi publicado originalmente em setembro de 2020 no Brasil de Fato

Edição: Vivian Fernandes


terça-feira, 4 de maio de 2021

apoyo a la lucha digna del pueblo colombiano


Compañeres colombianes,

Expresamos nuestro apoyo a la lucha digna del pueblo colombiano en defensa de sus derechos.

Rechazamos la represión sufrida por los manifestantes, el abuso de la fuerza policial y las medidas extremas adoptadas por el gobierno colombiano, como la militarización de ciudades y universidades. Al 2 de mayo, el estado es responsable de 27 personas asesinadas, 124 heridas con 12 personas que perdieron la vista, 6 casos de violencia sexual, 726 detenciones arbitrarias y 45 defensores de derechos humanos que se han visto limitados en su función. En este sentido, queremos comunicar que estaremos atentos para denunciar los abusos de poder cometidos contra los manifestantes colombianos ante los organismos internacionales correspondientes.

Los grupos abajo firmantes defienden la lucha justa por el derecho a la educación y la dignidad y exigen respeto al pueblo colombiano

Afectuosamente
GEASur Grupo de Estudios en Educación Ambiental desde el Sur, UNIRIO

Y otros grupos:

ADUEPB Associação de Docentes da Universidade Estadual da Paraíba

ADUNIRIO - Sindicato de Professores e Professoras da UNIRIO

Casa de la Amistad Argentina

Cátedra Libre Salvador Allende - Universidad de Buenos Aires, Argentina.

Centro de Estudios Trasandinos y Latinoamericanos, ODHRA, UNCuyo, Argentina

Coalizão pelo Clima, MT

Comitê Recuperación Cuartel Borgoño, Chile

Desvio a la Raiz ! - Agricultura Ancestral (Desvio Arijon - Santa Fe - Argentina / Puel Mapu)

Discursos da Ciência e da Tecnologia na Educação - DICITE - UFSC, Santa Catarina, Brasil

EAPEB, UFRJ Rio de Janeiro , Brasil.

Foro Latinoamericano de Inclusión Crítica. Santiago de Chile, Rodrigo Adasme Peña.

GEA, UFJF

Gead , Universidade Federal do Ceará

GEASur Grupo de Estudos em Educação Ambiental desde el Sur - UERN, Rio Grande do Norte , Brasil

GEPEAD - Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação a Distância - UNIRIO

GEPEADS, UFFRJ

GEPTE - UFPA

Grupo de Estudo e Pesquisa em Interculturalidade e Educação em Ciências - GEPIC/UFTM

Grupo de pesquisa em Educação Ambiental desde el Sur - GEASur- UNIRIO, Río de Janeiro, Brasil

Grupo Discursos da Ciência e da Tecnologia na Educação, UFSC

Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte, GPEA-UFMT

Imaginandos, UFRJ

Instituto de Saúde coletiva Unirio

Instituto Paulo Freire

LAUEPAS, UFOP

MOPASOL Movimento por la Paz, la Soberania y la Solidariedad, Argentina

Movimento dos Atingidos por Barragens -MAB

Movimento dos Atingidos por Represas - MAR

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST

Movimento Negro Unificado

Observatório da Educação Ambiental, OBSERVARE

Observatório dos Conflitos do Extremo Sul do Brasil

Rede Internacional de Educação Ambiental e Justiça Climática, REAJA

Rede Mato-grossense de Educação Ambiental, REMTEA

Rede Unida, Brasil

RIEDECT Rede Internacional de Decolonialidade Educação Ciência e Tecnologia

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http://www.ihu.unisinos.br/608968-colombia-comunicado-publico-para-a-comunidade-nacional-e-internacional

Esquema Feminista de Direitos Humanos
enviado ao presidente Iván Duque

Bogotá, Colômbia, 2 de maio de 2021

No cenário das mobilizações que vêm ocorrendo em diferentes cidades do país desde 28 de abril contra a reforma tributária apresentada pelo Ministro da Fazenda, Alberto Carrasquilla, denominada pelo governo de "Lei de Solidariedade Sustentável", o povo colombiano decidiu se manifestar em plena pandemia porque não tem outra opção, porque seus bolsos estão vazios, porque o governo colombiano não tem sido "solidário" com os colombianos e as colombianas, porque tiraram tudo de nós, até mesmo nossas vidas.

Apoiamos e acompanhamos o exercício dos direitos da população que, diante de uma nova tentativa de repressão, está se manifestando nas ruas com gritos de indignação, panelaços arte, música e resistência, à espera de ser escutada. No entanto, o que se recebeu como resposta do governo indolente e mesquinho foi a investida de suas Forças Armadas, Polícia Nacional e ESMAD; como se não bastasse a desumanidade histórica de suas práticas, em meio a uma crise sanitária, o Presidente Iván Duque fez um investimento exorbitante de 14 bilhões de pesos em armamentos militares; e mantém manifestantes de todo o país em ALERTA VERMELHO, com a recente ordem presidencial de ativar o mecanismo de "Assistência Militar" para conter aqueles que ocupam as ruas, o que se traduz na militarização das cidades e territórios onde as pessoas estão exercendo seu direito fundamental e legítimo à livre associação, à liberdade de expressão e ao protesto pacífico.

Desde o último 28 de abril e com a dignidade como bandeira:

A horrível noite não terminou, o Estado colombiano declarou guerra a um povo desarmado!

Consideramos o Estado Colombiano, chefiado pelo Presidente Iván Duque enquanto autoridade máxima das forças militares, responsável por todos os assassinatos, violações, desaparecimentos, detenções irregulares e demais violações dos direitos dos manifestantes nos diferentes territórios onde a assistência militar está em vigor.

Declaramos Estado de Alerta por abuso de autoridade e repressão policial! Entre 28 de abril e 1º de maio, de acordo com a Campanha Defender la Libertad Asunto de Todas, foram relatados 21 assassinatos, 10 casos de violência sexual e violência de gênero, 208 pessoas feridas, 18 delas com lesões oculares, 503 detenções e 42 abusos e ataques contra defensoras e defensores dos direitos humanos. Por sua vez, a Organização Temblores, por meio da plataforma GRITA, registrou pelo menos 940 casos de violência policial, incluindo 92 vítimas de violência física, 672 detenções arbitrárias, 136 intervenções violentas das forças de segurança, 30 casos de disparos com armas de fogo contra manifestantes, bem como o assassinato de pelo menos 8 pessoas, casos que estão em processo de verificação e esclarecimento.

Dada a situação preocupante que o país atravessa, fazemos um chamado urgente à Comunidade Internacional, não só para dar visibilidade às inúmeras violações dos Direitos Humanos na Colômbia; mas também para pressionar o governo colombiano a agir dentro da lei e impedir uma ditadura como a que se aproxima; para exigir garantias à vida dos manifestantes, dos defensores de direitos humanos, da imprensa e dos cidadãos como um todo; e para exigir a revogação da assistência militar em todo o território nacional.

Se nos violarem, assassinarem ou desaparecermos, foi o Estado!

Assinado:

Esquema Feminista de Direitos Humanos

sexta-feira, 30 de abril de 2021

texto e imagem de Pablito Diaz

 

texto e imagem de Pablito Diaz

Arte?

É colírio pros olhos. Batuque cadenciado aos tímpanos. Suave fragrância às narinas. Pura delícia ao paladar.

É o tato do contato.

Um toque gentil. Sinônimo de Vida.

Arte te enche de ar, te leva ao além mar, te embala como a quem amar, te

provoca pra desamarrar-te. 

PdiAZ

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Crise militar de Bolsonaro é a bomba semiótica do não-acontecimento

https://cinegnose.blogspot.com/2021/04/crise-militar-de-bolsonaro-e-bomba.html 

Crise militar de Bolsonaro é a bomba semiótica do não-acontecimento


Desde que a Inteligência militar brasileira emulou a teoria da Guerra Híbrida dos think tanks dos EUA, traduzindo como “guerra cultural” e “operações psicológicas” (ironicamente citando pensadores como Jean Baudrillard e Umberto Eco em artigos de revistas do meio militar) acabou criando o principal protagonista político nesse século: o Partido Militar. Por isso, é absolutamente ridícula a narrativa que a grande mídia criou sobre a “crise” (na verdade, estratégia de dissonância cognitiva da guerra semiótica militar, um não-acontecimento) provocada pela “queda” do ministro da Defesa e dos comandantes das três Forças Armadas. A grande mídia liberta fantasmas e espantalhos que saem de buracos e armários numa espécie de nostalgia vintage (64’s style) da suposta ameaça de golpes ou quarteladas provocadas pelo suposto conflito entre Forças Armadas legalistas versus Bolsonaro golpista. Alguém tem que avisar aos analistas que vivem de notícias plantadas e “vazamentos” que o golpe militar já ocorreu, e não foi televisionado. Por quê?  Porque foi um golpe híbrido.

Os proprietários de um hotel consultam um conselho de relações públicas. Eles perguntam como melhorar o prestígio do hotel e incrementar os seus negócios. Em tempos menos sofisticados, a resposta poderia ser contratar um novo chefe de cozinha, melhorar o encanamento, pintar os quartos, ou instalar um lustre cristalino no saguão de entrada. A técnica do conselho de relações públicas é mais indireta. Ele propõe a supervisão de uma celebração do trigésimo aniversário do hotel. Um comitê é formado, incluindo proeminentes banqueiros, a matrona líder da alta sociedade, um advogado famoso, um pastor influente e um ‘evento’ é planejado (digo, um banquete) para chamar a atenção dos distintos serviços oferecidos pelo hotel à comunidade. A celebração é realizada, são tiradas fotos, a ocasião é amplamente informada e o objetivo é alcançado. Esta ocasião é um pseudo-evento e ilustra todas as suas características. (...) É óbvio, também, que o valor de tal celebração para os proprietários está em ser fotografado e reportado em jornais diários, magazines, cine-jornais, rádio e televisão. É esta cobertura da mídia que dá ao evento o impacto nas mentes de clientes potenciais” (BOORSTIN, Daniel, “The Image: The guide to pseudo-events in America”, New York: Vintage Books, 1992, p.10).

Podemos considerar esta passagem do livro “The Image” (1961), do historiador e crítico social norte-americano Daniel Boorstin (antes dos pós-modernos, um dos primeiros a compreender os impactos das simulações e das imagens na sociedade), a quintessência da natureza das relações da mídia com os acontecimentos – para Boorstin, o momento em que os acontecimentos e o seus produto midiático, as notícias, viram pseudo-eventos.

Nas décadas posteriores, Jean Baudrillard falou em “não-acontecimentos”, Umberto Eco em “eventos-encenação”, Neil Gabler em “efeito Heisenberg”, configurando a abordagem pós-moderna dos fenômenos sociais, marcados por simulações e simulacros.

Para Boorstin eram “estratégias indiretas” (não resolver problemas reais, mas parecer que está resolvendo); para Baudrillard, eventos-simulações para as mídias venderem como simulacros de realidade; em Umberto Eco, eventos simulados com a assessoria da própria mídia; e em Gabler, a mídia mostrando não mais do que o esforço que as pessoas fazem para atrair a atenção da própria mídia.



Curiosamente, em veículos de notícias do meio militar que divulgam análises sobre defesa, estratégia e inteligência (como o DefesaNet ou próprio site do Exército Brasileiro) tornou-se comum na última década encontrar artigos com referências teóricas a esses pensadores pós-modernos – basta o leitor “dar um Google” e encontrará muitos desses artigos.

O fato é que, ironicamente, todos esses conceitos de crítica cultural e política foram operacionalizados como táticas e estratégias nas operações psicológicas de guerra híbrida: pinça, domínio total de espectro, guerra criptografada, limited hangout, abordagem indireta etc.

Estado Profundo Caboclo

Claro que essa operacionalização não foi feita por eles: foi importada dos think tanks da geopolítica norte-americana como, por exemplo, a Foreign Affairs, Council Foreign Relations ou Atlantic Council. Por quê? Para o Brasil não “ficar fragilizado em eventual conflito híbrido” contra nações, ONGs ou o comunismo, que se desintegrou e se tornou viral... – leia CEL. Paulo Cesar Leal, “A Guerra Híbrida: reflexos para o sistema de defesa do Brasil” In: Doutrina Militar Terrestre em Revista, Janeiro/Junho 2016.




O análogo militar nacional da teoria da guerra híbrida foi chamado de “guerras culturais” ou “operações psicológicas” operadas a partir do “Estado Profundo Caboclo”: STF, TCU, CGU, MPF, PF etc. Cujo resultado, já discutido por este Cinegnose, foi um golpe militar brasileiro que não foi televisionado – o golpe militar híbrido, clique aqui.

Por isso, é absolutamente ridícula a narrativa que a grande mídia criou sobre a “crise” (na verdade, estratégia de dissonância cognitiva da guerra semiótica militar) provocada pela “queda” do ministro da Defesa e dos comandantes das três Forças Armadas. Bolsonaro estaria cada vez mais “isolado” e “desgastado” em seu louco projeto de poder ditatorial.

Analistas como Lauro Jardim, Eliane Catanhêde, Andreia Sadi, Thaís Oyama (sempre orgulhosos das suas “fontes”, na verdade especialistas em “agro jornalismo” com expertise em plantar “notinhas” para a imprensa) se apressam em dizer que as Forças Armadas vão se “pautar pela legalidade”, de que “rejeitam o assédio político” e enaltecem o “profissionalismo militar”. As Forças Armadas “resistem ao uso político” que Bolsonaro pretende operar. Militares teriam saído do Governo para “se alinhar ao Judiciário e Legislativo para dizer não ao golpismo Bolsonaro”.

Bolsonaro seria o responsável pela devastação econômica e a catástrofe sanitária e humana da Covid-19, enquanto figuras como o general Paulo Sérgio Noronha (Diretor de Pessoal do Exército) seria o contraponto, ao descrever, em entrevista à grande mídia, o suposto êxito do Exército intramuros em combater a Covid ao adotar postura científica, contrapondo-se à visão negacionista do Governo.




Engenharia do caos

Ora, principalmente desde 2002 quando o Exército criou o 1BTI Op Psic – 1o Batalhão de Operações Psicológicas, a única organização militar dessa modalidade de operação na América Latina (influenciado pela doutrina de segurança da Atlantic Council, de grande penetração no Departamento de Estado dos EUA), as Forças Armadas abandonaram o espírito positivista de “Ordem e Progresso”. 

Desde então, para eles, a arena política virou um teatro de operações (o chamado “terreno humano” nos seus textos sobre guerra psicológica) com o objetivo de confundir o “adversário” ao criar cenários propositalmente caóticos, dissonantes, criptografados.  Um cenário de criação incessante de não-acontecimentos através de eventos simulados ao melhor estilo daquele que Daniel Boorstin descreve sobre a festa no hotel.

É necessário criar fantasmas, espantalhos, para incutir medo e desinformação, mas sempre com contrainformações “plantadas” pelas fontes regulares da grande mídia que sempre soltarão notas tranquilizadoras em torno de expressões como “legalismo”, “profissionalismo”, “respeito às instituições e à Constituição”.

Se não, vejamos:

(a) Perceba, caro leitor, o timing preciso dessa simulação de crise da troca acelerada de ministros: a proximidade do 31 de março, aniversário da “revolução” de 1964. Com o general Braga Netto, novo ministro da Defesa, aumentando a temperatura da crise ao afirmar que o dia “deve ser compreendido e comemorado”. Fantasmas e espantalhos saem de seus buracos para assombrar tanto a grande mídia quanto a progressista: vai ter quartelada? Bolsonaro vai dar o golpe? Tática diversionista para: (1) encobrir o fato que, atualmente, o Partido Militar é o principal agente político; (2) fazer o Exército se livrar da catástrofe sanitária provocada pelo general Pazuello, um militar “alinhado a Bolsonaro”.




(b) Sincronicamente, alguns dias antes do gatilho da simulação ser disparado, a grande mídia repercutiu a notícia de que mais de 500 civis foram mortos no golpe militar em Mianmar. Imagens do caos nas ruas e grupos rebeldes enfrentando soldados ganharam destaque no jornalismo corporativo. Alerta subliminar: o distante país asiático Mianmar seria nós amanhã?

(c) Nenhum bombeiro chega ao local do incêndio e grita para as vítimas presas no prédio em chamas: “Fudeu! Vai todo mundo morrer!”. Não, ele tenta acalmar, assim como a grande mídia, peça ativa nesse jogo de dissonância cognitiva: após os analistas terem sido “pegos de surpresa” com a reforma ministerial generalizada e a imediata saída do comando das Forças Armadas, vozes gaguejantes e expressões do tipo “fudeu! Corram para as montanhas!”, vem o calmante... “mas as Forças Armadas são legalistas, profissionais e preservam suas funções constitucionais...”.

(d) Para aumentar ainda mais a temperatura do caos e reforçar o seu personagem golpista, Bolsonaro toma duas iniciativas propositalmente apressadas e toscas. E, como sempre, o jornalismo corporativo deu o habitual verniz da verossimilhança: (1) Bolsonaro entra com ação de inconstitucionalidade no STF contra as restrições de governadores na pandemia. Tão tosco e apressado que foi enviado sem a assinatura do Advogado Geral da União, José Levi, sendo prontamente rejeitado pelo Ministro Marco Aurélio; (2) o inexperiente deputado bolsonarista Major Vitor Hugo (PSL) propôs  um projeto de lei que previa o uso do instituto da “Mobilização Nacional” em casos de pandemia e desastres naturais, aos moldes do que é previsto atualmente na legislação em caso de guerra. O que daria plenos poderes de guerra ao presidente. 

O projeto sequer entrou na relação de temas a serem debatidos no Plenário. Mas foi o suficiente para a grande mídia levantar mais um espantalho, criando o pavor vintage (64’s style) da “quartelada” ...  Afinal, não tá acontecendo o mesmo em Mianmar?...

(e) De repente, e estranhamente, os analistas da grande mídia citados acima se tornaram especialistas em Forças Armadas (aparentemente conhecem todos os seus rituais, critérios promocionais das carreiras, a têmpera legalista e patriótica das casernas etc.). Tão especialistas que são capazes de ter informantes que “vazam” a atmosfera de reuniões fechadas; “Comandantes foram surpreendidos com demissão em reunião com tapa na mesa e falas ríspidas”, dão a manchete Catanhêde e Roberto Godoy no Estadão (clique aqui)... O texto diz que o Estadão “apurou”... com quem? Com o copeiro? É o paroxismo do jornalismo de notas e plantações (“agro jornalismo”).




Daniel Boorstin chamaria de “pseudo-evento”. Como cenário caótico geral estrategicamente montado e simulado é um não-acontecimento.

(f) A entrevista do general Paulo Sérgio Nogueira ao jornal Correio Brasiliense exaltando o apego intramuros das Forças Armadas à Ciência e à OMS, dizendo que “atualmente não há lugar mais seguro para um jovem do que um quartel”, revelou muitos mais coisas do que realmente quis dizer. Revelou que a orientação negacionista do Governo militar (para os soldados, a Ciência; para o povo, a cloroquina) é mais uma ferramenta de militarização da teoria do caos – o “caos administrado” com literalmente um vírus que subverte o sistema social. 

Caos que cria o chamado “Loop OODA”(Observação, Orientação, Decisão, Ação) fazendo o adversário agir contra seus próprios interesses. Como no episódio da falta de oxigênio em Manaus, crise propositalmente criada por Pazuello, para deixar aos profissionais da Saúde com uma única opção: transferir paciente para outros Estados... e involuntariamente ajudarem a política necrófila de espalhar a nova variante da Covid para outras capitais do País.

(g) Mas quem ganha? A ponta do fio do novelo está nessa manchete dada pela “agro jornalista” Andreia Sadi, do G1 no ano passado: “Bolsonaro quer Forças Armadas contra Moro e STF, mas generais não avalizam ataques - Cúpula das três Forças Armadas se irritou com a fala do presidente quando ele disse que as Forças estão ao seu lado”. 




Matrix semiótica binária

De um lado, Bolsonaro é o fusível para ser queimado; e do outro, Lula é o “comunismo viral” contra a qual as Forças Armadas agem com suas psy ops – assim como foram João Goulart e JK (e sua misteriosa morte na via Dutra) no passado. E Moro é a terceira via, ou, pelo menos, um novo candidato manchuriano em teste. Candidato a celebridade-herói no imaginário nacional que foi lançado alguns dias antes no vídeo da “Gabi da FGV” – clique aqui.

A propósito, sincronicamente a Fundação Getúlio Vargas tem uma ativa parceria com o Exército, promovendo cursos para oficiais sobre Gestão da Inovação Tecnológica e pesquisas (prontamente repercutidas pelo site do Exército) que apontam as Forças Armadas como a instituição com maior credibilidade no País – clique aqui.

E nessa prisão da matrix semiótica binária (Forças Armadas legalistas X Bolsonaro golpista; Bolsonaro extremista X Lula comunista viral – sempre com a corda no pescoço da judicialização – e a solução da terceira via sempre com o candidato manchuriano do momento) que se encontra o campo progressista, atordoada com tantas informações dissonantes. E paranoica com um golpe militar 64’s style.

Alguém tem que avisar que o golpe militar já ocorreu. E não foi televisionado.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Covid, a última herança do Colonialismo

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Covid, a última herança do Colonialismo

Desde século XVI, impérios europeus produziram mudança antropológica abrupta. Capital converteu a agricultura, antes integrada aos ecossistemas, em commodities cultivadas nas colônias. Daí vieram o latifúndio, o agronegócio e… as pandemias!

Por Rob Wallace, no New Internationalist  |Tradução: Simone Paz | Imagem: Federico Boyd Sulapas Dominguez

O SARS-CoV-2, o coronavírus por trás da Covid-19, avança. Infecta centenas de milhares de pessoas por dia no mundo inteiro. Em países que não souberam lidar corretamente com o surto — entre eles, os EUA, a Grã-Bretanha e o Brasil — a retórica do governo muitas vezes sugeriu, no início e antes da vacina, deixar o coronavírus “seguir seu curso”. Com pouco apoio científico, políticos como Donald Trump declararam que uma imunidade de rebanho mítica — deixando milhões de mortos em seu rastro — nos salvaria.

O agronegócio também proclama que a indústria que ajudou a desencadear muitos dos surtos letais do século é precisamente o caminho a seguir. Grandes empresas e cartéis dizem que biossegurança, tecnologia e economias de escala — quanto maior, melhor — são a única maneira de nos protegermos de outra pandemia. Sem levar em consideração que a produção do agronegócio (e a grilagem de terras realizada em seu nome) são, comprovadamente, responsáveis pelo surgimento de vários patógenos nas últimas duas décadas.

Como chegamos a nesse momento da história, em que as próprias causas da crise em curso são repetidamente apresentadas como sua solução?

* * *

A agricultura moderna emergiu de mãos dadas com o capitalismo, com o comércio global de escravos e a ciência. Os países europeus empregaram os primeiros cientistas imperiais para decodificar as novas paisagens e povos que seus navios encontravam nas viagens de conquista. A ciência imperial também ajudou a recodificar essas terras e povos para a acumulação de capital.

Da Europa e África, os estágios posteriores do capitalismo expandiram-se pelas Américas, pelo Cáucaso e os trópicos, transformando em commodities de exportação aquelas paisagens alimentares que eram cultivadas localmente. De 1700 a 2017, as áreas de cultivo e pastagens em grande escala se expandiram cinco vezes, para 27 milhões de km2. A prática de industrializar a pecuária e a produção agrícola atingiu novos patamares após a Segunda Guerra Mundial.

Agora, 40% da superfície terrestre livre de gelo é dedicada à agricultura e representa o maior bioma do planeta. Muitos milhões de hectares a mais serão colocados em produção até 2050, especialmente no Sul Global, onde as poucas terras agrícolas “virgens” restantes serão separadas das últimas florestas tropicais e savanas. As aves e o gado, vivos, hoje, representam 72% da biomassa animal global, ultrapassando de longe a biomassa total da vida selvagem dos vertebrados. Animais industrializados estão começando a se espalhar pelo mundo em verdadeiras cidades de porcos e galinhas. O que antes era o Planeta Terra, virou um “Planeta Fazenda”.

Essas expansões estão interligadas por circuitos de capital e consumo. Os circuitos geram um volume crescente de comércio de animais vivos, produtos, alimentos processados e germoplasma. As áreas de monocultura em ascensão, são caracterizadas pelo declínio da diversidade de animais e plantações, à medida que as intervenções técnicas selecionam algumas variante genéticas em detrimento de todas as outras. A diversidade também é perdida à medida que as empresas se consolidam.

Essas mudanças impulsionadas pela economia, produziram profundos impactos em nossa ecologia e saúde pública.

Imensos currais para criação de gado na África do Sul

A produção de linhagens limitadas de espécies monogástricas (de “estômago único”), principalmente porcos e aves, faz com que raças adaptadas localmente, de uma ampla variedade de animais, sejam deslocadas em países não-industriais. Tendências semelhantes são encontradas em plantações que alimentam populações humanas e em animais industriais. Com o avanço da agricultura, o habitat natural primário e as populações não humanas contraem-se a taxas recordes, destruindo nesse percurso terras indígenas e de pequenos proprietários — e seus meios de subsistência.

O desmatamento e o desenvolvimento estão aumentando a taxa — e o escopo taxonômico — de transferência de patógenos do universo selvagem para os animais criados com fins de alimentação e seus cuidadores humanos. A Covid-19 representa apenas uma de uma série de novas cepas de patógenos que surgiram ou ressurgiram repentinamente no século XXI como ameaças à humanidade. Esses surtos — gripe aviária e suína, Ebola Makona, febre Q, Zika, entre muitos outros — estão todos vinculados a mudanças na produção ou no uso da terra, em associação à agricultura intensiva, bem como à exploração madeireira e mineração.

Os patógenos surgem de maneira diferente, dependendo do local e da commodity produzida. Mas todos estão interligados na mesma teia de danos ambientais e expropriação global, o que explica a natureza intercontinental desses novos patógenos. SARS na China. MERS no Oriente Médio. Zika no Brasil. H5Nx na Europa. Gripe suína H1N1 na América do Norte.

Como a produção conduz a esses surtos? Em uma ponta, no início da cadeia de commodities de uma região, a complexa diversidade da floresta primária reprime os patógenos “selvagens”. Os potenciais hospedeiros são encontrados irregularmente. Mas a extração transnacional de madeira, a mineração e a agricultura intensiva mudam essa dinâmica. Elas simplificam drasticamente a complexidade natural. Enquanto muitos patógenos morrem junto com suas espécies hospedeiras, um subconjunto de infecções que antes se esgotava de forma relativamente rápida na floresta pode, de repente, se propagar muito mais amplamente.

O Ebola é um exemplo clássico. Desde meados da década de 1970, os surtos de normalmente atingiam uma ou duas aldeias subsaarianas antes de se extinguir. Em 2013-15, a cepa Makona emergiu ao longo de uma fronteira de monocultura de palmas de dendê, em uma paisagem cada vez mais expropriada e globalizada da África Ocidental.

Embora pouco diferenciado em sua genética ou curso clínico, em comparação com os surtos anteriores de Ebola, a cepa Makona iria infectar 35 mil pessoas, matando milhares que viviam em grandes cidades de repente, a apenas um voo de distância de todo o resto do mundo.

A seleção natural da letalidade

Frangos criados em galpões para até 250 mil aves, e abatidos com apenas 6 semanas. Redução da idade de corte pode favorecer patógenos mais mortais, que vitimam aves jovens

Outras doenças surgem na outra ponta da cadeia produtiva. Gripes aviária e suína, mortais e adaptadas aos humanos, geralmente surgem em operações intensivas localizadas perto das principais cidades do norte e do sul. De 1959 em diante, das 39 transições documentadas em gripes aviárias que passaram de baixa para muito alta letalidade, todas, exceto duas, ocorreram em operações avícolas comerciais, tipicamente de dezenas ou centenas de milhares de aves. As operações intensivas estão tão inundadas com a circulação da gripe aviária e suína que agora servem como seus próprios reservatórios para novas cepas. As populações de aves aquáticas selvagens não são mais a única fonte.

O que há nessas fazendas industriais que faz com que gerem tais infecções?

Perus industriais são criados em gaiolas com 15 mil aves. As galinhas poedeiras industriais são espremidas em galinheiros de até 250 mil aves. O cultivo de animais em monoculturas remove os aceiros imunológicos que normalmente eliminariam os surtos em populações mais diversas. Os patógenos evoluem rotineiramente em torno dos genótipos comuns e imunes do hospedeiro do gado industrial. A superlotação e a falta de higiene induzem um forte estresse nesses animais, o que pode deprimir sua resposta imunológica e torná-los mais vulneráveis à infecção. Alojar altas concentrações de gado e aves domésticas favorece as linhagens de patógenos que podem se espalhar mais rapidamente em meio a eles.

Os animais passaram a ser abatidos cada vez mais jovens. O abate de galinhas em apenas 6 semanas, e de porcos em 22 semanas, pode selecionar uma maior letalidade por patógenos, incluindo infecções que são capazes de sobreviver a sistemas imunológicos mais jovens e mais robustos. A produção do tipo “todos dentro todos fora” — uma tentativa de controlar surtos criando gado em lotes — pode acabar selecionando inadvertidamente infecções que se alinham aos tempos de vida que a indústria define para seus rebanhos. Ou seja, as linhagens bem-sucedidas desenvolvem uma duração específica, que mata animais de fazenda adultos perto do abate, quando o estoque é mais valioso.

Com a reprodução local eliminada, e transferida para inseminações externas ao rebanho — principalmente para mercados que demandam mais carne e crescimento rápido — as populações de gado também são incapazes de desenvolver resistência aos patógenos circulantes. Como os sobreviventes não se reproduzem, eles não conseguem transmitir sua resistência.

Do lado de fora dos portões da fazenda, a distância cada vez maior que os animais vivos percorrem em seu transporte expandiu a diversidade dos segmentos genéticos que os patógenos trocam, aumentando a proporção e as combinações pelas quais as doenças exploram suas possibilidades evolutivas. Quanto maior a variação em sua genética, mais rapidamente os patógenos evoluem.

Em resumo, ao industrializar a produção de carne, o agronegócio mundial também industrializa os patógenos que circulam entre rebanhos e aves.

As origens da Covid-19 são uma espécie de mistura dessas duas pontas de nossos circuitos de produção, a floresta e a fazenda industrial.

Os coronavírus são hospedados por morcegos em todo o planeta. Mas a cepa hospedada pelos morcegos na China parece atingir ainda mais os humanos, quando salta com sucesso entre espécies. O ambiente em que vivem esses morcegos também mudou fundamentalmente.

Com a liberalização econômica pós-Mao, a China avançou na rota de desenvolvimento dos BRICS, com a intenção de alimentar seu povo com seus próprios recursos naturais. Milhões de pessoas foram tiradas da pobreza. Milhões foram deixadas para trás. Com seus prós e contras, ao fazer este percurso, o agronegócio chinês e um setor de alimentos silvestres cada vez mais capitalizado atravessam a paisagem do centro e do sul da China, onde habitam muitas dessas populações de morcegos.

Assim como aconteceu com o Ebola, as interfaces entre morcegos, gado, animais selvagens, fazendeiros e mineiros expandiram-se nesta fronteira de commodities, aumentando o tráfego de vários coronavírus semelhantes ao SARS. O aumento das aplicações de pesticidas, em uma escala muito maior até do que a dos exagerados EUA, pode ter reduzido as populações de insetos que alimentavam esses morcegos. Isso pode ter aumentado a interface dos hospedeiros do coronavírus compartilhada com as populações humanas, à medida que os morcegos expandiam seu raio em busca de alimento.

Com os alimentos silvestres e as linhas de produção agrícola aumentando em extensão e velocidade, muitos coronavírus semelhantes ao SARS, que se espalharam com sucesso em animais usados para fins alimentícios ou em humanos, agora podem fazer seu caminho em um curto espaço de tempo, através da paisagem urbana periférica, rumo a capitais regionais como Wuhan — para, então, entrar na rede global de viagens.

As saídas possíveis

Parece que estamos presos numa armadilha. Há algo que se possa fazer a respeito?

Primeiro, é preciso rejeitar o mundo “normal” que nos trouxe essa bagunça. Cultivar alimentos não é fabricar objetos. Alimentos não são aparelhos. A agricultura deve deixar de ser uma economia industrial, para tornar-se algo mais parecido com uma economia natural. Devemos voltar a assimilar o respeito pelo contexto dos alimentos — o solo, a água, o ar, a matriz ecológica e o bem-estar da comunidade dos quais dependem os alimentos e as pessoas que os comem.

Para eliminar os patógenos mais mortais, devemos preservar a complexidade da floresta (e dos pântanos), mantendo barreiras ecológicas entre morcegos, gansos e outros reservatórios de doenças naturais e os animais criados para alimentação. Devemos reintroduzir a agrobiodiversidade nos rebanhos e nas aves para servir como barreira imunológica contra patógenos mortais, tanto em fazendas quanto em paisagens inteiras. Devemos voltar a permitir que o gado se reproduza naturalmente, para que os rebanhos possam se proteger dos patógenos sem necessidade de antibióticos. Essas intervenções requerem a restauração do locus de controle para as comunidades rurais, e a distância do agronegócio.

Ou seja, em primeiro lugar, para evitar que os piores surtos eclodam, devemos nos voltar para um tipo de planejamento estatal com foco na autonomia do agricultor, na resiliência socioeconômica da comunidade, em economias circulares, redes integradas de fornecimento cooperativo e reparações. Devemos desfazer o trauma profundamente histórico de raça, classe e gênero, situado ao centro da grilagem de terras e da alienação ambiental.

Na cena mundial, devemos acabar com as trocas ecologicamente desiguais entre o Norte e o Sul. Curar a fenda metabólica que surgiu no cerne da agricultura moderna — esse abismo entre a ecologia e a economia que impulsiona o surgimento de patógenos e danos climáticos — requer semear uma filosofia política diferente.

Apostar que o agronegócio, principal fonte da crise pandêmica, fornecerá a solução é, no mínimo, fútil. É possível fazer tudo diferente, se estivermos dispostos a voltar a refletir e agir.

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