Luciano Hang acumula 5,5 milhões de interações no Instagram só com desinformação sobre Covid-19
Por Débora Ely e João Barbosa
29 de setembro de 2021, 11h28
O empresário Luciano Hang, ouvido pela CPI da Covid-19 nesta quarta-feira (29), alcançou 5,5 milhões de interações com conteúdos desinformativos sobre a pandemia no Instagram — rede social em que é mais popular. O montante representa a soma de curtidas e comentários das 120 postagens com alegações enganosas relacionadas ao novo coronavírus identificadas pelo RadarAos Fatos no perfil do dono das lojas Havan.
Chamado à CPI para explicar se ajudou o governo Bolsonaro a disseminar informações falsas desde o início da pandemia, Hang demonstra em sua conta no Instagram, com 3,8 milhões de seguidores, alinhamento total ao discurso adotado pelo presidente. Ele defendeu medicamentos ineficazes para combater a Covid-19 e distorceu informações ao se posicionar contra o distanciamento social e ao comentar dados de óbitos e da vacinação.
A alegação falsa mais frequente no perfil do empresário é a promoção de remédios do suposto “tratamento precoce” contra a Covid-19, como hidroxicloroquina e ivermectina. Hang defendeu o uso de drogas, que não funcionam para prevenir e curar a doença, em 61 posts, atingindo mais de 2,3 milhões de interações.
Nessas publicações, Hang associou a administração dos medicamentos à retomada do trabalho presencial no país mesmo quando já havia evidências científicas contrárias. Em 3 de março deste ano, por exemplo, escreveu: “Precisamos vacinar, aplicar o tratamento precoce e trabalhar!”. O empresário também mencionou casos de cidades como Chapecó (SC), Porto Feliz (SP) e Rancho Queimado (SC) para defender o uso das medicações, argumento que já foi desmentido por Aos Fatos.
Também foi recorrente o uso de alegações enganosas para atacar medidas de distanciamento social implementadas por prefeitos e governadores, como restrições de atividades comerciais. Hang publicou 38 posts desinformativos sobre o tema, atingindo 2 milhões de interações.
Na maior parte desses conteúdos, o empresário alega que o lockdown é “inútil” ou que não tem “comprovação científica” para frear o contágio. Este argumento é falso, uma vez que diversos estudos indicam que medidas de restrição de circulação têm papel determinante na redução da transmissão do vírus. Discurso semelhante já foi repetido ao menos 43 vezes por Bolsonaro, de acordo com o contador de checagens do Aos Fatos.
Em suas críticas ao lockdown, Hang também propagou a tese de “isolamento vertical”, que consistiria na restrição de circulação apenas de idosos e de pessoas com comorbidades. Os senadores que compõem a CPI investigam se essa ideia, que já foi defendida por figuras como o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), teria sido uma das apostas do governo federal para aumentar a contaminação em busca da chamada “imunidade de rebanho”.
Hang ainda publicou outros 21 posts, que atingiram pouco mais de um milhão de interações, com distorções a respeito de dados de óbitos por Covid-19 e imprecisões sobre o status da vacinação no país. Entre abril e julho, por exemplo, ele afirmou que o Brasil estava entre os países que mais haviam vacinado no mundo, levando em conta números absolutos e não proporcionais à população — Bolsonaro também recorreu à alegação semelhante mais de 50 vezes nos últimos meses.
Apareceram ainda no Instagram do empresário outras narrativas usadas pelo presidente ao longo da crise, como a de que o STF (Supremo Tribunal Federal) atribuiu a responsabilidade de ações para o controle da pandemia a governadores e prefeitos e a de que a CoronaVac não é eficaz contra a doença — o que é falso.
Por fim, o RadarAos Fatos identificou que Hang fez referência, em pelo menos 18 postagens, a pessoas que são apontadas pela CPI como integrantes de um “gabinete paralelo” que estaria assessorando Bolsonaro à margem do Ministério da Saúde. Esses posts tiveram 1,8 milhão de interações, e o nome mais mencionado foi o do empresário Carlos Wizard. Ele e Hang encamparam uma campanha frustrada pela compra de vacinas pela iniciativa privada.
OUTRO LADO
O RadarAos Fatos entrou em contato com a assessoria de imprensa das lojas Havan, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.
METODOLOGIA
O RadarAos Fatos coletou por meio da ferramenta CrowdTangle todos os posts publicados por Luciano Hang no Instagram entre 11 de março de 2020, data em que a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou a pandemia, e a última segunda-feira (27), que continham termos relacionados à Covid-19 — no total, foram 406 publicações. Depois, analisou individualmente cada uma das postagens e classificou aquelas que continham alegações enganosas sobre o novo coronavírus.
Três ações judiciais colocam em xeque política ambiental do governo Bolsonaro
No Dia Mundial do Meio Ambiente, ações protocoladas no Supremo Tribunal Federal e na Justiça Federal do estado do Amazonas questionam atitudes e omissões do Ministério do Meio Ambiente.
A Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa), quatro partidos políticos — PSB, PSOL, PT e Rede Sustentabilidade — Greenpeace e Instituto Socioambiental (ISA) entraram hoje, 5 de junho, com ações na Justiça contra o governo Jair Bolsonaro. Elas correm em diferentes frentes: exportação de madeira sem fiscalização e congelamento dos fundos Amazônia e Clima.
As peças jurídicas se basearam em documentos técnicos compilados pelo Observatório do Clima, rede composta por 50 organizações da sociedade civil. As análises concluíram que o governo federal atendeu a madeireiros e deixou de aplicar a lei na exportação de madeira contra a orientação de especialistas do Ibama, além de colocar a floresta amazônica e o clima global em risco ao congelar o Fundo Amazônia e o Fundo Nacional sobre Mudanças Climáticas (Fundo Clima).
A primeira é uma ação civil pública (ACP) contra União e Ibama, tem como autores a Abrampa, o Greenpeace e o ISA. Foi impetrada na Justiça Federal do Estado do Amazonas e exige a anulação de despacho emitido pelo presidente do Ibama, Eduardo Bim, que liberou a exportação de madeira nativa sem fiscalização, a pedido expresso de madeireiras. O despacho se aplica a todo o país, mas afeta especialmente a Amazônia.
Bim assinou o documento em fevereiro, vinte dias após a Associação de Exportadores de Madeira do estado do Pará (Aimex) solicitar o fim das inspeções, que alegavam ser “complicadas” e “obsoletas”. A área técnica do Ibama deu parecer contrário à liberação. Bim não apenas o ignorou, como também exonerou o principal autor do documento.
A segunda e a terceira peças são ações diretas de inconstitucionalidade (Adin), por omissão da União, movidas pelos partidos PSOL, PSB, PT e Rede, no Supremo Tribunal Federal. Elas exigem a retomada imediata dos fundos Amazônia e Clima, principais mecanismos financeiros da política climática brasileira, que permitiriam ao país cumprir a Lei nº 12.187, da Política Nacional sobre Mudança do Clima, bem como o compromisso brasileiro no Acordo de Paris. Ambos os fundos estão congelados por um ano e meio, desde que o governo Bolsonaro assumiu.
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, dissolveu os dois comitês do Fundo Amazônia em 2019, sob alegações jamais comprovadas de que os contratos das ONGs tinham "indicativos de irregularidades” e que a queda do desmatamento — objetivo geral do Fundo — era um resultado “interpretativo” nas análises apresentadas em relatórios. Suas tentativas de recriar os comitês controlando sua composição foram rejeitadas pela Noruega e pela Alemanha, principais doadores. Independentemente de novos aportes e dos projetos em andamento contratados até 2018, há cerca de R$ 1,5 bilhão parados na conta do Fundo. Com isso, o governo federal, que sempre usa a falta de recursos para justificar a inação na política ambiental e nas ações voltadas à questão climática, deixa de usar os recursos.
O objeto da terceira ação é o Fundo Clima, estabelecido em 2009 para financiar ações de mitigação e adaptação com royalties de petróleo e empréstimos com juros especiais, por meio do BNDES. No início do mandato, o ministro Salles dissolveu a Secretaria de Mudanças Climáticas, o órgão governamental responsável pelo Fundo Clima. E, em abril do ano passado, um decreto do presidente Bolsonaro extinguiu seu comitê gestor. Assim, ele permaneceu inativo durante todo o ano.
Em 2019, havia autorização orçamentária para aplicação de R$ 8,050 milhões não reembolsáveis no fomento a estudos, projetos e empreendimentos. No fechamento do ano, foram empenhados pouco mais de R$ 718 mil, mas sem registro ainda de liquidação. Quanto aos recursos reembolsáveis, geridos pelo BNDES, estavam disponíveis mais de R$ 500 milhões, mas só cerca R$ 348 mil foram empenhados. No entanto, o direcionamento desses recursos ao BNDES também não se concretizou. A ação exige que o fundo seja imediatamente descongelado e que se desenvolva um plano para usar os recursos não apenas em 2020, mas também para os próximos dois anos.
Declarações
“A Abrampa cumprindo seu objetivo de defesa do meio ambiente na semana em que se comemora o Dia Mundial do Meio Ambiente, pleiteia no Judiciário anular mais um dos atos lesivos contra as florestas no Brasil. Nossa associação não poderia se furtar a garantir a proteção da Floresta Amazônica contra um ato que possibilita a exportação de madeira extraída ilegalmente em seu território, destruindo esse rico patrimônio nacional que pertence ao povo brasileiro e estimulando ainda mais a prática de crime ambiental. Desse modo, nos juntamos a todos que buscam um mundo sustentável para propor ao Judiciário que estabeleça um fim para tal iniquidade.” Cristina Seixas – presidente da Abrampa
“Este é um governo que abriu mão do seu papel de proteger a floresta para incentivar o desmatamento. Como resultado, a destruição, o crime e a violência explodiram na Amazônia. Cabe agora à sociedade cuidar do maior patrimônio ambiental dos brasileiros. É o que estamos fazendo hoje.” Tica Minami, diretora de Programas do Greenpeace Brasil
"A sociedade civil vai fazer a sua parte para garantir a proteção ambiental. Esperamos que o Poder Judiciário também faça a sua e impeça Salles de passar a boiada contra o meio ambiente." Maurício Guetta,consultor jurídico do Instituto Socioambiental
“No Brasil, o meio ambiente vive o seu pior momento. Temos o pior ministro do meio ambiente da história, que trabalha dia e noite para enfraquecer a agenda ambiental, o que, lamentavelmente, vem produzindo péssimos resultados para esse setor e para a imagem do país. Como não podemos esperar do Poder Executivo qualquer ação de proteção ambiental, estamos recorrendo ao Judiciário, na esperança de que ele nos ajude a proteger a Amazônia.” Alessandro Molon, deputado federal, PSB - RJ
"Por ter a visão que a preservação ambiental é um entrave aos lucros dos grandes exploradores dos recursos naturais, Salles atua como operador de interesses incompatíveis com a Constituição de 1988, que garante o direito de todos os brasileiros ao meio ambiente ecologicamente equilibrado." Nilto Tatto,deputado federal, PT-SP
“Com Bolsonaro, tanto o meio ambiente quanto as próprias liberdades democráticas estão sob constante ameaça. Não ficaremos calados assistindo esse governo destruir nosso país. As ações que estamos movendo hoje contra o governo e seus integrantes é um ato de resistência em defesa do Brasil.” Fernanda Melchiona,deputada federal, PSOL-RS
"O Brasil passa por um dos momentos mais sensíveis de sua história recente, em particular na questão socioambiental. Temos presenciado um desmonte desenfreado das estruturas de proteção ao meio ambiente, capitaneada pelo ministro do Meio Ambiente. As duas ações de inconstitucionalidade por omissão que foram distribuídas buscam justamente frear esse desmonte; pretendem diminuir os ataques ao meio-ambiente. A retomada do regular funcionamento do Fundo Clima e do Fundo Amazônia são essenciais para o combate às mudanças climáticas e à preservação da floresta amazônica e não podem ser paralisados pela inércia e omissão do governo federal." Pedro Ivo Batista, porta voz nacional da Rede Sustentabilidade
“A governança climática no Brasil ficou paralisada no momento crítico em que o país precisava começar a implementar seus compromissos assumidos no Acordo do Clima de Paris. Isso ocorreu por ato deliberado do governo. Na reunião de 22 de abril, o ministro Salles disse temer que as ações do governo fossem objeto de ‘pau no Judiciário’. É exatamente isso que estamos ajudando a fazer, em comemoração ao Dia Mundial do Meio Ambiente.” Márcio Astrini, secretário-executivo doObservatório do Clima.
Detalhes das ações
ACP da exportação de madeira
Proposta na Justiça Federal do Amazonas, foca nos procedimentos de fiscalização e controle da exportação de madeira nativa. O objeto principal é declarar a nulidade do Despacho nº 7036900/2020, emitido pelo presidente do Ibama em 25 de fevereiro. Para obtenção da autorização de exportação de produtos e subprodutos madeireiros de espécies nativas, o interessado deve apresentar no Ibama, para fins de inspeção e liberação, uma série de documentos. O despacho argumenta que a existência do Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais (Sinaflor) e a Lei de Liberdade Econômica elimina esses requisitos. Também passa a admitir o uso para exportação de documentos de transporte expedidos por sistemas estaduais, o que implica ausência de controle federal.
Adin do Fundo Amazônia
Por omissão da União quanto à adoção de providência de índole administrativa, ela objetiva a suspensão da paralisação do Fundo Amazônia. Desde o início do atual governo, sob liderança de Salles, a estrutura de governança do Fundo foi implodida, o que acarretou na paralisação da contratação de novos projetos pelo Fundo, além da paralisação de novos aportes pelos doadores noruegueses e alemães. O fato é que há cerca de R$ 1,5 bilhão parados na conta do Fundo, que não foram destinados a novos projetos. Trata-se de uma inação calculada e ideológica, que tem o Judiciário como único caminho para sua reversão.
Adin do Fundo Clima
Por omissão da União por não adotar providências de índole administrativa relativas ao funcionamento do Fundo Clima, com todos os recursos autorizados pela lei orçamentária (abrangidas as modalidades não reembolsável e reembolsável) e permitindo sua captação por órgãos e entidades da administração pública direta e indireta (federal, estadual e municipal), fundações de direito privado (incluídas as fundações de apoio), associações civis, empresas privadas, cooperativas e outros possíveis beneficiários. A ação pleteia que o fundo seja imediatamente descongelado e que o Ministério do Meio Ambiente desenvolva um plano para usar o recurso em 30 dias, além de elaborar os planos para os próximos dois anos.
Sobre o Observatório do Clima
Rede formada em 2002, composta por 50 organizações não governamentais e movimentos sociais. Atua para o progresso do diálogo, das políticas públicas e processos de tomada de decisão sobre mudanças climáticas no país e globalmente. Site: www.observatoriodoclima.eco.br.
Levantamento inédito revela que em 2020 aumentaram os gastos com publicidade para mostrar que país “está no rumo certo”; Secom já contratou mais de R$ 300 mi em campanhas
Por Bruno Fonseca
Cerca de 50 filmes. Publicidade em jornais, rádios, televisão, cinema, na internet e em outdoors. Uma campanha em todos os estados brasileiros para mostrar “como cada ato do governo beneficia diretamente o cidadão e faz mudar seu dia a dia para melhor”, segundo palavras do próprio secretário de Comunicação da Presidência, Fábio Wajngarten. Tudo isso a um custo que supera os R$ 14 milhões – parte do valor contratado durante os meses de março e abril, período em que o país passa pela pandemia do novo coronavírus.
Segundo apuração inédita da Agência Pública com dados públicos e por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), apenas em março e abril a campanha “Agenda Positiva”, da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom), contratou R$ 5,8 milhões em ações de agências de publicidade. Desse total, R$ 4 milhões ocorreram após a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter declarado, em 11 de março, a Covid-19 como pandemia.
Além desses gastos, desde março a Secom contratou outros R$ 8,4 milhões para a campanha “Brasil no Exterior”. De acordo com material do próprio governo, a campanha é para “combater a percepção do país no exterior, face a alguns temas negativos que estão sendo veiculados e repercutidos internacionalmente”, sobretudo as “notícias negativas em relação ao governo e à conduta do Presidente”. Do total, R$ 6,3 milhões foram contratados após a OMS já ter declarado pandemia do novo coronavírus. A maior parte desses gastos foi acertada após o Brasil já ter registrado mortes por Covid-19.
Ao todo, as duas campanhas levaram a R$ 10,3 milhões de contratos atestados após a OMS ter declarado a pandemia da Covid-19, quando o Brasil já tinha centenas de casos registrados da doença.
Gastos com campanha que diz que “país está no rumo certo” explodem em 2020
Desde o início do governo Bolsonaro, a Secom já registrou mais de R$ 304 milhões em contratos de publicidade, comunicação digital, eventos e campanhas em rádio e TV, além de atividades de assessoria e relações públicas no exterior. Esse valor foi repassado a 11 agências de comunicação, que promoveram ações publicitárias e compraram anúncios em veículos brasileiros e estrangeiros, além de campanhas em redes sociais.
Somente no período da pandemia do novo coronavírus, a Secom fechou mais de R$ 18,2 milhões em contratos para diversas ações. A maior parte deles foi justamente para as duas campanhas de promoção favorável da imagem do governo: a “Agenda Positiva” e a “Brasil no Exterior”.
Campanha paga pelo governo afirma que “notícias e meias verdades pintavam um futuro sombrio” – apenas durante a pandemia, governo Bolsonaro já gastou R$ 10 milhões com campanhas positivas sobre a gestão
A Secom já gastava recursos públicos para divulgar campanhas de “resultados positivos” do governo Bolsonaro desde janeiro de 2019, mas foi a partir de 2020 – quando o orçamento passou a ser definido em conjunto com a gestão atual – que os gastos dessa ação explodiram: de janeiro a maio deste ano, foram mais de R$ 14 milhões acertados em contratos para a “Agenda Positiva”.
A maior parte dos gastos da campanha foi para uma estratégia de descentralização anunciada pela Secom em dezembro de 2019, quando o secretário Fábio Wajngarten afirmou que a “Agenda Positiva” seria veiculada em todos os estados brasileiros “para ecoar o que há de bom no governo para o Brasil”. De acordo com a estratégia, a campanha divulga impactos positivos do governo em áreas como economia, segurança, infraestrutura e social.
Em dezembro de 2019, Fábio Wajngarten, afirmou que campanha Agenda Positiva “resgata o orgulho e o sentimento de pertencimento do brasileiro”. Secom já contratou R$ 4 milhões com campanha apenas durante a pandemia do novo coronavírus
Segundo documentos da Secom, a campanha busca “reforçar o entendimento de que o país está no rumo certo”.
A “Agenda Positiva” é um dos temas no qual a Secom mais gastou dinheiro no governo Bolsonaro. A campanha mais cara foi sobre a reforma da Previdência, que já registra mais de R$ 70 milhões atestados pela Secom.
Queimadas na Amazônia levam a campanha milionária para melhorar imagem de Bolsonaro
A campanha “Brasil no Exterior” começou a ser gestada ainda em 2019, como resposta à repercussão negativa do governo Bolsonaro na imprensa internacional, sobretudo a partir das queimadas na Floresta Amazônica.
Segundo material interno a que a Pública teve acesso, em setembro, o governo avaliava que o país tinha a “imagem de marca prejudicada no exterior”, em especial nos países da União Europeia, importantes compradores de produtos agrícolas brasileiros. Em agosto, o presidente Emmanuel Macron, da França, criticou duramente a condução do governo brasileiro durante os incêndios na Amazônia e se opôs a acordos comerciais com o Mercosul.
Campanha para estrangeiro ver, foi planejada após críticas internacionais à condução do governo Bolsonaro, especialmente com as queimadas na Amazônia. Campanha afirma que Brasil é exemplo de sustentabilidade e consciente do meio ambiente
No material, o governo federal avaliava que “uma série de notícias negativas em relação ao governo e à conduta do Presidente” eram “prioridades dos veículos” e que era preciso construir um “conceito guarda-chuva” com temas positivos da “marca Brasil” para “neutralizar os temas negativos”. O foco eram países da União Europeia, Estados Unidos, China, Japão e, na América do Sul, Argentina e Chile. A estratégia incluía também o mapeamento de conteúdos nas redes sociais sobre as notícias do Brasil no exterior. A campanha teria sido aprovada pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e entidades do setor agropecuário.
Segundo a Pública apurou, além de gastos com produtoras de vídeo e publicidade em veículos estrangeiros, a campanha custou R$ 3,1 milhões com ações em redes sociais: a maior parte no Twitter, com cerca de R$ 2 milhões gastos. Somente no período da pandemia da Covid-19, a Secom fechou mais de R$ 1,6 milhão em contratos para ações nas redes sociais para melhorar a imagem do governo Bolsonaro no exterior.
Os incêndios na Amazônia geraram outra campanha bancada pela Secom, anunciada no Dia da Amazônia, 5 de setembro, mas que seguiu fechando contratos recentes até o mês de abril. Segundo o governo, a campanha serve para reafirmar “soberania do Brasil em relação ao território” e “mostrar como o Brasil defende e conserva o bioma”.
De acordo com a apuração, ações relacionadas ao Dia da Amazônia já custaram R$ 3,1 milhões em contratos com agências de publicidade. Mais de R$ 523 mil foram gastos em ações nas redes sociais, a maior parte no Twitter.
Secom fechou mais de R$ 18 milhões para ações nas redes sociais
Desde o início do governo Bolsonaro, a Secom já fechou R$ 18,9 milhões em contratos com agências para ações nas redes sociais. A verba foi usada tanto para criação de peças quanto para patrocínio de conteúdos nessas redes. A grande maioria desse dinheiro público foi para ações no Google – que incluem anúncios no YouTube –, seguidos pelo Twitter, Facebook e LinkedIn.
Segundo os dados analisados pela Pública, R$ 16,8 milhões do total acertado com as agências foram parar nas próprias redes, por exemplo, por impulsionamento de postagens ou pagamentos no sistema de anúncios do Google. Mais de R$ 7 milhões desse valor foi para o Google, seguido pelo Twitter, Facebook e LinkedIn.
A principal campanha a gastar dinheiro público da Secom diretamente nas redes foi a reforma da Previdência, com R$ 9,9 milhões indo parar no Google, Facebook, Twitter e LinkedIn. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a campanha sobre a reforma utilizou o sistema de anúncios do Google para direcionar dinheiro público a sites de fake news, jogo do bicho e um canal do YouTube que promove o presidente Bolsonaro.
De acordo com reportagem de O Globo, um relatório da CPMI das Fake News apontou que mais de 2 milhões de anúncios pagos com verba da Secom foram destinados a sites, aplicativos e canais de YouTube que veiculam conteúdo falso, oferecem investimentos ilegais ou têm conteúdo pornográfico.
Após a reforma da Previdência, a segunda campanha que mais envolveu dinheiro público em ações nas redes sociais foi justamente a “Brasil no Exterior”, que teve a maior parte dos gastos em março deste ano, durante a pandemia. Cerca de R$ 2,6 milhões foram parar nas redes sociais, a maior parte no Twitter.
Além disso, segundo a Pública apurou, o governo já acertou mais de R$ 83 mil em divulgação da própria Secom nas redes, a maior parte no Twitter.
De acordo com os dados, durante o governo Bolsonaro, a Secom gastou também R$ 919 mil em estratégias para redes sociais e mais de R$ 1,7 milhão em monitoramento de redes. Todos os valores foram acertados com agências de comunicação.
Procurada, a Secom não respondeu aos questionamentos até a publicação.
Militante do movimento Nas Ruas, marqueteiro do Aliança pelo Brasil e suplente de vereador pró-Bolsonaro estão entre os que receberam R$ 24,4 mil de verba parlamentar, de acordo com as notas fiscais obtidas pela Pública
Por Alice Maciel, Ethel Rudnitzki
Em março e abril, três empresas recém-fundadas foram contratadas pela deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), em Brasília, para cuidar de suas redes sociais. As três foram abertas tendo como primeira cliente a deputada federal, alvo do inquérito sobre as fake news no Supremo Tribunal Federal (STF). Nesse período, como apurou a reportagem, Kicis disseminou, em suas redes sociais, notícias comprovadamente falsas e/ou distorcidas sobre o combate ao coronavírus e contra adversários políticos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), participando ainda da convocação de pessoas para as manifestações antidemocráticas e anti-isolamento social, investigadas pelo STF desde abril. Os serviços dessas empresas são pagos com verba parlamentar, ou seja, com dinheiro público.
Uma delas é a Inclutech Tecnologia, que, conforme mostrou reportagem da Agência Pública, pertence a Sérgio Lima, marqueteiro do Aliança pelo Brasil – partido de Bolsonaro, ainda em formação. Até fevereiro, a Inclutech era uma empresa de cosméticos, mas sua atividade econômica foi alterada para prestar serviços publicitários e, segundo afirmou Lima à Pública naquela reportagem, Bia Kicis foi sua primeira cliente depois da mudança de ramo da empresa.
A parlamentar bolsonarista também foi a primeira e única cliente da Produtora Futuro e da BM Gestão de Mídia Sociais, criadas em janeiro e março, respectivamente. As duas são de Cornélio Procópio, um município do interior do Paraná com 47,8 mil habitantes – segundo estimativa do IBGE de 2019. A deputada, que nasceu no Rio, foi eleita pelo Distrito Federal.
A BM Gestão de Mídia Sociais foi registrada em nome de Lindara da Silva, que, segundo ela, é sogra do verdadeiro dono do negócio, Humberto Bernardino da Silva, conhecido como Beto Morato, filiado ao MDB desde 1985 e militante do movimento Nas Ruas. “É meu genro, né? Eu só abri a conta pra ele, mas eu não trabalho não [na empresa], ele que faz o serviço pra ela [Bia Kicis]”, contou Lindara. “Para ele ter uma conta para receber, eu tive que abrir [uma] no meu nome, porque no momento ele não está tendo condições de ser no nome dele”, disse.
De acordo com Lindara, Morato não poderia abrir empresa em seu nome por questões financeiras. No entanto, a Pública apurou que ele tem um negócio de produção musical desde 2012 – a Beto Morato Produções – em sociedade com sua esposa, Jane Teodoro da Silva.
A Pública tentou diversas vezes contato com Beto Morato, por meio de Lindara, que disse que pediria para ele ligar para a reportagem, mas não houve retorno. Também enviamos e-mails e mensagem no Facebook dele, sem resposta. No seu perfil na rede social constava que ele passou a cuidar das redes sociais de Bia Kicis em 10 de junho de 2018, mas só em março deste ano foi oficialmente contratado pelo gabinete da deputada por meio da recém-criada BM Gestão de Mídia Sociais.
A deputada Bia Kicis (PSL) é alvo do inquérito das fake news, que investiga a participação de organizações e pessoas na produção e divulgação em massa de notícias falsas
Bia Kicis afirmou por meio de sua assessoria que Morato trabalhava voluntariamente para ela, “em continuidade ao apoio à atuação anterior” à sua eleição. “No início de 2020, após comprovada excelência do trabalho realizado pelo profissional – o que se comprova pelo reconhecimento do desempenho da parlamentar, que ocupa o 3º lugar do FSB Influência Congresso – nada mais natural e necessário do que a contratação formal dos serviços”, justificou. Ela confirmou que os serviços são feitos remotamente e não nas dependências do seu gabinete. Sobre a Inclutech Tecnologia, a ex-empresa de cosméticos, a deputada disse que ela foi contratada por um mês – por R$ 6,4 mil – “para realização de trabalho específico de marketing”, sem fornecer mais detalhes.
A deputada contou ainda que foi Beto Morato quem lhe indicou os serviços de Izael Tomaz, dono da Produtora Futuro. Ele também abriu novo CNPJ para a prestação de serviços à deputada. Antes teve uma empresa de mesmo nome – Produtora Futuro – baixada na Receita Federal que fazia ensaios fotográficos.
Tomaz é suplente de vereador em Cornélio Procópio pelo PSDC. O partido, no município, fez coligação com o PSL e elegeu o prefeito Amin Hannouche (PSDB-PR), que está atuando na coleta de assinaturas para a criação do Aliança pelo Brasil no Paraná. Em 19 de fevereiro, foi organizado um “mutirão” de assinaturas para a fundação do partido em Cornélio Procópio. Um ônibus com a foto do presidente Jair Bolsonaro e do deputado federal pelo Paraná Filipe Barros (PSL-Aliança) foi estacionado no calçadão central da cidade. Um mês antes, o parlamentar, acompanhado do prefeito Hannouche, esteve em cidades próximas para a coleta de assinaturas para o partido em formação.
Banner de evento para coleta de assinaturas do Aliança Pelo Brasil em Cornélio Procópio
Questionado pelo Facebook e procurado por telefone, Tomaz não respondeu à reportagem a respeito dos serviços prestados para a deputada Bia Kicis nem sobre suas relações políticas com o Aliança pelo Brasil. Assim como Morato, ele fechou suas redes sociais após o contato da Pública.
Prefeito de Cornélio Procópio, com Filipe Barros e apoiadores em evento pela criação do Aliança Pelo Brasil no Paraná
Gestão de mídias sociais
A descrição dos serviços prestados pelas duas empresas de Cornélio Procópio está nas notas fiscais – números 01, 02 e 03 – apresentadas na prestação de contas da Câmara dos Deputados. A numeração revela ser a parlamentar a primeira e única cliente dessas empresas. De acordo com as notas, a empresa de Beto Morato recebeu R$ 12 mil durante março e abril para a gestão das mídias sociais da deputada federal e criação, produção, edição, montagem e publicação de vídeos e banners no Facebook, Twitter, Instagram e no canal de Bia Kicis no YouTube. Os mesmos serviços foram prestados pela Produtora Futuro por R$ 6 mil, ou R$ 2 mil por mês, de fevereiro a abril deste ano – as notas de maio ainda não foram lançadas pela deputada no site da Câmara.
De acordo com Bia Kicis, a empresa de Beto Morato é responsável pela criação de conteúdo audiovisual e consultoria de marketing, enquanto a Produtora Futuro auxilia no gerenciamento da rede social, mantém e organiza as informações específicas do canal, interage com os leitores, dando retornos predefinidos por ela a possíveis perguntas dos usuários da página, monitora o engajamento do público e produz relatórios simples mensais baseados nos resultados apresentados pela própria plataforma.
Também com Zambelli
Antes de prestar serviços para Bia Kicis, Beto Morato trabalhou para a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), também investigada pelo mesmo inquérito do STF. Morato trabalhou com Zambelli antes de ela se eleger deputada, de 3 agosto de 2015 a 5 de junho de 2018. Nesse período ela liderava o movimento Nas Ruas. Foi creditado a ele, pelo próprio movimento, a edição de um vídeo apócrifo contra a deputada federal Gleisi Hoffmann postado na página do Nas Ruas em setembro de 2016.
No vídeo com título “Gleisi Pepa Pig Hoffmann é trollada hoje por Carla Zambelli de novo”, aparece esta dizendo que a deputada federal do PT iria para a cadeia. “A gente vai te colocar na cadeia tá, Gleisi. Logo, logo você vai virar ré”, diz a militante no vídeo. A edição foi compartilhada por Bia Kicis no Twitter.
As deputadas Bia Kicis (PSL) e Carla Zambelli (PSL) contrataram os serviços de marketing de Beto Morato, militante do movimento Nas Ruas
Kicis conheceu Zambelli em 2011, depois que esta fundou o movimento Nas Ruas, com a bandeira de combate à corrupção. Bia Kicis, então presidente do Instituto Resgata Brasil, foi advogada de Zambelli em ações contra atos organizados pelo movimento.
O Nas Ruas se tornou popular durante as manifestações pró-impeachment de Dilma Rousseff e atualmente apoia as manifestações contra o Congresso e o STF – das quais o presidente Bolsonaro participou – e contra o isolamento social no combate à pandemia. Foi o movimento que fez a divulgação de atos a favor do pacote anticrime de Sergio Moro e da reforma da Previdência do governo em 2019, que ocorreram depois em mais de 150 cidades pelo Brasil, incluindo Cornélio Procópio.
Um dos líderes do Nas Ruas, Marcos Bellizia, foi alvo, na terça-feira, de busca e apreensão no âmbito do mesmo inquérito do STF que investiga Bia Kicis e a deputada Carla Zambelli sobre as fake news. Questionado pela Pública a respeito da participação e divulgação de manifestações antidemocráticas, ele afirmou que o movimento não organizou nenhum dos eventos. “As carreatas foram espontâneas em todo Brasil! Nós, como movimento apartidário, apenas divulgamos nas nossas redes”, disse.
O movimento não respondeu sobre a atuação no município de Cornélio Procópio nem sobre as relações com o dono da BM Gestão de Mídia Sociais, Beto Morato.
As fake news e ataques de Bia Kicis
De acordo com o levantamento do Radar Aos Fatos – um monitor de desinformação em tempo real –, Bia Kicis é a terceira congressista que mais disseminou notícias falsas sobre o novo coronavírus, atrás apenas dos deputados Osmar Terra (MDB-RS) e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). A pesquisa trata justamente do período no qual as empresas de Beto Morato, Izael Tomaz e Sérgio Lima foram contratadas pela deputada: de 20 de fevereiro a 8 de abril de 2020.
“Não houve qualquer postagem da deputada Bia Kicis, relacionada ao coronavírus, que pudesse ser considerada fake news”, se defendeu a parlamentar por meio da sua assessoria de imprensa.
Em 4 de abril, no entanto, Bia Kicis publicou um banner informando que a Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador de medicamentos nos Estados Unidos, liberou a hidroxicloroquina para ser usada em pacientes com coronavírus, chamado na peça de divulgação de “vírus chinês”. A Agência Lupa mostrou que o órgão aprovou apenas o uso emergencial de alguns produtos com sulfato de hidroxicloroquina e fosfato de cloroquina no tratamento de pacientes com Covid-19. A FDA ainda não emitiu parecer final sobre o assunto: a autorização é temporária e para situações específicas.
A deputada publicou ainda uma notícia falsa favorável ao presidente Jair Bolsonaro nas suas redes sociais, no dia 31 de março. A postagem, que também vem acompanhada de um banner, diz que o procurador-geral da República, Augusto Aras, arquivou a notícia-crime apresentada pelo deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG) contra o presidente Jair Bolsonaro. A Procuradoria Geral da República (PGR), porém, publicou uma nota em seguida dizendo que ainda “não houve manifestação do órgão ministerial”.
Nos meses de março e abril, a deputada publicou críticas aos ministros do STF. Em 9 de abril, por exemplo, ela fez um post dizendo que o ministro Alexandre de Moraes colocou a Constituição Federal de quarentena. “Cada um decide o que bem entende. É o caos Jurídico.” A mensagem é seguida de um banner com a imagem do ministro e críticas ao fato de ele ter acolhido o pedido da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para assegurar aos governadores e prefeitos o poder de adotar medidas de isolamento.
A Pública mostrou que a deputada participou de manifestações antidemocráticas e falou em reformar o Congresso e o Supremo em meio ao acampamento “300 pelo Brasil”, que, liderado por Sara Winter e inspirado em movimentos fascistas europeus, foi alvo de busca e apreensão no inquérito das fake news.
Os adversários políticos também foram alvo de ataque de Bia Kicis. Em 27 de abril, ela postou um banner em suas redes sociais com a informação de que uma testemunha revelou que Adélio Bispo esteve com Jean Wyllys na Câmara dos Deputados mais de uma vez. Conforme mostrou o blog de checagem de fatos do Estadão, o depoimento na Polícia Federal não liga o ex-deputado federal a Adélio, que confessou ter sido autor da facada contra o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro. Ontem, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) decidiu que os deputados Beatriz Kicis e Bibo Nunes, além do empresário Otávio Fakhouri, de um youtuber e um blogueiro, terão que retirar esses posts do ar.
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