Mostrando postagens com marcador fakenews_firehosing. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fakenews_firehosing. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 2 de junho de 2020

Investigada por fake news, Kicis contratou serviços de mídias sociais de apoiadores do governo

 

https://apublica.org/

I Jomalismo

 

Investigada por fake news, Kicis contratou serviços de mídias sociais de apoiadores do governo

https://apublica.org/2020/06/investigada-por-fake-news-kicis-contratou-servicos-de-midias-sociais-de-apoiadores-do-governo/

Fonte: Agência Pública

Resumo:

Militante do movimento Nas Ruas, marqueteiro do Aliança pelo Brasil e suplente de vereador pró-Bolsonaro estão entre os que receberam R$ 24,4 mil de verba parlamentar, de acordo com as notas fiscais obtidas pela Pública

Por Alice Maciel, Ethel Rudnitzki

Em março e abril, três empresas recém-fundadas foram contratadas pela deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), em Brasília, para cuidar de suas redes sociais. As três foram abertas tendo como primeira cliente a deputada federal, alvo do inquérito sobre as fake news no Supremo Tribunal Federal (STF). Nesse período, como apurou a reportagem, Kicis disseminou, em suas redes sociais, notícias comprovadamente falsas e/ou distorcidas sobre o combate ao coronavírus e contra adversários políticos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), participando ainda da convocação de pessoas para as manifestações antidemocráticas e anti-isolamento social, investigadas pelo STF desde abril. Os serviços dessas empresas são pagos com verba parlamentar, ou seja, com dinheiro público.

Uma delas é a Inclutech Tecnologia, que, conforme mostrou reportagem da Agência Pública, pertence a Sérgio Lima, marqueteiro do Aliança pelo Brasil – partido de Bolsonaro, ainda em formação. Até fevereiro, a Inclutech era uma empresa de cosméticos, mas sua atividade econômica foi alterada para prestar serviços publicitários e, segundo afirmou Lima à Pública naquela reportagem, Bia Kicis foi sua primeira cliente depois da mudança de ramo da empresa.

A parlamentar bolsonarista também foi a primeira e única cliente da Produtora Futuro e da BM Gestão de Mídia Sociais, criadas em janeiro e março, respectivamente. As duas são de Cornélio Procópio, um município do interior do Paraná com 47,8 mil habitantes – segundo estimativa do IBGE de 2019. A deputada, que nasceu no Rio, foi eleita pelo Distrito Federal.

A BM Gestão de Mídia Sociais foi registrada em nome de Lindara da Silva, que, segundo ela, é sogra do verdadeiro dono do negócio, Humberto Bernardino da Silva, conhecido como Beto Morato, filiado ao MDB desde 1985 e militante do movimento Nas Ruas. “É meu genro, né? Eu só abri a conta pra ele, mas eu não trabalho não [na empresa], ele que faz o serviço pra ela [Bia Kicis]”, contou Lindara. “Para ele ter uma conta para receber, eu tive que abrir [uma] no meu nome, porque no momento ele não está tendo condições de ser no nome dele”, disse.

De acordo com Lindara, Morato não poderia abrir empresa em seu nome por questões financeiras. No entanto, a Pública apurou que ele tem um negócio de produção musical desde 2012 – a Beto Morato Produções – em sociedade com sua esposa, Jane Teodoro da Silva.

A Pública tentou diversas vezes contato com Beto Morato, por meio de Lindara, que disse que pediria para ele ligar para a reportagem, mas não houve retorno. Também enviamos e-mails e mensagem no Facebook dele, sem resposta. No seu perfil na rede social constava que ele passou a cuidar das redes sociais de Bia Kicis em 10 de junho de 2018, mas só em março deste ano foi oficialmente contratado pelo gabinete da deputada por meio da recém-criada BM Gestão de Mídia Sociais.

A deputada Bia Kicis (PSL) é alvo do inquérito das fake news, que investiga a participação de organizações e pessoas na produção e divulgação em massa de notícias falsas

Bia Kicis afirmou por meio de sua assessoria que Morato trabalhava voluntariamente para ela, “em continuidade ao apoio à atuação anterior” à sua eleição. “No início de 2020, após comprovada excelência do trabalho realizado pelo profissional – o que se comprova pelo reconhecimento do desempenho da parlamentar, que ocupa o 3º lugar do FSB Influência Congresso – nada mais natural e necessário do que a contratação formal dos serviços”, justificou. Ela confirmou que os serviços são feitos remotamente e não nas dependências do seu gabinete. Sobre a Inclutech Tecnologia, a ex-empresa de cosméticos, a deputada disse que ela foi contratada por um mês – por R$ 6,4 mil – “para realização de trabalho específico de marketing”, sem fornecer mais detalhes.

A deputada contou ainda que foi Beto Morato quem lhe indicou os serviços de Izael Tomaz, dono da Produtora Futuro. Ele também abriu novo CNPJ para a prestação de serviços à deputada. Antes teve uma empresa de mesmo nome – Produtora Futuro – baixada na Receita Federal que fazia ensaios fotográficos.

Tomaz é suplente de vereador em Cornélio Procópio pelo PSDC. O partido, no município, fez coligação com o PSL e elegeu o prefeito Amin Hannouche (PSDB-PR), que está atuando na coleta de assinaturas para a criação do Aliança pelo Brasil no Paraná. Em 19 de fevereiro, foi organizado um “mutirão” de assinaturas para a fundação do partido em Cornélio Procópio. Um ônibus com a foto do presidente Jair Bolsonaro e do deputado federal pelo Paraná Filipe Barros (PSL-Aliança) foi estacionado no calçadão central da cidade. Um mês antes, o parlamentar, acompanhado do prefeito Hannouche, esteve em cidades próximas para a coleta de assinaturas para o partido em formação.

Banner de evento para coleta de assinaturas do Aliança Pelo Brasil em Cornélio Procópio

Questionado pelo Facebook e procurado por telefone, Tomaz não respondeu à reportagem a respeito dos serviços prestados para a deputada Bia Kicis nem sobre suas relações políticas com o Aliança pelo Brasil. Assim como Morato, ele fechou suas redes sociais após o contato da Pública.

Prefeito de Cornélio Procópio, com Filipe Barros e apoiadores em evento pela criação do Aliança Pelo Brasil no Paraná

Gestão de mídias sociais

A descrição dos serviços prestados pelas duas empresas de Cornélio Procópio está nas notas fiscais – números 01, 02 e 03 – apresentadas na prestação de contas da Câmara dos Deputados. A numeração revela ser a parlamentar a primeira e única cliente dessas empresas. De acordo com as notas, a empresa de Beto Morato recebeu R$ 12 mil durante março e abril para a gestão das mídias sociais da deputada federal e criação, produção, edição, montagem e publicação de vídeos e banners no Facebook, Twitter, Instagram e no canal de Bia Kicis no YouTube. Os mesmos serviços foram prestados pela Produtora Futuro por R$ 6 mil, ou R$ 2 mil por mês, de fevereiro a abril deste ano – as notas de maio ainda não foram lançadas pela deputada no site da Câmara.

De acordo com Bia Kicis, a empresa de Beto Morato é responsável pela criação de conteúdo audiovisual e consultoria de marketing, enquanto a Produtora Futuro auxilia no gerenciamento da rede social, mantém e organiza as informações específicas do canal, interage com os leitores, dando retornos predefinidos por ela a possíveis perguntas dos usuários da página, monitora o engajamento do público e produz relatórios simples mensais baseados nos resultados apresentados pela própria plataforma.

Também com Zambelli

Antes de prestar serviços para Bia Kicis, Beto Morato trabalhou para a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), também investigada pelo mesmo inquérito do STF. Morato trabalhou com Zambelli antes de ela se eleger deputada, de 3 agosto de 2015 a 5 de junho de 2018. Nesse período ela liderava o movimento Nas Ruas. Foi creditado a ele, pelo próprio movimento, a edição de um vídeo apócrifo contra a deputada federal Gleisi Hoffmann postado na página do Nas Ruas em setembro de 2016.

No vídeo com título “Gleisi Pepa Pig Hoffmann é trollada hoje por Carla Zambelli de novo”, aparece esta dizendo que a deputada federal do PT iria para a cadeia. “A gente vai te colocar na cadeia tá, Gleisi. Logo, logo você vai virar ré”, diz a militante no vídeo. A edição foi compartilhada por Bia Kicis no Twitter.

As deputadas Bia Kicis (PSL) e Carla Zambelli (PSL) contrataram os serviços de marketing de Beto Morato, militante do movimento Nas Ruas

Kicis conheceu Zambelli em 2011, depois que esta fundou o movimento Nas Ruas, com a bandeira de combate à corrupção. Bia Kicis, então presidente do Instituto Resgata Brasil, foi advogada de Zambelli em ações contra atos organizados pelo movimento.

O Nas Ruas se tornou popular durante as manifestações pró-impeachment de Dilma Rousseff e atualmente apoia as manifestações contra o Congresso e o STF – das quais o presidente Bolsonaro participou – e contra o isolamento social no combate à pandemia. Foi o movimento que fez a divulgação de atos a favor do pacote anticrime de Sergio Moro e da reforma da Previdência do governo em 2019, que ocorreram depois em mais de 150 cidades pelo Brasil, incluindo Cornélio Procópio.

Um dos líderes do Nas Ruas, Marcos Bellizia, foi alvo, na terça-feira, de busca e apreensão no âmbito do mesmo inquérito do STF que investiga Bia Kicis e a deputada Carla Zambelli sobre as fake news. Questionado pela Pública a respeito da participação e divulgação de manifestações antidemocráticas, ele afirmou que o movimento não organizou nenhum dos eventos. “As carreatas foram espontâneas em todo Brasil! Nós, como movimento apartidário, apenas divulgamos nas nossas redes”, disse.

O movimento não respondeu sobre a atuação no município de Cornélio Procópio nem sobre as relações com o dono da BM Gestão de Mídia Sociais, Beto Morato.

As fake news e ataques de Bia Kicis

De acordo com o levantamento do Radar Aos Fatos – um monitor de desinformação em tempo real –, Bia Kicis é a terceira congressista que mais disseminou notícias falsas sobre o novo coronavírus, atrás apenas dos deputados Osmar Terra (MDB-RS) e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). A pesquisa trata justamente do período no qual as empresas de Beto Morato, Izael Tomaz e Sérgio Lima foram contratadas pela deputada: de 20 de fevereiro a 8 de abril de 2020.

“Não houve qualquer postagem da deputada Bia Kicis, relacionada ao coronavírus, que pudesse ser considerada fake news”, se defendeu a parlamentar por meio da sua assessoria de imprensa.

Em 4 de abril, no entanto, Bia Kicis publicou um banner informando que a Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador de medicamentos nos Estados Unidos, liberou a hidroxicloroquina para ser usada em pacientes com coronavírus, chamado na peça de divulgação de “vírus chinês”. A Agência Lupa mostrou que o órgão aprovou apenas o uso emergencial de alguns produtos com sulfato de hidroxicloroquina e fosfato de cloroquina no tratamento de pacientes com Covid-19. A FDA ainda não emitiu parecer final sobre o assunto: a autorização é temporária e para situações específicas.

A deputada publicou ainda uma notícia falsa favorável ao presidente Jair Bolsonaro nas suas redes sociais, no dia 31 de março. A postagem, que também vem acompanhada de um banner, diz que o procurador-geral da República, Augusto Aras, arquivou a notícia-crime apresentada pelo deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG) contra o presidente Jair Bolsonaro. A Procuradoria Geral da República (PGR), porém, publicou uma nota em seguida dizendo que ainda “não houve manifestação do órgão ministerial”.

Nos meses de março e abril, a deputada publicou críticas aos ministros do STF. Em 9 de abril, por exemplo, ela fez um post dizendo que o ministro Alexandre de Moraes colocou a Constituição Federal de quarentena. “Cada um decide o que bem entende. É o caos Jurídico.” A mensagem é seguida de um banner com a imagem do ministro e críticas ao fato de ele ter acolhido o pedido da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para assegurar aos governadores e prefeitos o poder de adotar medidas de isolamento.

A Pública mostrou que a deputada participou de manifestações antidemocráticas e falou em reformar o Congresso e o Supremo em meio ao acampamento “300 pelo Brasil”, que, liderado por Sara Winter e inspirado em movimentos fascistas europeus, foi alvo de busca e apreensão no inquérito das fake news.

Os adversários políticos também foram alvo de ataque de Bia Kicis. Em 27 de abril, ela postou um banner em suas redes sociais com a informação de que uma testemunha revelou que Adélio Bispo esteve com Jean Wyllys na Câmara dos Deputados mais de uma vez. Conforme mostrou o blog de checagem de fatos do Estadão, o depoimento na Polícia Federal não liga o ex-deputado federal a Adélio, que confessou ter sido autor da facada contra o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro. Ontem, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) decidiu que os deputados Beatriz Kicis e Bibo Nunes, além do empresário Otávio Fakhouri, de um youtuber e um blogueiro, terão que retirar esses posts do ar.

Créditos de imagens

 Cleia Viana/Câmara dos Deputados
 Reprodução/ Facebook
 Reprodução
 Fotos: Luis Macedo e Michel Jesus/Câmara dos Deputados

Reportagem originalmente publicada na Agência Pública

Assine nossa newsletter

sábado, 28 de setembro de 2019

Como Greta Thunberg se tornou alvo de uma campanha de desinformação nas redes

https://aosfatos.org/noticias/como-greta-thunberg-se-tornou-alvo-de-uma-campanha-de-desinformacao-nas-redes/?utm_source=aosfatos&utm_campaign=97388870d7-newsletter_created_on_2019-09-26+12%3A49%3A01&utm_medium=email&utm_term=0_b221809dd3-97388870d7-214397677




Como Greta Thunberg se tornou alvo de uma campanha de desinformação nas redes

Por Amanda Ribeiro
27 de setembro de 2019, 13h50

Bastaram pouco mais de quatro minutos de discurso na Cúpula de Ação Climática da ONU na segunda-feira (23) para que a ativista ambiental sueca Greta Thunberg, 16, virasse alvo de uma campanha difamatória nas redes sociais calcada em desinformação. Desde a sua fala nas Nações Unidas, ganharam visibilidade posts enganosos que afirmam ser ela neta do bilionário húngaro George Soros, que seus pais são satanistas e anarquistas e que seu penteado de tranças seria a repetição de uma estratégia nazista para convencer o público.
Publicadas em diversas línguas, as postagens identificadas e analisadas por Aos Fatos já reuniam ao menos 42 mil compartilhamentos no Facebook nesta sexta-feira (27). Grande parte das peças de desinformação disseminadas agora por perfis brasileiros foram importadas de sites e páginas do Facebook dos Estados Unidos e da França ligados à direita e a temas conservadores.
No Brasil, essas informações falsas, inclusive, transbordaram os limites da internet, tendo sido reproduzidas em comentários de políticos e comunicadores, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o deputado estadual pelo PSL de São Paulo Frederico D’Avila, o colunista Rodrigo Constantino, o apresentador da Band Luis Ernesto Lacombe e o jornalista potiguar Gustavo Negreiros. Os ataques em série motivaram até uma reação nas redes, por meio da hashtag #desculpagreta, que ganhou fôlego no Twitter nesta quinta.
Em resposta aos ataques, Greta publicou na quarta (25) um texto no Facebook em que diz não entender porque “adultos escolhem gastar seu tempo ameaçando adolescentes e crianças por promoverem a ciência, quando poderiam fazer algo de bom”.
Abaixo, Aos Fatos destrincha os cinco principais eixos de desinformações contra Greta Thunberg que surgiram nos últimos dias nas redes sociais — e fora delas.

1. George Soros
Greta Thunberg não é neta do bilionário húngaro George Soros nem há indícios ou provas de que ela seja financiada pela ONG dele, a Open Society Foundation. Ainda assim, estas foram as duas informações falsas mais disseminadas sobre ativista nas redes sociais desde o discurso dela na Cúpula do Clima da ONU.
Os posts que afirmam o falso grau de parentesco, já checado por Aos Fatos, têm sido acompanhados de uma montagem na qual a ativista aparece ao lado do investidor. Na foto original, postada por Greta em sua conta no Twitter, é Al Gore, ex-vice-presidente dos Estados Unidos e também ativista pelo clima, quem está ao lado da adolescente. Os avôs de Greta são, na verdade, Olof Thunberg, do lado paterno, e Lars Ernman, do materno.


A associação de personalidades e defensores de causas progressistas a Soros é um argumento frequente entre conservadores, pois a sua fundação, de fato, costuma fazer doações para projetos voltados a direitos humanos e meio ambiente. Porém, esse não é o caso de Greta: Aos Fatos não encontrou o nome dela nem do movimento Fridays For Future entre os beneficiados pelos recursos da organização.
No Twitter, a Open Society Foundation negou que financie as atividades de Greta ou que Soros seja seu avô.
A falsa associação de Greta à Open Foundation tem sido feita usando a ativista alemã Luisa-Marie Neubauer, de 23 anos, que é embaixadora da ONG ONE e que, como a sueca, também se dedica à causa ambiental. A ONE tem a Open Foundation entre os seus doadores, mas não só: a lista conta com dezenas de corporações, como a Coca-Cola, o Bank of America, a Apple e a Beats. Desta forma, é falso afirmar que a ONG pertença a Soros.
Foi o que fez, por exemplo, o deputado federal e filho do presidente Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro em post no Twitter (4.000 compartilhamentos nesta sexta-feira, 27).
Na televisão, o apresentador da Band Luís Ernesto Lacombe foi além. Ao comentar que não "comprava” o discurso da ativista, ele disse: “essa é uma menina bancada por uma fundação do George Soros, né? One Foundation. Eu realmente, por enquanto, não compro".
Em fevereiro deste ano, Greta publicou texto em sua página no Facebook para desmentir rumores de que seria financiada por instituições ou influenciada por adultos. “Muitas pessoas amam espalhar rumores dizendo que existem pessoas ‘por trás de mim’ ou que estou sendo ‘paga’ ou ‘usada’ pelo que estou fazendo. Mas não há ninguém ‘por trás’ de mim exceto eu mesma. (...) Não faço parte de nenhuma organização. Às vezes apoio e coopero com ONGs que trabalham com o clima e o meio ambiente. Mas sou absolutamente independente e só represento a mim mesma”.
Como o Fridays For Future não é uma ONG, não é possível saber quais as fontes de financiamento do movimento. Apontado como motivo de enriquecimento da ativista, o livro “Our house in on fire” (nossa casa está em chamas), escrito pela família, tem seus lucros doados a instituições de caridade. É importante ressaltar também que a mãe de Greta, Malena Ernman, é uma conhecida cantora de ópera em seu país, o que significa que a família tem fonte de renda própria.
Outra fonte de críticas e boatos é o barco utilizado por Greta para se deslocar do Reino Unido aos Estados Unidos para o discurso na Cúpula do Clima da ONU. O iate Malizia II, que ofereceu uma carona a Greta e seu pai sem cobrança de custos, pertence ao príncipe Pierre Casiraghi, de Mônaco, e ao velejador Boris Herrmann, seu parceiro de corridas.

2. Transtornos
O fato de Greta Thunberg ser diagnosticada com Síndrome de Asperger, mutismo seletivo e Transtorno Obsessivo-Compulsivo também é usado de forma distorcida para desacreditar a ativista e a sua família. Aos Fatos identificou publicações com mais de 6.000 compartilhamentos no Facebook que afirmam, de maneira falsa, que a causa de sua condição seria o consumo de drogas exagerado por parte de seus pais.
Greta foi diagnosticada há cerca de quatro anos com a Síndrome de Asperger, uma condição do TEA (Transtorno de Espectro Autista). De acordo com o psicólogo especialista em Asperger Tony Attwood, portadores dessa condição têm um modo de pensar próprio, mas não deficiente. “A pessoa com Síndrome de Asperger pode perceber erros que não são aparentes aos outros, dada a considerável atenção a detalhes, ao invés de terem um olhar panorâmico sobre uma situação. A pessoa é geralmente conhecida por ser direta, falando o que lhe vem à cabeça, sendo honesta e determinada e tendo um forte senso de justiça”, afirma Attwood em seu site.
Não há uma causa exata para o TEA, mas pesquisas tendem a associar a condição principalmente a questões genéticas. Alguns fatores ambientais também podem estar envolvidos, mas ainda não está determinado precisamente quais seriam possíveis gatilhos para o desenvolvimento da condição. A Autism Speaks, organização americana de apoio a autistas, cita alguns dos que já foram apontados por cientistas: pais com idade avançada, complicações na gravidez (como nascimento prematuro ou gravidez de gêmeos) e gestações muito próximas (menos de um ano entre uma gravidez e a outra).
Em nota, Ana Maria Mello, superintendente da AMA (Associação de Amigos do Autista) afirmou que a exposição a agentes químicos já foi apontado como uma das possíveis causas do TEA, mas que não há nenhuma comprovação científica. Além disso, ela diz que não é possível atestar qual a “causa do autismo de alguém”.
Diferente do que afirmam as postagens que atacam Greta, portanto, a sua condição não poderia ter sido causada pelo consumo de drogas por parte de seus pais, Svante Thunberg e Malena Ernman. Aos Fatos também não encontrou indício de que algum dos dois seja usuários de entorpecentes. Em uma entrevista em 2014, Malena inclusive diz nunca ter consumido drogas.
Fora do Brasil, comentários a respeito da condição de Greta já extrapolaram as redes sociais e chegaram a textos de colunistas e falas de comentaristas de televisão. Em julho, em texto que criticava uma viagem da ativista em um iate movido a energia solar, o colunista do Australian News Corp Andrew Bolt a chamou de “estranha” e “profundamente perturbada”. Aos comentários, Greta respondeu que considera sua condição “um superpoder”.
Na última terça (24), foi a vez do comentarista político americano Michael Knowles, que a caracterizou como “doente mental” em um programa ao vivo da Fox News. A emissora pediu desculpas e afirmou que não pretende mais chamar Knowles para participar de programas.
No Brasil, Rodrigo Constantino seguiu o mesmo caminho e, em comentário durante o programa 3 em 1, na rádio Jovem Pan, afirmou que Greta era “retardada” e tinha “síndrome do autismo”. Em postagem no Facebook, ele também associou a condição da ativista a uma doença mental que, segundo ele, tem sido explorada para fins políticos por sua família e pela esquerda. O post reúne pouco mais de 2.000 interações entre comentários, compartilhamentos e reações.
Em resposta ao Aos Fatos, Constantino negou ter chamado, em discussão na rádio, Greta de "retardada" por conta de sua condição, mas "retardada no tema" em que milita, o meio ambiente. Ele também refutou ter se referido à condição de autismo ao afirmar em sua coluna que a adolescente sueca era doente mental: "questionei no texto se ela tinha outra coisa, como bipolaridade, pois tinha traços agressivos, e já teve depressão no passado, segundo a própria mãe".

3. Família
Informações falsas sobre os pais de Greta Thunberg também compõem a campanha difamatória contra a ativista nas redes sociais. Um texto compartilhado ao menos 2.000 vezes no Facebook e disseminado como corrente no WhatsApp traz uma série de afirmações infundadas, como a de que o pai dela seria um cientista social gay que abandonou a mãe para morar com o namorado na Alemanha.
O conteúdo enganoso afirma ainda que a mãe de Greta seria lésbica e satanista e dá aulas sobre aborto para adolescentes. As afirmações foram desmentidas por Aos Fatos.
Casados desde 2004, Malena Ernman e Svante Thunberg não se separaram e vivem com as duas filhas Greta e Beata, em Estocolmo, na Suécia. Ele é ator e produtor, ela, cantora de ópera.
A profissão e a renda dos pais de Greta, aliás, é outro enfoque bastante popular nas peças de desinformação. Há denúncias de que os dois teriam abandonado suas carreiras para viver da fama da menina, que estariam ricos e que o ativismo seria oportunista. As postagens, que circulam inicialmente em perfis portugueses na rede social, também passaram a ser compartilhadas no Brasil.
Uma delas apresenta duas fotos de Svante Thunberg e Malena Ernman para sugerir que os dois teriam enriquecido depois do ativismo da filha. Como mostra o Polígrafo, no entanto, a ordem temporal das imagens está trocada. A primeira, na qual o casal aparece com roupas mais simples, foi tirada em agosto de 2018 para matéria no jornal sueco Dagens Nheter. A segunda, que mostra o casal com trajes elegantes, retrata os dois no Polar Music Prize, em 2012.
Diferente do que afirmam postagens que chegam a cerca de mil compartilhamentos, os pais de Greta não abandonaram suas carreiras para viver da fama da filha. Segundo Malena, reconhecida cantora lírica da Suécia, ela deixou a carreira internacional ao ser conscientizada pela filha do grande impacto ambiental causado pelos voos de avião que a levavam para os shows. Ernman, no entanto, segue atuando na Suécia, enquanto apoia as ações da filha no combate às mudanças climáticas.
Greta também foi a causa de uma série de outras mudanças na vida dos pais, que se tornaram veganos e escreveram um livro de memórias sobre o início dos anos ativistas da primogênita.
Antifascista. Outra desinformação que vem sendo compartilhada em redes brasileiras, americanas e suecas, por exemplo, liga a adolescente e seus pais ao movimento Antifa, que agrega membros da esquerda e da extrema-esquerda e considera a violência, a destruição de patrimônio e o enfrentamento físico como táticas válidas de protesto, a chamada “ação direta”.
Nos Estados Unidos, os Antifa não estão listados como grupo terrorista pelo FBI (Federal Bureau of Intelligence), diferentemente do que afirmam usuários nas redes. Existem, no entanto, pressões do Congresso americano para que isso ocorra.
O vínculo entre a família e o movimento, explorado em posts no Facebook com ao menos 7.600 compartilhamentos, foi estabelecido após Greta postar uma foto no Twitter no dia 25 de julho trajando uma camisa com os dizeres “Antifascist All Stars”.
A partir daí, montagens dela e de seus pais com a mesma camiseta passaram a ser compartilhadas nas redes sociais. A origem das imagens que mostrariam Svante e Malena não pôde ser comprovada por Aos Fatos. Já a foto de Greta foi tirada durante as gravações de uma colaboração com a banda 1975, que usou um de seus discursos em uma música.
Depois de receber uma série de críticas nas redes, a ativista deletou a imagem e publicou um pedido de desculpas dizendo que não imaginava que a camiseta pudesse ser associada a grupos de esquerda violentos.
“Ontem postei uma foto usando uma camiseta emprestada que diz que sou contra o fascismo. Essa camiseta aparentemente pode ser relacionada a um movimento violento. Eu não apoio qualquer forma de violência e, para evitar mal-entendidos, apaguei o post. E, é claro, sou contra o fascismo”, diz ela na publicação.
A mãe de Greta também publicou em suas redes no mesmo dia uma postagem em que se desculpava pela camiseta. “Foi emprestada por mim a camiseta que a Greta estava usando. Ela está disponível para compra em vários sites na internet com textos diferentes. Não tinha ideia de que iriam associá-la a movimentos violentos, então nós nos distanciamos disso. Para evitar problemas, ela deletou a imagem.”
De fato, é possível encontrar a camiseta, que usa o logo do tênis All Star, da marca americana Converse, com uma série de outros textos na estampa. Tal imagem não é a mesma que serve como logo do movimento Antifa, caracterizado por duas bandeiras, uma vermelha e uma preta, tremulando.
A adolescente também já afirmou que se opõe ao fascismo e que não tem nenhuma intenção de se associar a qualquer tipo de movimento político. Em entrevista à CBS, inclusive, disse que “você pode se rebelar de diversas maneiras. Desobediência civil é se rebelar. Desde que isso seja de forma pacífica, claro”.

4. Nazismo
A comparação da aparência de Greta Thunberg, que geralmente se apresenta em público com o cabelo penteado em tranças, com crianças retratadas em propagandas nazistas na Alemanha nas décadas de 1930 e 1940 também tem sido frequente entre os ataques à adolescente nas redes.
A primeira postagem do tipo encontrada por Aos Fatos é de 22 de setembro, um dia antes do discurso de Greta na ONU, e foi publicada na conta oficial do Twitter do comentarista político e escritor conservador indo-americano Dinesh D’Souza. Ele apresenta uma montagem que compara Greta a uma criança loira de tranças que aparece segurando uma bandeira nazista em uma arte que serviu como propaganda ao movimento.
No texto, o comentarista afirma que “crianças — notadamente meninas brancas e nórdicas com tranças e bochechas rosadas — foram muito usadas na propaganda nazista. Uma técnica antiga de Goebbels! Parece que hoje a esquerda progressista está ainda aprendendo o jogo de uma esquerda antiga dos anos 1930”.
D’Souza usa um argumento falacioso recorrentemente compartilhado por grupos conservadores de associar o nazismo à esquerda. Com isso, afirma que Greta seria uma espécie de propaganda reciclada da Alemanha nazista pelos atuais progressistas.
A ligação entre o movimento alemão e a esquerda começou a ser ventilada no Brasil no início dos anos 2000 por Olavo de Carvalho, com a justificativa de que o termo “socialista” constava no nome oficial do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. O argumento já foi apresentado pelos ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e pelo do Meio Ambiente, Ricardo Salles.
No entanto, o nazismo é reconhecidamente um movimento radical de direita, segundo definição do próprio Museu do Holocausto, em Israel. Em entrevista ao veículo alemão Deutsche Welle, o historiador da Universidade de Aarhus Wulf Kansteiner, autor do livro In pursuit of German memory (Em busca da memória alemã), explicou que os nazistas não seguiam políticas de esquerda: “ao contrário, propagavam valores da extrema direita, um extremo nacionalismo, um extremo antissemitismo e um extremo racismo. Nenhum especialista sério considera hoje o nazismo de alguma forma um fenômeno de esquerda".
Apesar de já ter sido amplamente desmentida, a falsa relação entre o partido e a esquerda também foi usada no Brasil para criticar Greta. Provavelmente inspirados pelo comentários de D’Souza, publicações do deputado estadual de São Paulo Frederico D’Avila (PSL) e do responsável pelo site de direita Terça Livre, Allan dos Santos, replicaram o argumento falacioso.

5. Privilégios
A última entre as principais estratégias utilizadas em peças de desinformação contra Greta nas redes tem sido o uso de montagens que supostamente exporiam a contradição entre os discursos da ativista e suas ações concretas. Em fala na ONU, a jovem disse que os líderes mundiais “roubaram meus sonhos e minha infância com suas palavras vazias, e eu ainda sou uma das que teve sorte. Pessoas estão sofrendo. Pessoas estão morrendo”.
A imagem mais disseminada — que chegou a ser compartilhada no Twitter pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) mostra Greta comendo dentro do que parece ser uma cabine de trem enquanto crianças negras a observam do lado de fora. Criticado pela publicação da montagem, o deputado federal respondeu a um usuário indicando ter conhecimento de que o conteúdo era falso e que aquilo seria uma piada.
O conteúdo, que foi checado por Aos Fatos, é flagrantemente falso. A montagem é uma combinação de duas imagens. A primeira, postada nas redes no dia 22 de janeiro deste ano pela própria Greta, mostra a adolescente tomando café da manhã em uma viagem de trem à Dinamarca. Já a segunda, tirada em 2007 por Stephanie Hancock, da Reuters, retrata crianças africanas que vivem nas florestas próximas à vila de Bodouli, na República Centro-Africana.
Colaborou Luiz Fernando Menezes.
Referências:
1. The Guardian (Fontes 1, 2 e 3)
2. Época
3. Uol (Fontes 1 e 2)
4. Buzzfeed
5. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3, 4 e 5)
6. Open Society Foundation
7. German American Conference
8. ONE Campaign
9. Tony Attwood
10. Research Autism
11. Autism Speaks
12. Revopera
13. Polígrafo
14. Dagens Nheter
15. Alison Chapman Design
16. Classical MPR
17. No Fly Climate SCI
18. Democracy Now
19. FBI
20. Congresso dos EUA
21. CBS
22. BBC Brasil
23. Museu do Holocausto
24. Deutsche Welle
25. Reuters

O Observatório da Educação Ambiental Brasileira Michèle Sato não foge à luta pela soberania brasileira!! Dizemos não ao imperialismo que per...