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domingo, 14 de abril de 2019

PAULO FREIRE



https://www.pfz.at/

Ao senhor Eduardo Bolsonaro,

não vai ser possível te fazer compreender a grandeza de Paulo Freire nesses poucos parágrafos, pra isso seria necessário o senhor ler os livros dele antes de se propor a falar sobre o que você não entende. Mas posso tentar te ajudar a saber um pouco melhor quem foi Paulo Freire, um homem de espírito grande, e livre de muitas das amarras do ego que a maioria de nós trazemos.

Patrono da educação brasileira, Paulo Freire é o acadêmico brasileiro mais homenageado de todos os tempos, com 29 títulos de Doutor Honoris Causa por universidades da Europa e da América, e centenas de outras menções e prêmios internacionais, entre eles o prêmio Educação pela Paz, da UNESCO, que Freire recebeu em 1986.

De acordo com levantamento do pesquisador Elliott Green, professor da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, Paulo Freire é o terceiro pensador mais citado do mundo em trabalhos acadêmicos da área das ciências humanas.

Sua obra 'Pedagogia do Oprimido' está na lista dos 100 livros mais pedidos em universidades de língua inglesa pelo mundo. Este livro de Freire foi o único livro brasileiro a entrar no top 100 desta lista. E quando consideramos apenas os autores da área da Educação, o livro de Paulo Freire é o segundo livro mais consultado em bibliotecas de língua inglesa do mundo inteiro.

Na década de 1960, Paulo desenvolveu uma metodologia que alfabetizou 300 cortadores de cana no Rio Grande do Norte em 45 dias, baseando-se nos contextos e saberes de cada comunidade, respeitando as experiências de vida próprias de cada indivíduo. Foi então convidado para preparar o Plano Nacional de Alfabetização, no governo João Goulart, que previa a ampliação da sua metodologia para formação de educadores em escala nacional. O Golpe Militar, porém, interrompeu o plano, Paulo Freire foi preso por 70 dias e posteriormente exilado do nosso país. Em 1968, Freire foi convidado para ser professor visitante na Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Há instituições de ensino que seguem o método Paulo Freire em diversos países. É o caso da Revere High School, escola em Massachusetts que em 2014 foi avaliada como a melhor instituição pública de Ensino Médio nos Estados Unidos.

Não é nenhuma surpresa que seu Jair "queremos-uma-garotada-que-não-se-interesse-por-política" Bolsonaro queira acabar com a influência de Paulo Freire na educação brasileira. Freire explicou antecipadamente essa intenção de Bolsonaro numa frase bem didática:

"Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica" (Paulo Freire)

É verdade que infelizmente as ideias de Paulo Freire não foram amplamente colocadas em prática no Brasil. Se nossas escolas tivessem realizado concretamente a ideia de educação para o pensamento crítico e libertário de Paulo, provavelmente o senhor Eduardo Bolsonaro e seu pai jamais teriam sido eleitos representantes do povo brasileiro. Então não surpreende de nenhuma forma que o senhor e seus eleitores não conheçam bem o trabalho de Paulo Freire.

Você, seu pai e Olavo propõem acabar com a influência de Paulo Freire na educação brasileira alegando que ele teria "acabado com o nosso ensino". O engraçado é que as ideias de Paulo Freire, tendo sido muito mais aplicadas no exterior do que no Brasil, não acabaram com a qualidade do ensino da:

Austria - Instituto Paulo Freire
http://www.pfz.at/

Alemanha - Paulo Freire Kooperation, Oldenburg
http://www.freire.de/

Finlândia - Paulo Freire Center
http://www.kriittisetpedagogit.fi/

Holanda - Centro Paulo Freire, Vrije Universiteit Amsterdam
https://www.vu.nl/en/about-vu-amsterdam/faculties-and-institutes/cpf/index.aspx

Inglaterra - Freire Institute, University of Central Lancashire
http://www.freire.org/

Estados Unidos - Paulo Freire Democratic Project, Chapman University
https://www.chapman.edu/ces/research/centers-and-partnerships/paulo-freire/index.aspx

Canada - The Freire Project
http://www.freireproject.org/

França - Institut International bell hooks - Paulo Freire
https://emancipaeda.hypotheses.org/

Itália - Istituto Paulo Freire
http://paulofreire.it/

Portugal - Instituto Paulo Freire
http://www.ipfp.pt

África do Sul - Paulo Freire Project, University of KwaZulu
http://cae.ukzn.ac.za/PauloFreireProject.aspx

Portanto, seu Eduardo, me diga você quais foram os prêmios, as menções honrosas internacionais, o reconhecimento acadêmico ou mesmo prático de Olavo de Carvalho em alguma fila de pão do Brasil profundo e então voltamos a conversar.

Desejo humildade e sabedoria pro senhor.
Prof. Rafael Dias.



vídeo: Paulo Freire
música: Pixinguinha (rosa)
direção: Michèle Sato




 Canoas, RS - 2013

 Brasíli, DF

 Montevideo, Uruguai

 Pirituba, SP

 Recife, 1997

 Ribeirão Preto, SP

Santiago, Chile

Campinas, SP 

 Suécia, homenagem ao lado de Neruda, Mao, e outros

 Taboão da Serra, SP

 Chile, Univ del Bio



louca por paulo freire:
(mimi)

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Eduardo Bolsonaro pergunta qual o legado de Paulo Freire e vira piada nas redes


https://www.revistaforum.com.br/eduardo-bolsonaro-pergunta-qual-o-legado-de-paulo-freire-e-vira-piada-nas-redes/

14 DE ABRIL DE 2019, 11H49

Eduardo Bolsonaro pergunta qual o legado de Paulo Freire e vira piada nas redes

O deputado federal, ao sair em defesa de Olavo de Carvalho, demonstrou que não conhece o mínimo sobre a obra daquele que é considerado um dos maiores educadores do mundo; "Falta o pessoal da esquerda agora dizer quem é Paulo Freire e o seu legado na educação nacional"
Reprodução
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) virou motivo de piada nas redes sociais por desafiar “a esquerda” a dizer quem foi Paulo Freire e seu legado para a educação nacional.
“Diariamente mostramos quem é Olavo de Carvalho @opropriolavo. Falta o pessoal da esquerda agora dizer quem é Paulo Freire e o seu legado na educação nacional…”, escreveu o filho do presidente em seu Twitter na noite de sábado (13).
Internautas, então, resolveram aceitar o desafio e passaram a fazer centenas de postagens com referências a Paulo Freire, considerado um dos maiores educadores do mundo. Quase sempre com provocações e ironias direcionadas ao deputado federal, as postagens fizeram o termo “Paulo Freire” ir para os Trending Topics do Twitter.
Entre as respostas a Eduardo Bolsonaro ganharam destaque as que lembram que o autor de Pedagogia do Oprimido é o terceiro nome mais citado em trabalhos acadêmicos de humanas no mundo e que ele é o brasileiro com mais títulos de Doutor Honoris Causa de diversas universidades espalhadas por dezenas de países. Ao todo, são 41.

domingo, 31 de março de 2019

Criticada pelo governo, metodologia Paulo Freire revolucionou povoado no sertão

 https://reporterbrasil.org.br/2019/03/criticada-pelo-governo-metodologia-paulo-freire-revolucionou-povoado-no-sertao/?utm_source=Newsletter+Rep%C3%B3rter+Brasil&utm_campaign=6513fa04e5-EMAIL_CAMPAIGN_2018_06_29_01_47_COPY_01&utm_medium=email&utm_term=0_944ecaaf26-6513fa04e5-55210819

Criticada pelo governo, metodologia Paulo Freire revolucionou povoado no sertão

Antes de ser exilado, educador comandou alfabetização de 300 adultos no interior do Rio Grande do Norte em 1963, em curso financiado pelo governo dos EUA, que ensinou também direitos trabalhistas


https://youtu.be/KGmcm651jO8



Um povoado desconhecido no sertão brasileiro, com alta taxa de pobreza e uma multidão de trabalhadores analfabetos, viveu uma revolução: em apenas 40 horas, um grupo de professores liderados pelo educador Paulo Freire ensinou 300 adultos a ler e a escrever. Mais do que criar novos leitores, a primeira experiência de alfabetização em massa do país, realizada em 1963, em Angicos, no Rio Grande do Norte, gerou novas possibilidades de emprego, deu aos trabalhadores o tão sonhado poder do voto e os ensinou sobre seus direitos – especialmente os trabalhistas.
O resultado deu tão certo que inspirou o Plano Nacional de Alfabetização, que nunca chegou a sair do papel por causa do golpe militar de 1964. Alguns dos principais articuladores da ideia, entre eles o próprio Paulo Freire, terminaram exilados.
Mais de cinco décadas depois, o ódio ao educador voltou à cena e guia a atual política educacional no país. O presidente Jair Bolsonaro afirmou, enquanto candidato, que entraria com um “lança-chamas no MEC para expulsar Paulo Freire lá de dentro”.
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O ex-aluno Paulo Alves de Sousa diz que não guardou nada da época do curso de alfabetização: “Se a polícia pegasse, a gente ia preso” (Foto: Caio Castor/Repórter Brasil)
Ironicamente, o projeto executado em Angicos foi financiado pela Aliança para o Progresso, do governo dos Estados Unidos, que via na alfabetização dos brasileiros uma das armas na luta contra o avanço do comunismo na América Latina.
Enquanto o método Paulo Freire virou uma bandeira a ser combatida, 13 milhões de jovens e adultos com mais de 15 anos ainda não sabem ler nem escrever, dado que coloca o Brasil entre os dez países com mais analfabetos no mundo, segundo a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).
“O projeto de Angicos custava 36 dólares por aluno e o prazo de aprendizagem era curto. Se até hoje não foi retomado, é por intenção de não gerar condições de aprendizagem para uma parte da população, que termina por não desenvolver o seu potencial”, diz o advogado Marcos Guerra, que foi o coordenador da experiência na cidade. Ele explica que a cidade foi escolhida por ter, na década de 1960, o maior índice de analfabetismo do Rio Grande do Norte.

A palavra é TRABALHO

Para angariar os alunos em Angicos, professores percorreram a cidade anunciando porta-a-porta a nova escola. Como a cidade não tinha escolas suficientes, salas de aulas foram improvisadas em casas de moradores e até na delegacia, onde tinham presos e policiais analfabetos. Na década de 1960, 40% dos brasileiros eram analfabetos e só um terço das crianças frequentavam a escola.
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Cerca de 300 moradores de Angicos participaram do curso de alfabetização de adultos e ganharam o direito ao voto (Foto: arquivo)
Considerada subversiva pelos militares, a metodologia consistia, primeiro, em levantar  palavras que faziam parte do cotidiano dos alunos. “Por exemplo, ‘tijolo’. A professora perguntava quem sabia fazer tijolo, quanto vendia, quem comprava, de quem era o lucro maior – se do proprietário ou do trabalhador que o fabrica. Chamavam isso de aula de politização”, lembra a ex-aluna Maria Eneide de Araújo Melo, 62, que hoje é professora aposentada.
Naquela época, as condições de trabalho na região eram precárias, havia muita desigualdade social, e a maior discussão se deu quando os professores projetaram para os alunos a palavra ‘trabalho’. A partir desse momento, foram incentivados a ler em sala artigos da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).
“Eles passaram a reivindicar direitos, como repouso semanal remunerado e jornada de trabalho, que era intensiva e ultrapassava as horas estabelecidas pela lei. A carteira assinada os entusiasmava”, conta a juíza aposentada Valquíria Félix da Silva, 78, que foi uma das professoras do curso na cidade.
Depois do curso, uma greve na cidade parou a construção de uma obra. Acredita-se que eles teriam sido inspirados pelo ensino dos direitos trabalhistas em sala de aula, com a metodologia freiriana. “Os trabalhadores disseram ao dono da empresa que sabiam que tinham direitos. Eles pediam carteira assinada, repouso semanal remunerado e férias. E o patrão disse: ‘eu não dou isso não, ninguém dá’”, lembra Guerra.
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O educador Paulo Freire faz formação de professores para replicarem sua metodologia (Foto: arquivo)

Novos caminhos

Maria Eneide nem tinha completado os 7 anos necessários para iniciar a alfabetização, quando tratou de convencer a mãe e o pai analfabetos de que precisavam aproveitar a nova escola que chegava na cidade. “Meu pai trabalhava na agricultura, saía de manhã e só voltava à noite. Às vezes, ele estava cansado, pensava em faltar, mas a professora ia lá em casa buscá-lo para a escola”, lembra ela, que acompanhou os pais no curso.
Depois da formatura, o pai deixou o trabalho no campo para ser pedreiro e, por fim, virou comerciante na cidade. A mãe, por sua vez, decidiu realizar o sonho de entrar para a aula de corte e costura, porque agora já sabia anotar as medidas.
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Francisca de Brito, ex-aluna, frequentou o curso de alfabetização mesmo sob ameaças da mãe (Foto: Caio Castor/Repórter Brasil)
Mas a pequena Maria Eneide queria ser professora como “a dona Valquíria”, com quem aprendeu a ler na turma de adultos. “Fui alfabetizada no curso de Paulo Freire. Daí, quando eu entrei para o primeiro ano do fundamental, eu já falava de reforma agrária, das leis da Constituição. As professoras não gostavam, diziam que eu estava mentindo. As pessoas não eram esclarecidas naquela época”, diz ela, que acabou estudando pedagogia e hoje é professora na cidade.

Novos leitores e eleitores

A revolução em Angicos aconteceu também pela realização de um desejo antigo de muita gente: o poder do voto. Naquela época, analfabetos não podiam votar. Antes do curso, havia cerca de 800 eleitores cadastrados na cidade. Depois da formatura, o município ganhou 300 novas inscrições.
“A gente que era pobre não era nem bem visto, ninguém podia nem entrar no meio da sociedade, em festa desse povo, porque era pobre, era da cor morena. Mas daí a professora começou a explicar que a gente ia aprender a ler para conhecer os nossos direitos, e eu tinha vontade de aprender, fazer meu nome que era pra votar. E eu aprendi”, lembra Luzia de Andrade, 88.
Apesar do entusiasmo de todos, o clima em 1963 já era tenso no país. Logo após o golpe militar, Paulo Freire foi demitido da então Universidade do Recife, permaneceu 70 dias preso e, em seguida, teve que deixar o país, assim como outros educadores do projeto, como Marcos Guerra.
Em Angicos, estabeleceu-se um silêncio que durou quase 30 anos. Estava proibido falar e lembrar das 40 horas que haviam mudado a cidade. “Quando chegou essa notícia de que o homem [Paulo Freire] tinha sido exilado, que tinha sido preso, muita gente, com medo, escondeu caderno, escondeu livro, queimou”, conta Francisca de Brito, 74. “A gente não tem nada guardado dessa época porque se a polícia pegasse, a gente ia preso”, diz Paulo Alves de Sousa, 77, outro ex-aluno.

A massa virou povo

Antes do golpe de 1964, a experiência era tão importante para o país que o último dia de aulas em Angicos contou com a presença do então o presidente João Goulart, do presidente da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) Celso Furtado e de governadores de estados do Nordeste.
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Marcos Guerra, coordenador do curso em Angicos, foi exilado após o golpe de 1964 (Foto: Caio Castor/Repórter Brasil)
Em meio às autoridades, um aluno pediu a palavra e improvisou um discurso sobre a experiência na cerimônia de formatura. “Em outra hora, nós era massa, hoje já não somos massa, estamos sendo povo”, disse o agricultor Antônio Ferreira.
O presidente João Goulart ainda ficou curioso ao saber que uma criança tinha aprendido a ler com a metodologia voltada para os adultos. Era Maria Eneide, chamada à frente para testar as novas habilidades para o público ilustre.
“Ele disse: ‘lê aqui’. E eu li. Depois me perguntou: ‘você quer ganhar o que?’ E respondi que queria uma bolsa para levar o material para a escola”. Trinta anos depois, em visita a Angicos, Paulo Freire decidiu refazer a pergunta para a ex-aluna: “se o presidente hoje perguntasse o que você queria de presente, o que você diria?”. “Eu queria salário digno a todos os professores”.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Por que o sistema educacional brasileiro nunca adotou Paulo Freire na prática?

https://diplomatique.org.br/por-que-o-sistema-educacional-brasileiro-nunca-adotou-paulo-freire-na-pratica/

O PENSAMENTO SOB ATAQUE

Por que o sistema educacional brasileiro nunca adotou Paulo Freire na prática?

por Raphael Silva Fagundes e Wendel Barbosa
Janeiro 3, 2019
Imagem por Daniel Kondo

Apesar de Paulo Freire ser inspirador e de ter se transformado em patrono da educação brasileira, suas ideias são usadas pontualmente, e não como uma política pública aplicada ao sistema educacional brasileiro como um todo. Os governos anteriores, por mais que tivessem nas ideias de Freire um norte, não quiseram aplicar suas teorias em nosso sistema educacional


Ao longo da vida, passamos por um processo permanente de transmissão, assimilação e aprendizagem de valores e comportamentos dentro de uma mesma cultura. Esse processo de endoculturação se dá geralmente por duas vias: 1º) o condicionamento do meio social; e 2º) a educação. Muitas vezes, porém, esse condicionamento social faz que sejam criadas regras que dificultam a circulação de certas ideias no ambiente escolar. Certos assuntos, por uma moralidade atrelada a bases fundamentalistas que moldam o consciente coletivo, acabam sofrendo limitações discursivas. Nesse sentido, esses saberes são limados – dentro desses princípios morais – ou excluídos. Assim, apesar de a escola – diante de todas as instituições que hoje monopolizam certas instâncias do conhecimento – possibilitar a democratização da construção desses saberes, sendo vista como “um instrumento de equalização de oportunidades”,1 esses valores sociais acabam por diminuir esse impacto, ao buscarem formatar e condicionar o que é passado dentro dessas instituições.
Os debates sobre os limites que se devem impor a esses espaços motivaram, em 2004, um movimento político, criado pelo advogado Miguel Nagib, de nome Programa Escola sem Partido. O pensamento sobre o papel da escola é bem simplório: ela seria um lugar reservado apenas para ensinar e aprender Matemática, Português, História etc. – enfim, as disciplinas que compõem a grade curricular. Sem grilhões ideológicos. Sem partidarismo. Sem doutrinação. O mundialmente renomado pedagogo brasileiro, Paulo Freire, buscou formular a ideia de uma educação libertadora que se realiza como “um processo pelo qual o educador convida os educandos a reconhecer e desvelar a realidade criticamente”.2 Para Freire, a prática pedagógica é dialógica. Logo, é um espaço de contradições. O conhecimento só é construído mediante essas trocas. Somente por meio dessa dialética é que se formam seres críticos. No entanto, sob uma suposta égide ideológica encabeçada pelas teorias do pedagogo, construiu-se toda uma pauta política, absorvida pelo programa de governo do presidente Jair Bolsonaro, que visa abolir Paulo Freire das escolas.
Ignorando a “liberdade de cátedra” e atendendo aos pedidos de Bolsonaro – nas redes sociais – e de figuras como a deputada estadual eleita Ana Caroline Campagnolo (PSL), de Santa Catarina, os professores começaram a ser “supervisionados” e atacados por pais e alunos. Ensaiou-se um linchamento moral diante dessa visão política. Pesquisa divulgada pela Varkey Foundation – entidade dedicada à melhoria da educação mundial – evidenciou que menos de um em cada dez brasileiros acredita que o professor é respeitado em sala de aula.3 Um levantamento feito em 2018 pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) indica que a profissão de professor desperta interesse em menos de 3% de nossos jovens.4A falta de estrutura, os baixos salários, a necessidade de trabalhar em dois ou três lugares diferentes, o acúmulo de funções e o desrespeito citado são alguns fatores que explicam essa falta de interesse na profissão. Com o acréscimo agora da pecha de doutrinador. Algo lamentável, tendo em vista o papel social que acabou adquirindo, pois a escola vem absorvendo, há tempos, uma gama de funções que originalmente seriam de responsabilidade da família. O estreitamento dessas relações gera, por exemplo, a chamada “transferência”, quando alguém toma as percepções e expectativas de uma pessoa e as projeta em outra. Ela, então, interage com essa pessoa como se a outra fosse o padrão transferido. Vemos muito isso nas crianças do primeiro segmento do ensino fundamental que chamam seus professores de “tio” ou “tia”. O espaço escolar assumiu um papel social muito mais abrangente do que os determinados pela Constituição Federal (1988) e pela Leis de Diretrizes e Bases da Educação (LDB/1996). A absorção dessas funções, em muito, é fruto da falência das relações familiares. Um desarranjo fomentado por políticas públicas incapazes de promover justiça social.
Em países classificados pela Unesco como tendo os melhores sistemas educacionais (Coreia do Sul, Finlândia, Estados Unidos etc.), aplica-se a pedagogia de Freire. Ele é o terceiro teórico mais citado em trabalhos acadêmicos no mundo. Ele dá nome a institutos acadêmicos em países como Finlândia, Inglaterra, Estados Unidos, África do Sul e Espanha. Sua obra Pedagogia do oprimido é o livro mais lido no mundo na área das Ciências Sociais. Apesar de ser inspirador e de ter se transformado em patrono da educação brasileira, suas ideias são usadas pontualmente, e não como uma política pública aplicada ao sistema educacional brasileiro como um todo. Os governos anteriores, por mais que tivessem nas ideias de Freire um norte, não quiseram (ou não souberam) aplicar suas teorias em nosso sistema educacional. O diretor-fundador do Instituto Paulo Freire e professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Nove de Julho (Uninove), José Eustáquio Romão, diz que “o fracasso da educação brasileira atual é justamente porque não se aplica Paulo Freire”.5
O pedagogo, na verdade, sempre foi atacado. A manutenção de sua imagem em nosso sistema educacional criou a falsa impressão de uma educação libertadora. A escola deveria ser um ambiente onde “privilégios de classe, de dinheiro e de herança não fossem barreiras para que o indivíduo pudesse buscar sua posição na vida social”,6 que orientasse nossos jovens a pensar criticamente a sociedade em que vivem. Mas, na prática, não é isso que acontece. Se assim o fosse não veríamos tantas pessoas aplaudirem o desengajamento moral do presidente. Não veríamos tantos jovens com uma visão tão deturpada sobre os problemas socioeconômicos que afligem nosso país. Não veríamos tantos discursos discriminatórios disfarçados de opinião. Não! A escola brasileira não é crítica. Ela continua a reproduzir a ideologia dominante. Continua servindo aos interesses de quem detém o poder econômico.
O patrono da educação brasileira, para “Fernandos”, “Lulas”, “Dilmas” ou “Temers”, nada mais é do que um amontoado de frases de efeito que serviam para a consolidação da retórica de uma educação livre da opressão. Nunca foi! Para Marcos F. Martins, “o aspecto essencial da hegemonia da classe dirigente está em seu monopólio intelectual”.7 Então, por que promover a igualdade por meio da escola? O que interessaria à classe dominante perder sua hegemonia no campo ideológico do saber? Não seria interessante dar um instrumento intelectual (saber) às massas, pois tal fato desestruturaria a concepção dicotômica da sociedade. O que queremos dizer é que a construção de seres críticos e pensantes atrapalha os interesses dos poderosos. Bolsonaro pensa igual. A diferença é que, para ele, há a necessidade de se desvencilhar de qualquer elemento que possa lembrar as políticas públicas que tanto criticou e que o levaram ao poder. Ele não se importa em manter Freire, mesmo como artifício retórico. Portanto, não há pudor nenhum, por parte dele, em execrá-lo. Infelizmente, retirar ou não seus postulados do sistema educacional brasileiro, na prática, não muda nada. Se somos orientados por uma base ideológica, a nossa sempre foi excludente.
Para Moacir Gadotti, nenhum pedagogo ou educador tem a intenção de “fazer escravos ou […] domesticar homens para a obediência e a submissão”.8 O professor veria na educação um processo que possui como norte o desenvolvimento do ser humano. Paulo Freire dizia que educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante. No entanto, qual é o significado disso atualmente? Há mais de trinta anos o próprio pedagogo apontava que a tarefa principal da educação é reproduzir a ideologia dominante. Mas como um espaço de contradições há outra tarefa a ser cumprida: denunciar e atuar contra a tarefa de reproduzir essa ideologia. E essa segunda tarefa é do professor,9que mesmo sozinho nessa batalha continua a ter como sonho político a libertação.
Educar para a liberdade
“Os alunos devem ser encorajados a buscar mais conhecimento”, coloca o professor Carlos Libâneo. Eles devem ser avaliados pela compreensão, originalidade, capacidade de resolver problemas e, sobretudo, pela “capacidade de fazer relações entre fatos e ideias”.10 Paulo Freire diz que, se não há a “possibilidade de reflexão sobre si”, o profissional da educação “não é capaz de compromisso”. O indivíduo preso à sua realidade, aquele que não consegue “distanciar-se” do seu contexto, está “fora” do tempo, preso a um “perpétuo presente”. A imersão na realidade torna-o um ser a-histórico e, “em lugar de relacionar-se com o mundo, o ser imerso nele somente está em contato com ele. Seus contatos não chegam a transformar o mundo, pois deles não resultam produtos significativos, capazes de (inclusive, voltando-se sobre ele) marcá-los”.11
Essas reformas na educação têm o objetivo de inserir o aluno no contexto, trabalhar com indivíduos (professor/aluno) que apenas entram em contato com o mundo. O próprio ensino de História, por exemplo, acaba sendo moldado do jeito que o sistema quer. Passa a servir apenas para que o indivíduo se reconheça como parte de uma sociedade que se desenvolveu tecnologicamente e que deve continuar a se desenvolver. O indivíduo é treinado para dar sua contribuição nesse desenvolvimento tecnológico. Pretende-se apenas inseri-lo no sistema para este ser reforçado.12 Jamais pensar sobre ele. Além disso, deparamo-nos com a perversão de uma escola que não está aberta a vários discursos que, consequentemente, acabam por incitar o preconceito e a exclusão. Uma violência simbólica é cultuada porque todos são condenados a uma única maneira de conceber a realidade.
As esquerdas perderam muito tempo teorizando sobre a educação e não para a educação. Agora é preciso disseminar a ideia de que o professor é um intelectual e a escola, um centro de contestação. O professor tem o dever de criticar o objetivo geral do sistema escolar que pretende preservar uma sociedade de classe, a qual exclui certos grupos, de forma a identificar os objetivos que convergem para a efetiva democratização escolar. A escola não deve ser um local de mera reprodução dos interesses dominantes, mas onde grupos sociais se confrontam. Nesse sentido, ela não pode ser ideologicamente neutra. “A neutralidade frente ao mundo, frente ao histórico, frente aos valores, reflete apenas o medo que se tem de revelar o compromisso”, nos diz Paulo Freire. Os que se dizem neutros “estão ‘comprometidos’ consigo mesmos, com seus interesses ou com os interesses dos grupos aos quais pertencem”.13
É necessário evidenciar a contradição entre a aprendizagem casual e a aprendizagem organizada, chocar a cultura de sala de aula com a cultura de esquina, os diversos discursos da cultura popular com os da cultura dominante. Somente assim conseguiremos despertar no aluno um discurso subversivo, crítico, que não quer fazer apenas a sociedade funcionar, mas melhorá-la. Assim sendo, o projeto Escola sem Partido propõe uma mudança fictícia. Um novo que é forjado pelo velho, ou melhor, como a frase que conduz todo o filme de Luchino Visconti baseado no romance O leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: “Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude”.

*Raphael Silva Fagundes é doutor em História Política pela Uerj e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí; Wendel Barbosa é pós-graduado em História Social e Cultural do Brasil pela Fundação Educacional Unificada Campograndense (Feuc) e professor da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro.

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