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quinta-feira, 14 de maio de 2020

Por que reduzir investimento na área de Humanas não faz sentido no Brasil

https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/por-que-reduzir-investimento-na-area-de-humanas-nao-faz-sentido-no-brasil/

Por que reduzir investimento na área de Humanas não faz sentido no Brasil

Bolsonaro e o ministro da Educação afirmaram que vão redirecionar o investimento para áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte

Na última semana, Abraham Weintraub, ministro da Educação, gerou polêmica em uma live no Facebook que gerou reações de diversas associações das áreas de ciências humanas — e até mesmo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O ministro afirmou que o Brasil reduzirá os investimentos de cursos como Filosofia e Sociologia e redirecionará essa verba a áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, citando como exemplo os cursos de EnfermagemVeterináriaEngenharia e Medicina.

A Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF) foi uma das primeiras a se posicionar, emitindo uma nota que foi assinada por mais de 50 outras associações. Entre outras, assinaram a Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS), a Associação Nacional de História (ANPUH), a Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP).

De acordo com a nota, as declarações do ministro, reforçadas pelo presidente Jair Bolsonaro, demonstram “ignorância” sobre o que é estudado na área, além de sua relevância, custos e público. A associação afirma que a maior parte dos alunos de humanidades nas universidades públicas são provenientes das camadas de renda mais baixa da população, ao contrário do que afirmou Weintraub. De acordo com o ministro, esses seriam cursos “para pessoas já muito ricas, de elite”.  Por fim, as associações contestam o exemplo do Japão, tomado por Weintraub para mostrar que países desenvolvidos também teriam deixado de investir na área.

O Japão parou de investir em Humanas?

O Japão, país muito mais rico do que o Brasil, está tirando dinheiro público das faculdades que são tidas como de elite, como Filosofia”, afirmou o ministro na transmissão. Segundo ele, o país direcionou esse dinheiro para faculdades que “geram retorno de fato”.

É verdade. Em 2015, o governo do Japão pediu que 86 universidades caminhassem para abolir ou ao menos reformular as Ciências Sociais e Humanas. A maioria dessas faculdades respondeu que seguiria as orientações, mas as duas maiores do país, a Universidade de Tóquio e a Universidade de Kyoto, se recusaram e repudiaram o pedido. O reitor da Universidade de Shiga também afirmou que a medida era “anti-intelectual”.

À época, o Conselho de Ciência do Japão emitiu uma nota afirmando que “a academia contribui para a criação de uma sociedade culturalmente e intelectualmente mais rica. Vemos como a nossa missão produzir, aperfeiçoar e compartilhar percepções equilibradas e aprofundadas de conhecimento acerca da natureza, dos seres humanos e da sociedade. Portanto, Ciências Humanas e Sociais fazem uma contribuição essencial para o conhecimento acadêmico como um todo”.

A iniciativa do governo japonês, no entanto, não representou tanta novidade assim no país. A valorização das Ciências Naturais e Exatas em detrimento das Humanas foi uma medida também tomada por um antigo primeiro-ministro, Kishi Nobusuke. Mas o contexto era bem diferente: o Japão estava devastado, e derrotado, pela Segunda Guerra Mundial, e precisava se reerguer com urgência. Médicos e engenheiros tendem a ser mais requisitados do que filósofos em cidades arrasadas.

Embora seja a terceira economia do mundo, o Japão vem passando por um aumento de gastos que poderiam justificar a retomada dessa estratégia em 2015, por causa do envelhecimento da população e da queda no ingresso no Ensino Superior. Reduzindo os investimentos nas áreas de Humanas, os estudantes seriam empurrados para as Exatas. Além disso, um dos outros objetivos era elevar as universidades japonesas no ranking mundial, o QS World University Rankings, publicado pela Quacquarelli Symonds. Atualmente, a Universidade de Tóquio ocupa a 28ª posição e a de Kyoto a 36ª. 

Mas ao que parece, os resultados não foram tão efetivos assim. Um novo texto publicado pelo Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia, publicado em 2018, aponta que o Japão deverá voltar a investir nas Ciências Humanas a partir de 2020.

O documento deixa claro que é preciso, principalmente, trabalhar com a interdisciplinaridade e reunir especialistas de diversas áreas, inclusive das humanidades e ciências sociais, para promover a inovação e o desenvolvimento. Segundo o texto, mostrou-se necessário fomentar recursos humanos que possam conectar ciência com política. Ele cita ainda a importância das perspectivas históricas e do conhecimento geopolítico.

Quanto custam as Ciências Humanas no Brasil

Um dos objetivos do ministro da Educação e de Bolsonaro para reduzir o investimento nos cursos de Ciências Humanas, especialmente nos citados por eles (Sociologia e Filosofia), é direcionar esse dinheiro para outras áreas. No entanto, os números do Censo da Educação Superior de 2017, do CNPq, do Capes e outros levantamentos mostra que essa verba “extra” não seria tão relevante assim.

Na graduação, para se ter uma dimensão, apenas 2% dos 1.283.431 alunos das universidades federais cursam Filosofia ou Sociologia. No mestrado e doutorado, dos 66 programas dessas universidades apenas 2,5% são das duas áreas.

No que se refere ao pagamento de bolsas, a área de Ciências Humanas representa apenas 1,4% dos gastos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e Filosofia fica ainda mais atrás, com 0,7%. Já as Engenharias, uma das áreas destacadas por Weintraub como prioritárias, já recebem cerca de 20% do valor total distribuído pelo órgão.

Se a medida for levada à frente pelo MEC, é provável que justamente a pesquisa seja sufocada pelo corte de gastos. Isso porque nenhuma instância do governo pode fechar cursos ou diminuir a oferta de vagas nas universidades, que têm sua autonomia garantida pela Constituição.

sábado, 9 de maio de 2020

DA INSUSTENTABILIDADE DE UMA VIDA A UM OUTRO MUNDO POSSÍVEL.


Em isolamento, 09/05/2020
DA INSUSTENTABILIDADE DE UMA VIDA A UM OUTRO MUNDO POSSÍVEL.
Mauro Guimarães – Prof. da UFRRJ


Crescimento ilimitado; concentração crescente; eliminação da diversidade são alguns dos pilares que sustentam o modo de vida moderna que hoje, dentro de um macro colapso climático planetário também desmorona diante do micro ser Covid19.

Crescimento ilimitado; concentração crescente; eliminação da diversidade são princípios organizativos de movimentos antinaturais da vida dessa sociedade e que levam a desequilíbrios que não sustentam a vida. Movimentos necrófilos que trazem a destruição sobrepujando a construção.

Crescimento ilimitado de uma economia globalizada que se estrutura a partir da exploração infinita de recursos naturais que são finitos em sua planetariedade. Resultado: degradação ambiental.

Concentração crescente de riqueza concretizada na desigualdade perversa da riqueza de poucos sobre a pobreza de muitos - degradação social. Concentração crescente espacial decorrente da econômica, que nos amontoa cada vez mais em grandes centros urbanos, em que a escala humana de vida é superada por estruturas sufocantes que ganham dinâmica própria secundarizando a vida - humana e não humana. Somos uma simples engrenagem desta linha de produção que se mostra nefasta, excluindo em guetos de sobrevivência os que a isso não se encaixam - degradação espacial.

Eliminação da diversidade: biológica, de modos de vida, cultural, de modos de produzir, para impor um modo único, monocultural, de hegemonia de um produzir hiperprodutivo para além da escala humana de vida. Imposição sustentada por relações de poder de dominação e exploração em que o hegemônico silencia o que não é igual. Fascismo, exclusão, necropolítica, degradação socioambiental, assim como mortes por traz de máscaras, mãos mal lavadas, na aglomeração das concentrações crescentes de uma massa que se move aturdida e alienada, consequências de uma crise que demonstra dia a dia a insustentabilidade de um modo de vida; a nossa!

Mas a crise nos mostra a escala global econômica incompatível com a escala humana de vida. Os crescentes macro urbes, insalubres, de ritmo alucinante, de vidas robotizadas, insensíveis ao outro vulnerabilizado, invisível maltratado, crianças de futuro marginal. No rural da megaprodutividade, a exaustão do solo, a contaminação hídrica, o alimento envenenado, os sem terras expropriados, sem lugar de sobreviver. Nos rios e mares, esgoto, poluição, plástico em profusão. O ar contaminado, concentração dos gases estufa, o horizonte nublando olhos que já não enxergam a luz de um novo dia. Essa não é a escala da vida humana! É o normal da escala econômica global que disjunta, segrega, exclui e necrosa a sustentabilidade da vida que humanamente não conseguimos mais abraçar.

Voltar ao normal? O normal é o problema! A crise nos mostra que esse normal colapsou. No ponto de vida ou morte, o ponto de mutação. A escala da vida humana nos mostra que menos é mais, que o próximo está no local de vida, onde posso ajudar e ser ajudado, abraçar e ser abraçado, amar e ser amado, pois é dando que se recebe como diz a oração de São Francisco. Na simplicidade das boas relações humanas é onde podemos construir o novo normal, o normal da sustentabilidade da escala da vida. Que a crise seja superação, oportunidade de transição para um outro mundo possível; o mundo numa escala, em que nós humanos, humildemente somos parte de um todo maior, a vida!

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Sob governo Bolsonaro, conflitos no campo aumentam e assassinatos de indígenas batem recorde


I Jomalismo



Sob governo Bolsonaro, conflitos no campo aumentam e assassinatos de indígenas batem recorde


Resumo:
Dos quase 14 mil conflitos registrados no país desde 2010 pela Comissão Pastoral da Terra, 2019 bateu o recorde negativo: um conflito a cada cinco dias

Por Bruno Fonseca, Thiago Domenici
Aumentaram os conflitos no campo durante o primeiro ano do Governo Bolsonaro: para cada quatro conflitos registrados em 2018, houve cinco em 2019. E esses conflitos têm local preferencial: a Amazônia brasileira, alvo de garimpos e expansão agropecuária, áreas que contam com apoio do presidente Jair Bolsonaro. É na Amazônia legal, região que engloba nove estados, que estão mais da metade dos conflitos registrados em 2019.
Os dados antecipados à Agência Pública são resultado do levantamento anual realizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT): “Conflitos no Campo Brasil 2019”, lançado nesta sexta-feira, 17 de abril, Dia Mundial de Luta Camponesa. A 34ª edição do relatório indica que a quantidade de conflitos rurais no primeiro ano do governo Bolsonaro é a maior dos últimos cinco anos.
“A política de desmonte do governo federal para o campo reflete o aumento dos conflitos. É o maior número [de conflitos] desde que publicamos o caderno. A região da Amazônia tem sido o foco durante muito tempo”, diz Jeane Bellini, coordenadora da CPT.
Em relação ao total de conflitos no campo no país, são quase 14 mil desde 2010, segundo levantamento exclusivo da Pública com base nos dados da própria CPT. Além disso, entre 1985 e 2018, 1938 pessoas foram executadas em conflitos por terra, água e trabalho no Brasil e 1789 desses casos (92%) continuam sem qualquer responsável julgado ou preso, diz a Comissão.
Já os números do relatório de 2019 revelam a dimensão das pessoas afetadas: foram mais de 100 mil famílias atingidas apenas nos estados da Amazônia Legal em 2019. Dessas, mais de 6 mil foram expulsas ou despejadas de suas terras.
É o caso de seu D. O., 58 anos, refugiado de Anapu, no Pará, que vivia na mesma gleba onde a missionária Dorothy Stang foi assassinada há 15 anos e que relatou à Pública por que os agricultores continuam a ser acossados por pistoleiros na região. “Alguns companheiros sentiram o choque da nossa saída. Mas, por outro lado, eles olharam e se conscientizaram que eu precisava sair. Ou eu saía ou eu morria. Eles iam me perder de qualquer maneira”, afirmou em agosto do ano passado.
A saída de seu D.O do território está relacionada com a morte de outra liderança, Marciano dos Santos, assassinado a tiros por pistoleiros da região — seu caso está registrado no atual relatório da CPT. Além deste, o caso da execução do sindicalista Carlos Cabral também integra o novo relatório.
A expulsão de famílias na Amazônia brasileira não acontece de forma pacífica: oito em cada dez assassinatos no país envolvendo conflitos de terra ocorreram nos estados da Amazônia Legal. É na região onde também ocorrem a maioria das tentativas de assassinato e as ameaças de morte. Uma das regiões onde os assassinatos são mais frequentes é Anapu, Pará, que desde 2015 registrou mais de uma dezena de mortes, duas delas ocorridas em dezembro: a do líder sem-terra Márcio Rodrigues dos Reis e do conselheiro tutelar Paulo Anacleto, também nos registros do atual relatório.
Além disso, a CPT indica quase 6 mil casos de pistolagem em situações de conflitos de terra na Amazônia e mais de 33 mil ocorrências de invasões em terras de famílias que vivem no campo — o número de ocorrências de pistolagem e invasões também aumentaram em relação a 2018, situação retratada por nossa reportagem, que detalhou um conflito no Pará que se arrasta há 13 anos e no ano passado viveu escalada de violência com famílias atacadas a tiros e suas casas, queimadas.
Além disso, a cada três dias uma mulher sofreu violência em conflitos no campo. Em 2019, o levantamento aponta três assassinatos de mulheres, três tentativas e 47 ameaças de morte. Situação vivida por Maria Márcia Elpídia de Melo, presidente da Associação dos Produtores e Produtoras Rurais Nova Vitória, uma das cinco associações de assentados do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Terra Nossa, assentamento de reforma agrária situado entre as áreas rurais de Novo Progresso e Altamira, no Pará.
Em entrevista aos repórteres da Pública, Márcia afirmou que vem sofrendo ameaças constantes por causa de denúncias que fez contra a exploração ilegal de recursos naturais (sobretudo madeira e ouro), venda de lotes e os assassinatos no interior do assentamento. “Eu sei que eu vou morrer. Eu me conformo com a minha morte. Eu só não quero que matem meu filho”, disse emocionada em setembro de 2019.
“Ao longo dos anos nós vimos que quando o estado se faz presente garantido a integridade física das pessoas, o poder privado recua. E na hora que o Estado se afasta, o poder privado avança e expulsa. E o discurso de Bolsonaro dá coragem para quem estava com vontade de adquirir mais terra ilegalmente seguir em frente”, diz a coordenadora da CPT.

Assassinato de indígenas bate recorde sob Governo Bolsonaro

O primeiro ano do Governo Bolsonaro também registra o maior número de lideranças indígenas assassinadas dos últimos 11 anos, situação já apontada em outro relatório, o do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Segundo Roberto Antônio Liebgott, coordenador do CIMI, o garimpo é o carro-chefe dos problemas no agravamento da ofensiva sobre as terras indígenas, além de invasões, roubo de madeira e minérios, grilagem e até mesmo loteamentos.
A CPT aponta sete líderes indígenas assassinados no ano. Houve também dois indígenas não-líderes que foram mortos, o que elevou o número total de indígenas assassinados em conflitos no ano passado para nove.
“Temos visto ao longo dos anos que é quase um processo cíclico, como em 2019, os assassinatos foram seletivos. Por exemplo, entre 9 indígenas assassinados, sete eram lideranças. É uma estratégia de desmobilizar o grupo maior através do assassinato de lideranças”, avalia Jeane, da CPT.
Um dos casos é o de Emyra Waiãpi, da Terra Indígena Waiãpi, assassinada em julho de 2019, com 69 anos. Ela foi morta a facadas em meio a um contexto de invasão de garimpeiros. O corpo foi encontrado em um rio. Segundo a Comissão, há processos minerários na região para mineração de tântalo e ouro.
Além dos assassinatos, os indígenas ainda sofreram nove tentativas de homicídio e 39 ameaças de morte, além de dezenas de agressões e intimidações. Famílias de indígenas são uma a cada três famílias envolvidas em conflitos por terra no ano passado. Foram quase 50 mil em todo o país. Além disso, houve 930 despejos de famílias indígenas e 320 expulsões por proprietários de terras e grileiros.
Segundo o CIMI, também os indígenas Guajajara, no Maranhão, vivem uma escalada de violência com ameaças e mortes — mais de 40 indígenas Guajajara foram assassinados em decorrência de conflitos com madeireiros entre 2000 e 2019, alguns dos casos investigados no especial Amazônia sem Lei, que contou a história da morte de Paulo Paulino Guajajara, 26 anos, assassinado com um tiro no rosto durante emboscada no interior da terra indígena Arariboia. No ataque, Laércio Souza Silva Guajajara também foi baleado no braço e nas costas mas sobreviveu para contar o que viu.
“O discurso e ação do presidente Bolsonaro nos leva a acreditar que a tendência é piorar. E, além disso, nós temos ouvido de nossas equipes, principalmente na Amazônia — mas em outras regiões do Brasil também —, que enquanto os órgãos públicos estão trabalhando numa intensidade menor, por causa da pandemia de coronavírus, os grileiros, madeireiros ilegais, garimpeiros, estão indo a todo vapor”, finaliza Jeane.
Conflitos por água são maior desde 2002
Em 2019, o Brasil também registrou outro recorde: o maior número de conflitos por água desde o primeiro levantamento da CPT, de 2002. Foram 489 conflitos, envolvendo mais de 69 mil famílias.
A maior parte desses conflitos envolveu empresas de mineração. A Comissão registrou mortes, relatos de ameaças e agressões envolvendo conflitos com mineradoras, além de registros de contaminação por mercúrio. A maior parte desses conflitos ocorreu em Minas Gerais.

Dentre a população mais afetada em disputas por água estão pescadores, ribeirinhos, pequenos proprietários e quilombolas.


A reportagem é parte do projeto da Agência Pública chamado Amazônia sem Lei, que investiga violência relacionada à regularização fundiária, à demarcação de terras e à reforma agrária na Amazônia Legal. O especial também faz a cobertura dos conflitos no Cerrado, o segundo maior bioma brasileiro






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