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quarta-feira, 5 de maio de 2021

Aumenta repressão policial contra greve na Colômbia

https://www.brasildefato.com.br/2021/05/05/aumenta-repressao-policial-contra-greve-na-colombia-quais-as-origens-da-violencia 



LUTA SOCIAL

Aumenta repressão policial contra greve na Colômbia; quais as origens da violência

Há mais de uma semana com mobilizações populares intensas, país se vê envolto por violações de direitos humanos

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
 
Manifestantes fazem um gesto em frente a uma fila da polícia de choque durante um protesto contra a reforma tributária em frente à casa do presidente Iván Duque, em Bogotá, em 1º de maio - Juan Barreto/AFP

A greve nacional contra as medidas neoliberais impostas pelo governo do presidente colombiano, Iván Duque, completou uma semana nessa terça-feira (4). Mobilizações ocorrem em várias cidades e rodovias da Colômbia, enquanto as forças de segurança aumentam a violência repressiva contra os manifestantes. Um novo grande protesto foi convocado para esta quarta-feira (5) pelo Comitê Nacional de Greve na Colômbia.

Organizações de direitos humanos do país registram 1.181 casos de violência policial entre os dias 18 de abril, início dos protestos, e essa segunda-feira (3), além de 26 mortes, 142 vítimas de violência física e 761 detenções arbitrárias por parte das forças de segurança estatais.

Mas as cifras podem ser ainda maiores, com a Defensoria colombiana informando que até essa terça (4) recebeu 87 relatos de pessoas desaparecidas durante as manifestações. De acordo com o órgão estatal, 36 desaparecimentos são reportados da cidade de Cali (departamento de Valle del Cauca), enquanto na capital, Bogotá, 18 denúncias foram registradas, incluindo dois menores.

Ao longo dos dias de greve, Cali vem registrando a maioria dos casos de violência policial. Segundo a Human Rights International, um massacre perpetrado pela polícia ocorreu na noite de segunda (3) no bairro popular de Siloé, em Cali. A ONG investiga as mortes de 6 pessoas, entre elas um menino de 11 anos, além de 18 feridos, incluindo uma criança de 7 anos. Contudo, a violência policial também se dirige aos defensores de direitos humanos, que relatam ameaças físicas e verbais por parte de agentes do Estado.

A greve iniciada no último 28 de abril, ainda que sob forte ataque, já conquista vitórias. O ministro da Fazenda colombiano, Alberto Carrasquilla, renunciou na segunda-feira (3), depois que Duque desistiu de seu projeto de reforma tributária e pediu ao Congresso que retirasse a proposta.

A derrubada da reforma tributária – que pretendia aumentar em 19% impostos sobre serviços públicos, como gás e energia – é uma das pautas da jornada de protestos. A lista de reivindicações ainda inclui a retirada do “pacotaço” – que prevê mudanças e reformas nas leis do trabalho, na área da saúde e da previdência social –, o fim da violência policial contra líderes sociais e defensores de direitos humanos, além de uma série de exigências em diversas áreas sociais.

Conflitos recentes

Desde 2019, a Colômbia é cenário de manifestações contra abusos policiais. A cidadania exige o fim do Esquadrão Móvil Antidistúrbios (Esmad), criado em 1999, durante a gestão do ex-presidente Andrés Pastrana. De acordo com a ONG Liga contra o Silêncio, em 20 anos de existência do Esmad, 43 pessoas foram assassinadas de forma sumária. 

Enquanto na cidade a Polícia Nacional atua na repressão, no campo a tarefa fica à cargo do Exército Nacional e de grupos paramilitares. 

Para Clemencia Carabalí Rodallega, vencedora do Prêmio Nacional de Defesa de Direitos Humanos na Colômbia de 2019, os eventos violentos seguem acontecendo pela impunidade dos agentes de segurança do Estado e grupos irregulares que atuam nos territórios.

"Justamente esta violência se agudiza no país porque o sistema de Justiça não funciona. Realmente não existem investigações sérias que levem à captura tanto dos autores materiais como intelectuais, que seguem promovendo a violência apesar dos Acordos de Paz de 2016", assegura.

Organizações sociais denunciam que a impunidade se expressa em novas ameaças. Jovens e estudantes receberam mensagens do grupo paramilitar Águilas Negras [Águias Negras] prometendo a "morte da esquerda".

Os paramilitares também são acusados pelos movimentos populares como responsáveis por crimes que vitimaram 267 líderes sociais e ex-combatentes em 2020, segundo levantamento do Indepaz. Outro informe sinaliza que entre novembro de 2016 e o 14 de julho, 2020, 973 líderes sociais, defensores de direitos humanos e ex-combatentes foram assassinados. 

Já o governo de Iván Duque sinaliza o narcotráfico como principal gerador de violência no país. 

O senador Carlos Lozada, do partido Farc, afirma que tanto paramilitares, como narcotraficantes estão relacionados aos crimes cometidos contra jovens nas zonas rurais e urbanas colombianas, no entanto, o Estado utiliza a narrativa como argumento negacionista.

"Sem dúvidas há uma intenção de ocultar sua responsabilidade, determinada pela Constituição, de que o Estado deve garantir a vida de todos colombianos. Nessa afirmação, o que existe é uma tentativa de reduzir a complexidade desse fenômeno",  opina o parlamentar. 

Duque chegou ao poder através de uma forte campanha contra as guerrilhas colombianas e os Acordos de Havana. Durante seu governo, estima-se que foram mortos 52% dos 349 ex-combatentes assassinados nos últimos quatro anos. 

"Eles tentam utilizar o argumento do narcotráfico como justificativa para esse banho de sangue, quando realmente eles estão vinculados ao narcotráfico. É o que evidencia o financiamento da campanha de Iván Duque, que recebeu dinheiro a máfia, e esse é o Centro Democrático, isso é o que se conheceu também com Alvaro Uribe e outros personagens que se vinculam a esse partido", aponta o senador Lozada.

O processo de paz entre o governo nacional e o Exército da Liberação Nacional (ELN), que entrou na fase pública em março de 2016, também sofreu muito com a entrada do governo de Duque. O presidente nunca delegou pessoas para assistir os diálogos na Havana e finalmente suspendeu o processo depois de um atentado em Bogotá, em janeiro do 2019.

Violência de Estado 

A Colômbia vive um conflito armado há mais de 60 anos, que tem como centro a disputa pela terra, como base para viver, produzir alimentos e gerar riquezas.

Por um lado, as guerrilhas lutam pelo direito à terra aos camponeses e à classe trabalhadora; por outro o narcotráfico precisa do terreno fértil para manter a produção de ilícitos – a Colômbia é o maior produtor de cocaína do mundo, segundo a ONU; enquanto os grupos armados irregulares fazem sua riqueza com todo tipo de atividade ilegal, incluindo o contrabando de cultivos.

Os Acordos de Paz firmados pelo governo nacional sob o comando de Juan Manuel Santos e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (Farc-EP) no ano 2016, abordavam uma série de temas, entre eles o uso da terra e a necessidade de uma Reforma Agrária que pudesse equiparar a distribuição do território entre os distintos setores sociais.

A Unidade de Planificação Rural Agropecuária da Colômbia, organismo vinculado às Nações Unidas, sinaliza que 82% das terras produtivas do país estão nas mãos de 10% da população.


Conflito na Colômbia têm origem na luta pela reforma agrária que opõe trabalhadores rurais e proprietários de terras desde os anos de 1920 / Luis Robayo/AFP

O partido governante, Centro Democrático é composto por representantes da oligarquia agrícola e extrativista colombiana. Criado pelo ex-presidente Álvaro Uribe Vélez, o partido também sempre deixou claro sua proximidade com setores do paramilitarismo e seu rechaço absoluto às mesas de diálogo.

E esse grupo se mantém no comando da Casa Nariño durante boa parte das duas últimas décadas, com exceção dos dois mandatos de Juan Manuel Santos (2010 - 2018) que tinha uma perspectiva aberta aos processos de paz com objetivo de pacificar os territórios para que Colômbia pudesse ser um lugar seguro pela investimento estrangeiro. 

Em 2018, a vitória de Duque contra Gustavo Petro concretou a volta do uribismo à Casa Nariño. Justamente por representar agentes econômicos que se beneficiam com a concentração de terras, o partido FARC explica que a violência se tornou uma ferramenta de poder. 

"O terrorismo de Estado é um meio adotado na Colômbia, para que possam impor através do terror os interesses das companhias transnacionais de atividades extrativistas intensivas das nossas riquezas.Também é uma forma e manter esse modelo político", afirma Carlos Lozada. 

"Com um Estado centralizado decidiu garantir a manutenção das máfias nas regiões que não somente têm o controle territorial, como também lucram com atividades ilegais e para isso requerem a existência de grupos paramilitares. O objetivo é claro: impedir que as forças que estão lutando pela paz consigam consolidar-se, porque eles necessitam da guerra, do terror e do medo para dar continuidade ao seu regime político", completa o senador.

Depois dos dias de repressão violenta em Bogotá e outras cidades do país na semana passada, as principais forças políticas, sociais da esquerda na Colômbia emitiram uma declaração “Pelo direito à vida e contra a impunidade: resistência popular e mobilização social.” 

Eles declaram que os massacres e assassinatos nos últimos meses acontecem “num processo de alta militarização dos territórios e da vida que se acentua com a pandemia e se constituiu através de um governo autoritário, fascista, genocida, repressivo e criminoso".

Afirmam que estão “ante um genocídio contra o movimento social como expressão do terrorismo de Estado, o qual se expressa com o aumento dos assassinatos, o deslocamento forçado, as judicializações, o paramilitarismo, a militarização, o narcotráfico, e outras formas que aumentam a guerra e perseguição, sob o olhar cúmplice do governo e autoridades".


A Colômbia é o país com mais bases militares dos Estados Unidos, que anualmente recebem novas tropas do Pentágono / BdF

Relação com os EUA 

Esse mecanismo de usar a violência como ferramenta coercitiva há anos recebe apoio direto dos Estados Unidos. Em setembro do ano passado, a Força Aérea Colombiana (FAC) iniciou exercícios militares conjuntos com os estadunidenses. A operação "Poseidon" teve duração de quatro dias e supostamente buscou afinar a defesa dos dois países contra o narcotráfico. 

Em 2009, Uribe assinou um acordo com o então chefe da Casa Branca, Barack Obama para instalar sete bases militares no território colombiano. 

“Com a cooperação estadunidense sempre tivemos as duas caras. Uma parte que se apoia em temas como a militarização, que no caso das nossas comunidades, nós mulheres estamos em risco. Por outro lado, está todo o sistema de ajuda humanitária, assim como o fortalecimento de dinâmicas organizativas que eles utilizam com essas duas caracas, como com o programa Colombia Crece”, assegura a defensora de direitos humanos Carabali. 

Tanto para Lozada como para Carabali, a solução para a insegurança generalizada está na pressão popular, que deve exigir o respeito aos Acordos de Paz, assim como o direito à vida e à livre organização.

“Enquanto não se faça justiça, não só o perdão com aqueles de colarinho branco, mas que se faça justiça com todos, incluindo os de colarinho branco, não vamos passar essa página, em que o capitalismo e os mais poderosos deste país seguem exercendo esse controle sobre a população, sobre os recursos, impondo seus interesses a qualquer custo”, declarou Clemencia Carabali.

Além de justiça, o partido FARC também exige uma mudança substancial no país para poder iniciar tempos de paz.

“A paz chegará quando superemos as condições estruturais que deram início ao conflito. Por isso a reforma rural integral, que acabe com o latifúndio; reforma política, que desmonte os caciques políticos nas regiões; a substituição voluntária de cultivos, que vincule esses territórios, historicamente esquecidos pela economia legal. Também precisamos desmontar o paramilitarismo. O Estado deve estar presente nos territórios não somente através da Força Pública. Esse é o caminho que nos levará a uma paz completa e integral e deve abrir a possibilidade de resolver os conflitos ainda vigentes, pela via do diálogo”, finaliza Lozada.

*Trecho da reportagem sobre histórico do conflito foi publicado originalmente em setembro de 2020 no Brasil de Fato. 

Edição: Vivian Fernandes


sexta-feira, 17 de abril de 2020

Sob governo Bolsonaro, conflitos no campo aumentam e assassinatos de indígenas batem recorde


I Jomalismo



Sob governo Bolsonaro, conflitos no campo aumentam e assassinatos de indígenas batem recorde


Resumo:
Dos quase 14 mil conflitos registrados no país desde 2010 pela Comissão Pastoral da Terra, 2019 bateu o recorde negativo: um conflito a cada cinco dias

Por Bruno Fonseca, Thiago Domenici
Aumentaram os conflitos no campo durante o primeiro ano do Governo Bolsonaro: para cada quatro conflitos registrados em 2018, houve cinco em 2019. E esses conflitos têm local preferencial: a Amazônia brasileira, alvo de garimpos e expansão agropecuária, áreas que contam com apoio do presidente Jair Bolsonaro. É na Amazônia legal, região que engloba nove estados, que estão mais da metade dos conflitos registrados em 2019.
Os dados antecipados à Agência Pública são resultado do levantamento anual realizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT): “Conflitos no Campo Brasil 2019”, lançado nesta sexta-feira, 17 de abril, Dia Mundial de Luta Camponesa. A 34ª edição do relatório indica que a quantidade de conflitos rurais no primeiro ano do governo Bolsonaro é a maior dos últimos cinco anos.
“A política de desmonte do governo federal para o campo reflete o aumento dos conflitos. É o maior número [de conflitos] desde que publicamos o caderno. A região da Amazônia tem sido o foco durante muito tempo”, diz Jeane Bellini, coordenadora da CPT.
Em relação ao total de conflitos no campo no país, são quase 14 mil desde 2010, segundo levantamento exclusivo da Pública com base nos dados da própria CPT. Além disso, entre 1985 e 2018, 1938 pessoas foram executadas em conflitos por terra, água e trabalho no Brasil e 1789 desses casos (92%) continuam sem qualquer responsável julgado ou preso, diz a Comissão.
Já os números do relatório de 2019 revelam a dimensão das pessoas afetadas: foram mais de 100 mil famílias atingidas apenas nos estados da Amazônia Legal em 2019. Dessas, mais de 6 mil foram expulsas ou despejadas de suas terras.
É o caso de seu D. O., 58 anos, refugiado de Anapu, no Pará, que vivia na mesma gleba onde a missionária Dorothy Stang foi assassinada há 15 anos e que relatou à Pública por que os agricultores continuam a ser acossados por pistoleiros na região. “Alguns companheiros sentiram o choque da nossa saída. Mas, por outro lado, eles olharam e se conscientizaram que eu precisava sair. Ou eu saía ou eu morria. Eles iam me perder de qualquer maneira”, afirmou em agosto do ano passado.
A saída de seu D.O do território está relacionada com a morte de outra liderança, Marciano dos Santos, assassinado a tiros por pistoleiros da região — seu caso está registrado no atual relatório da CPT. Além deste, o caso da execução do sindicalista Carlos Cabral também integra o novo relatório.
A expulsão de famílias na Amazônia brasileira não acontece de forma pacífica: oito em cada dez assassinatos no país envolvendo conflitos de terra ocorreram nos estados da Amazônia Legal. É na região onde também ocorrem a maioria das tentativas de assassinato e as ameaças de morte. Uma das regiões onde os assassinatos são mais frequentes é Anapu, Pará, que desde 2015 registrou mais de uma dezena de mortes, duas delas ocorridas em dezembro: a do líder sem-terra Márcio Rodrigues dos Reis e do conselheiro tutelar Paulo Anacleto, também nos registros do atual relatório.
Além disso, a CPT indica quase 6 mil casos de pistolagem em situações de conflitos de terra na Amazônia e mais de 33 mil ocorrências de invasões em terras de famílias que vivem no campo — o número de ocorrências de pistolagem e invasões também aumentaram em relação a 2018, situação retratada por nossa reportagem, que detalhou um conflito no Pará que se arrasta há 13 anos e no ano passado viveu escalada de violência com famílias atacadas a tiros e suas casas, queimadas.
Além disso, a cada três dias uma mulher sofreu violência em conflitos no campo. Em 2019, o levantamento aponta três assassinatos de mulheres, três tentativas e 47 ameaças de morte. Situação vivida por Maria Márcia Elpídia de Melo, presidente da Associação dos Produtores e Produtoras Rurais Nova Vitória, uma das cinco associações de assentados do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Terra Nossa, assentamento de reforma agrária situado entre as áreas rurais de Novo Progresso e Altamira, no Pará.
Em entrevista aos repórteres da Pública, Márcia afirmou que vem sofrendo ameaças constantes por causa de denúncias que fez contra a exploração ilegal de recursos naturais (sobretudo madeira e ouro), venda de lotes e os assassinatos no interior do assentamento. “Eu sei que eu vou morrer. Eu me conformo com a minha morte. Eu só não quero que matem meu filho”, disse emocionada em setembro de 2019.
“Ao longo dos anos nós vimos que quando o estado se faz presente garantido a integridade física das pessoas, o poder privado recua. E na hora que o Estado se afasta, o poder privado avança e expulsa. E o discurso de Bolsonaro dá coragem para quem estava com vontade de adquirir mais terra ilegalmente seguir em frente”, diz a coordenadora da CPT.

Assassinato de indígenas bate recorde sob Governo Bolsonaro

O primeiro ano do Governo Bolsonaro também registra o maior número de lideranças indígenas assassinadas dos últimos 11 anos, situação já apontada em outro relatório, o do Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Segundo Roberto Antônio Liebgott, coordenador do CIMI, o garimpo é o carro-chefe dos problemas no agravamento da ofensiva sobre as terras indígenas, além de invasões, roubo de madeira e minérios, grilagem e até mesmo loteamentos.
A CPT aponta sete líderes indígenas assassinados no ano. Houve também dois indígenas não-líderes que foram mortos, o que elevou o número total de indígenas assassinados em conflitos no ano passado para nove.
“Temos visto ao longo dos anos que é quase um processo cíclico, como em 2019, os assassinatos foram seletivos. Por exemplo, entre 9 indígenas assassinados, sete eram lideranças. É uma estratégia de desmobilizar o grupo maior através do assassinato de lideranças”, avalia Jeane, da CPT.
Um dos casos é o de Emyra Waiãpi, da Terra Indígena Waiãpi, assassinada em julho de 2019, com 69 anos. Ela foi morta a facadas em meio a um contexto de invasão de garimpeiros. O corpo foi encontrado em um rio. Segundo a Comissão, há processos minerários na região para mineração de tântalo e ouro.
Além dos assassinatos, os indígenas ainda sofreram nove tentativas de homicídio e 39 ameaças de morte, além de dezenas de agressões e intimidações. Famílias de indígenas são uma a cada três famílias envolvidas em conflitos por terra no ano passado. Foram quase 50 mil em todo o país. Além disso, houve 930 despejos de famílias indígenas e 320 expulsões por proprietários de terras e grileiros.
Segundo o CIMI, também os indígenas Guajajara, no Maranhão, vivem uma escalada de violência com ameaças e mortes — mais de 40 indígenas Guajajara foram assassinados em decorrência de conflitos com madeireiros entre 2000 e 2019, alguns dos casos investigados no especial Amazônia sem Lei, que contou a história da morte de Paulo Paulino Guajajara, 26 anos, assassinado com um tiro no rosto durante emboscada no interior da terra indígena Arariboia. No ataque, Laércio Souza Silva Guajajara também foi baleado no braço e nas costas mas sobreviveu para contar o que viu.
“O discurso e ação do presidente Bolsonaro nos leva a acreditar que a tendência é piorar. E, além disso, nós temos ouvido de nossas equipes, principalmente na Amazônia — mas em outras regiões do Brasil também —, que enquanto os órgãos públicos estão trabalhando numa intensidade menor, por causa da pandemia de coronavírus, os grileiros, madeireiros ilegais, garimpeiros, estão indo a todo vapor”, finaliza Jeane.
Conflitos por água são maior desde 2002
Em 2019, o Brasil também registrou outro recorde: o maior número de conflitos por água desde o primeiro levantamento da CPT, de 2002. Foram 489 conflitos, envolvendo mais de 69 mil famílias.
A maior parte desses conflitos envolveu empresas de mineração. A Comissão registrou mortes, relatos de ameaças e agressões envolvendo conflitos com mineradoras, além de registros de contaminação por mercúrio. A maior parte desses conflitos ocorreu em Minas Gerais.

Dentre a população mais afetada em disputas por água estão pescadores, ribeirinhos, pequenos proprietários e quilombolas.


A reportagem é parte do projeto da Agência Pública chamado Amazônia sem Lei, que investiga violência relacionada à regularização fundiária, à demarcação de terras e à reforma agrária na Amazônia Legal. O especial também faz a cobertura dos conflitos no Cerrado, o segundo maior bioma brasileiro






sexta-feira, 10 de maio de 2019

O que fazer diante da barbárie?

cult
https://revistacult.uol.com.br/home/o-que-fazer-diante-da-barbarie/

O que fazer diante da barbárie?

Edição do mês 
O que fazer diante da barbárie?
88
(Divulgação)

O exército dispara contra um carro civil. O motorista e um dos passageiros do banco traseiro são atingidos. Outra passageira, do banco da frente, acalma os feridos: “Não são bandidos, é o exército. Está tudo bem. Logo o socorro chega.” Ela sai do carro, abre a porta traseira para uma amiga e o filho de sete anos.  Ao se afastarem, mais disparos de fuzil. Oitenta, no total.  O motorista, o músico Evaldo Rosa dos Santos, de 51 anos, morre. Enquanto Luciana Nogueira, sua esposa, grita por socorro, os homens fardados riem. Outro homem que passa pelo local ajuda a família e também é baleado. Luciano Macedo, catador de lixo, vai para o hospital em estado grave e morre onze dias depois.
O mesmo exército que disparou os fuzis julgará o caso. Conforme a lei 13.491/2017, decretada por Michel Temer, o julgamento de militares que cometem crimes contra civis passou a ser atribuição da Justiça Militar; uma violação de direitos humanos, de acordos internacionais e de qualquer propósito de justiça.
Mencionar que era domingo de tarde e que a família negra passava por Guadalupe, na zona norte do Rio, rumo a um chá de bebê, soa desnecessário. Tanto quanto reafirmar que Evaldo era trabalhador, não criminoso. Se fosse noite ou se o carro levasse mulheres ou homens infratores, os disparos estariam justificados? Naturalizamos de vez a pena de morte no Brasil? E sem julgamento? A informação – que reproduzo aqui quase todos os meses – de que a cada 23 minutos um jovem negro é executado no Brasil parece banal. É o esperado. Possivelmente, o desejado.
Parte das pessoas que se diz defensora de direitos humanos manifestou alguma indignação no Facebook. Textão. Filtro da foto de perfil simulando buracos de bala. Gente branca afirmando, em hashtags, que #VidasNegrasImportam. Mas aí, entidades do movimento negro convocaram atos em todo o país para o domingo seguinte, em São Paulo, sob a palavra de ordem “80 tiros em uma família negra, 80 tiros em nós”. E quem vai para a rua? Na tarde de 14 de abril de 2019 estive na avenida Paulista com militantes do movimento negro que suspiravam de cansaço ao se abraçar. Três dias antes, havíamos nos encontrado no Cemitério da Saudade, em Taboão da Serra, depois de enterrar Tula Pilar. A escritora, poeta, atriz, educadora conhecida no cenário cultural das periferias, frequentadora do Sarau do Binho e da Cooperifa, que por anos foi vendedora da revista Ocas, nos deixou depois de uma parada cardíaca, em meio a uma crise respiratória.
Tula Pilar havia passado algumas vezes no pronto-socorro naquela semana. Recebia uma inalação e era orientada a voltar para casa. Nenhum exame. Quase nenhuma atenção. Algum nível de negligência característico do racismo estrutural que tanto denunciamos. E aos 49 anos de idade, é mais uma mulher negra e periférica a morrer cerca de 30 anos antes da expectativa de vida da média da população.
Exatamente um ano antes, em 14 de abril de 2018, estivemos também na avenida Paulista cobrando justiça pelo assassinato de Marielle Franco. Fazia um mês da morte da vereadora eleita, mulher negra favelada. E até hoje não sabemos quem mandou o vizinho do presidente matar Marielle.
“Se alguém disser que quero dar carta branca para policial militar matar, eu respondo: quero sim! O policial que não atira em ninguém e atiram nele não é policial”, declarou Jair Bolsonaro, em dezembro de 2017, quando ainda era deputado federal (PSC-RJ) e pré-candidato à Presidência da República. Depois do assassinato de Evaldo, o presidente passou cinco dias sem comentar o ocorrido, quando afirmou que os 80 tiros foram um incidente.
Desde fevereiro de 2019, tramita na Câmara Federal o chamado pacote anticrime apresentado pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro (PL 882/19). O conjunto de propostas tem sido denunciado nacional e internacionalmente, por ignorar fatos, evidências científicas e elaborações da sociedade civil sobre a segurança pública e os direitos humanos. Para citar apenas duas violações de direitos propostas no pacote: (1) ao formalizar prisões em segunda instância, abre-se mão do direito à presunção da inocência, o que levará ao cárcere inúmeras pessoas que não tiveram sua sentença definida; (2) ao considerar legítima defesa que agentes policiais ou de segurança pública previnam agressões em conflitos armados, ou seja, possam atirar primeiro, consolida-se uma licença para matar. Pena de morte, sem julgamento, legalizada.
Trinta e nove entidades do movimento negro protocolaram uma denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) sobre os riscos que o dito pacote oferece “à democracia, à ordem constitucional e aos direitos consagrados pela Convenção Americana de Direitos Humanos, notadamente das pessoas negras, pobres e moradoras das favelas e periferias do Brasil”. Esta ação inaugurou a articulação de uma coalizão de entidades do movimento negro para participação em fóruns internacionais e incidência no Congresso Nacional.
A CIDH acatou a denúncia e convocou uma comitiva para participar de audiência oficial, em 9 de maio, na Jamaica, durante o 172º Período Extraordinário de Sessões. Representarão o Brasil nesta audiência Douglas Belchior, da Uneafro, Ieda Leal, do Movimento Negro Unificado, Sandra Silva, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, Winnie Bueno, iyalorixá, Rute Fiúza, das Mães de Maio da Bahia, Pedro Borges, do Alma Preta,  Maria Sylvia, de Geledés – Instituto da Mulher Negra, Lia Manso, da Criola, Gizele Martins, do Movimento de Favelas, Nilma Bentes, da Marcha das Mulheres Negras e Anielle Franco, do Instituto Marielle Franco.
Entidades que estão articulando esta coalizão estiveram em Brasília no mês de março para se reunir com parlamentares negros buscando desenhar estratégias comuns na luta antirracista; para sentar com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e assegurar o compromisso de não revogação da bem-sucedida política de cotas raciais; e para garantir a participação de negras e negros nas discussões do pacote anticrime. Afinal, somos 52% da população brasileira, os mais vulneráveis às violações de direitos humanos no Brasil e os principais alvos do chamado pacote anticrime. Mas também somos juristas, especialistas, pesquisadoras, doutoras, militantes: temos preparo técnico e voz pública para travar os debates democráticos necessários.
Rodrigo Maia determinou a criação de um grupo de trabalho para analisar o pacote – estão previstas dez audiências públicas para debater os principais temas. A coalizão de entidades do movimento negro, com apoio dos parlamentares Orlando Silva (PCdoB-SP), Paulo Teixeira (PT-SP) e Marcelo Freixo (Psol-RJ), garantiu a participação de, ao menos, um representante da luta antirracista em cada uma das audiências. A primeira aconteceu em 17 de abril sob o tema “Mudanças na parte geral do Código Penal”, e Livia Casseres, defensora pública negra do estado do Rio de Janeiro foi nossa representante. “Quem diz o que é segurança pública são as Mães de Maio e de Manguinhos. Sem essa garantia, nós não vamos avançar em termos de combate à violência, combate ao crime organizado e combate à corrupção”, afirmou.
Ainda em maio estaremos no Senado. Em dezembro, em um encontro mundial de organizações negras africanas e da diáspora, construído com o intuito de refletir sobre ações comuns no enfrentamento ao genocídio nas Américas e na África, em aliança com as duas principais redes de luta antirracista do planeta, Black Lives Matter e Africans Rising.
Não há pena de morte legal no Brasil, nem haverá, senhor Sérgio Moro. Não aceitamos o assassinato de nossas mulheres nem de nossos jovens, seja por negligência hospitalar, seja por bala a cada 23 minutos. Não há justificativa ou incidente quando o exército dispara 80 tiros contra um carro civil. Vamos descobrir e condenar quem mandou matar Marielle Franco. Estamos unidas, em coalizão, e cada vez mais fortes.

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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Ativista de causas ambientais é brutalmente torturada e assassinada em Nova Viçosa (BA)

https://jornalistaslivres.org/ativista-ambiental-assassinada-na-bahia/

12 fevereiro, 2019

Ativista de causas ambientais é brutalmente torturada e assassinada em Nova Viçosa (BA)


Rosane Santiago Silveira é mais uma vítima do fascismo apadrinhado por Bolsonaro, para o qual é preciso acabar com o “ativismo ambiental xiita”


Phillipe Pessoa, especial para os Jornalistas Livres


Rosane Santiago Silveira: PRESENTE!
Rosane Santiago Silveira, 59, lutadora de causas ambientais, culturais e de direitos humanos foi brutalmente torturada e assassinada no sul da Bahia, na cidade de Nova Viçosa no dia 29 de janeiro.
Ela foi encontrada morta dentro de sua casa, com pés e mãos atados e feridos, pano em volta do pescoço (indicando estrangulamento), duas perfurações por arma branca (possivelmente faca) e uma perfuração por arma de fogo na cabeça (possivelmente por trás). O caso foi inicialmente tratado como suposto latrocínio, embora objetos de valor, entre eles o notebook da vítima, não tenham sido levados, e dos claros indícios de tortura. O delegado Marco Antônio Neves, que chefia as investigações, alterou a hipótese para feminicídio, tortura e extermínio. A bancada do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) baiano está em contato com os responsáveis por desvendar o caso e trazer os autores do crime à justiça.
Rosane, conhecida carinhosamente por Rô Conceição, vivia há 18 anos em Nova Viçosa, onde vinha lutando para criar uma associação de proteção da ilha de Barra Velha (área de reserva ambiental extrativista) e denunciando exploração predatória nos conselhos locais e regionais. Integrava o Conselho da Reserva Extrativista de Cassurubá.
Rô nasceu em Vitória em 1960, tendo passado a maior parte da vida em Belo Horizonte, onde teve três filhos. Participou do movimento pela ocupação da moradia Borges da Costa, movimentos culturais, dos direitos humanos e sindicais. Foi criadora da cantina natural do Diretório Acadêmico do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde eram promovidos eventos artísticos, produção de alimentos conscientes e ponto de encontro de gerações de amigos e militantes. Foi sepultada no dia 31, no Bosque da Esperança em Belo Horizonte (MG).
O crime brutal reflete o início de um governo que vem extinguindodepartamentos ministeriais responsáveis por questões ambientais e sinalizando flexibilização e enfraquecimento da fiscalização e penalização de crimes ambientais. Somam-se a isso as declarações dantescas do presidente eleito, de que pretende acabar com o que chamou de “ativismo ambiental xiita” e acabar com a “indústria de demarcação de terras indígenas”.
Rô Conceição junta-se às dezenas de ativistas ambientais assassinatos a cada ano no Brasil. O País liderou, em 2016 e 2017, ranking de assassinatos de ativistas ambientais segundo a ONG britânica Global Witness, que relatou 57 execuções em 2017. Sua família, amigos e todos aqueles que lutam por justiça social, clamam por respostas

O Observatório da Educação Ambiental Brasileira Michèle Sato não foge à luta pela soberania brasileira!! Dizemos não ao imperialismo que per...