Lemes afirmou que a demanda havia surgido em uma reunião do então
secretário estadual do Meio Ambiente, Ricardo Salles, com “pessoas da
Fiesp”, a Federação das Indústrias de São Paulo. Segundo ela, a
justificativa foi que o zoneamento da região não estava adequado para
delimitar a extensão da Área de Proteção Ambiental.
O mapa em questão era o Plano de Manejo da Várzea do Rio Tietê, que
havia sido elaborado por pesquisadores da USP sete anos antes. Salles e a
Fiesp queriam rever o zoneamento de duas regiões específicas às margens
do rio – uma entre as cidades de São Paulo e Suzano e a outra entre
Barueri e Santana de Parnaíba, todas na grande São Paulo.
Em uma reunião no dia 11 de novembro de 2016, o secretário e os
representantes da Fiesp marcaram no mapa, com anotações e post-its, as
alterações que queriam fazer. O setor de geoprocessamento recebeu os
mapas com os desejos da indústria sinalizados.
As demandas incluíam a redução de uma zona de conservação
hidrodinâmica da planície fluvial, um tipo mais restritivo que serve
para preservar o curso do rio, com áreas para enchentes, por exemplo. A
região passaria a ser uma zona de reordenamento socioambiental e da
paisagem, mais permissiva, que permite construções. A intenção era
liberar atividade de mineração na região.
Desconfiado, Victor Costa pediu que a demanda fosse formalizada por
e-mail. Recebeu todo o histórico: as alterações propostas diretamente
pela Fiesp (mais especificamente, pela analista ambiental dos
industriais, Maria Cristina Gurgel) e o pedido para que elas fossem
feitas rapidamente. “Queria te pedir para tratar este tema como
prioridade. O Secretário já me cobrou várias vezes a versão final dos
documentos”, pediu a assessora de Salles, Roberta Buendia, à Fernanda
Lemes, que foi a responsável por encaminhar a demanda ao setor de
geoprocessamento.
Victor Costa respondeu por e-mail. Disse que atenderia a demanda, mas
questionou o processo. “Entendemos que os mapas se referem a uma
proposta de alteração do zoneamento já aprovado pelo referido Conselho”,
escreveu Costa em um e-mail com cópias para os superiores e a Fiesp.
“Temos a seguinte dúvida: os mapas aqui requisitados seraão objeto de
uma nova deliberação do Conselho Gestor da Unidade?”, questionou,
perguntando se as alterações seriam submetidas à avaliação do órgão
formado por pesquisadores, sociedade civil, população e setor privado.
Não seriam. Ricardo Salles, à pedido da Fiesp, quis encurtar o processo.
“Esse pedido veio para que eu alterasse os mapas sem mostrar.
Fraudar. Não colocar nome, data. Não mudar nada na legenda. Apenas mudar
as cores”, diz Victor. Depois de questionar a alteração, o funcionário
conta que começou a sofrer pressão e ameaças. O setor de
geoprocessamento fez as alterações possíveis e entregou o mapa dentro do
prazo – uma sexta-feira, 25 de novembro. Mas a equipe se negou a
trocar, por exemplo, o nome “Rio Tietê” para “canal de circunvalação”.
Também marcaram todas as alterações, explicitando que haviam sido feitas
a pedido da Fiesp, e incluíram os créditos de quem fez o mapa original e
quem o alterou.
Nos e-mails, o departamento de Victor é pressionado para fazer as alterações – sem os créditos.
A diretoria da secretaria não gostou. O Núcleo de Planos de Manejo
disse que a discussão sobre a legalidade caberia ao órgão e que não era
necessário “colocar a fonte” dos dados. Ou seja: a demanda era esconder
que o mapa havia sido alterado.
Indignado com a pressão e por ter sido envolvido na fraude, Victor
Costa pediu demissão duas semanas depois e denunciou o que viu ao
Ministério Público de São Paulo. “Era a única forma de impedir que o
novo mapa fosse aprovado”, diz. Foi acusado por Ricardo Salles de fazer
parte de ONGs e de ser “eco-xiita”. Um de seus ex-colegas foi perseguido
em reuniões e o outro, mudado de área sem aviso prévio depois que
voltou de férias.
O MP denunciou Salles, a Fiesp e outros responsáveis. O então
secretário justificou, em depoimento aos promotores, que havia “erros
crassos” no material e que as alterações foram discutidas em “várias
reuniões” na secretaria. Disse que, para “dar celeridade ao processo” e
“desburocratizar”, fazia as convocações para as reuniões por e-mail – e
não apresentou provas. E disse que, em divergências, “alguém tinha que
tomar a decisão. E assim foi feito”. As alterações, para ele, “foram
feitas para dar segurança jurídica” e não colocar empresas, pessoas e o
Estado “na ilegalidade”.
Não colou. Salles foi condenado por improbidade administrativa, com
multa de dez vezes o seu salário na época, e teve seus direitos
políticos suspensos por três anos.
A condenação saiu no dia 18 de dezembro de 2018. Duas semanas depois,
ele assumiu o cargo de ministro do Meio Ambiente na gestão de Jair
Bolsonaro.
Desburocratização, a alma do negócio
Para entender a ascensão na carreira do advogado Ricardo de Aquino
Salles ao mais alto escalão ambiental do país, é preciso olhar para sua
carreira prévia. Mais especificamente, para seu trânsito fácil entre o
setor privado e o governo, a começar pela gestão tucana de Geraldo
Alckmin, onde o fundador do movimento Endireita Brasil ocupou seu
primeiro cargo público.
Como político, Ricardo Salles foi um fiasco. Ele concorreu a deputado
federal pelo PFL em 2006, a deputado estadual em 2010 pelo DEM, a
vereador pelo PSDB em 2012 (renunciou à candidatura) e a deputado
federal em 2018 pelo Novo. Perdeu todas. O máximo que conseguiu foi a
posição de suplente em 2010 na Assembleia Legislativa de São Paulo. Como
advogado, defendeu construtoras e uma das herdeiras de Hebe Camargo.
Também foi diretor jurídico da Sociedade Rural Brasileira, associação
que representa os interesses do agronegócio.
Em 2013, abandonou a advocacia e começou a trabalhar como secretário
particular de Geraldo Alckmin, então governador de São Paulo. Nessa
época, recebia um salário de R$ 12 mil e quase foi preso por não pagar
pensão alimentícia de R$ 3 mil aos filhos. No processo, alegou que não
tinha “condições financeiras” para pagar os R$ 28 mil que devia à
ex-mulher pelos meses de pensão atrasada.
O período na iniciativa privada rendeu ótimos frutos a Ricardo Salles.
No começo do ano seguinte, no entanto, ele deixou o Palácio dos
Bandeirantes e voltou para o setor privado – para a Vila Olímpia, no
escritório da incorporadora Bueno Netto. Ele seria encarregado de cuidar
do imbróglio judicial que a construtora tinha com um empreendimento
chamado Parque Global, que seria um conjunto de dezenas de prédios na
marginal Pinheiros, no Morumbi.
O terreno, que antes pertencia à Light, companhia elétrica de São
Paulo, havia sido abandonado por contaminação por zinco e manganês. Foi
preparado, comprado, autorizado pela prefeitura em 2010 e lançado em
2013 – mas a obra acabou embargada no ano seguinte pelo Ministério
Público por problemas ambientais e urbanísticos. Segundo o MP, apenas
parte do empreendimento havia sido autorizada pela prefeitura. O órgão
também exigiu que a construtora retirasse a terra poluída do local – o
que, segundo a Bueno Netto,
inviabilizaria o empreendimento.
Defendida por Salles, a construtora fez uma
reclamação formal
contra o Ministério Público, alegando que já tinha cumprido os
pré-requisitos para a obra. A justiça acabou embargando definitivamente o
Parque Global, mesmo com a construtora
conversando diretamente com o governo de Geraldo Alckmin.
O prejuízo chegou a R$ 500 milhões, entre gastos com publicidade, obtenção de licenças e manutenção do espaço,
fora os R$ 800 milhões da compra do terreno e a obrigação de devolver o dinheiro de 300 clientes que compraram apartamentos na planta.
Dos processos milionários envolvendo antigas sociedades desfeitas para o empreendimento, a Bueno Netto
foi condenada
a pagar R$ 160 milhões aos antigos sócios, mas só pagou R$ 10 milhões –
foi o dinheiro encontrado na justiça no processo de falência. Ainda no
alvo do Ministério Público paulista, Ricardo Salles foi investigado por
atuar na Bueno Netto, segundo os procuradores, cometendo fraudes para
blindar o grupo que ele defendia. De acordo com o MP, mesmo atuando para
um grupo privado, ele se apresentava como sendo “ligado ao governo do
estado”.
O período na iniciativa privada rendeu ótimos frutos a Ricardo
Salles. O ex-devedor de pensão declarou, na eleição de 2018, um
patrimônio de R$ 8,8 milhões – um aumento de 4.000% desde sua primeira
tentativa de eleição, em 2006.
Ricardo Salles e Jair Bolsonaro: nomeação do ex-advogado acalmou os ânimos dos ruralistas e do setor industrial.
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress
Ideologia? Só os outros têm
Salles se tornou secretário estadual do Meio Ambiente pouco depois,
em julho de 2016, na gestão de Alckmin. Então membro do PP, ele era
próximo à ala do PSDB que apoiava a candidatura de João Doria à
prefeitura de São Paulo, mas sua presença era incômoda para parte do
PSDB. Quando Salles chegou ao governo como moeda de troca do PP pelo
apoio a Doria, o tucano Alberto Goldman
se disse “enojado”.
A adulteração nos mapas aconteceu três meses depois de sua posse como
secretário. E não foi sua única acusação. Foi investigado por abrir uma
chamada pública para vender 34 áreas do Instituto Florestal – sem
passar pelo rito legislativo. Depois, tentou negociar a sede do
Instituto Geológico para obter recursos para fusão com outros dois
institutos – sem que eles concordassem, ideia
interrompida pela Procuradoria Geral do Estado. Em 14 de junho de 2017, o Ministério Público Estadual acusou o
secretário de advocacia administrativa
– ou seja, de favorecer o interesse privado usando a administração
pública. Neste caso, os interesses da Bueno Netto, a incorporadora para a
qual ele havia trabalhado.
Pouco antes de deixar a secretaria, em um evento em Cajati, no Vale
do Ribeira, em São Paulo, Salles se indignou com um busto de Carlos
Lamarca, guerrilheiro de esquerda morto em 1971.
Pediu ao prefeito que funcionários retirassem o busto.
A estátua foi arrancada e levada por viatura da polícia ambiental até a
capital paulista, e o pedestal, demolido. A passagem dos guerrilheiros
da Vanguarda Popular Revolucionária, em 1969, era um atrativo histórico
na pequena cidade.
O Ministério Público de São Paulo acusou Salles de improbidade
administrativa ambiental por ordenar a remoção “à revelia do devido
processo legal administrativo e apenas imbuído de patente móvel
ideológico incompatível com o exercício da nobre função pública que
ocupava”. Como secretário do Meio Ambiente, Salles não tinha poder para
tomar a decisão, de acordo com o MP, mas achou importante remover
qualquer vestígio de esquerda por onde passou. Uma posição curiosa para
quem hoje diz rechaçar a “perseguição ideológica”.
No dia 28 de agosto de 2017, Salles pediu demissão.
Segundo o G1, a decisão partiu do PP,
descontente com o desempenho do secretário. Salles disse que saiu com a
“sensação de dever cumprido” e que voltaria para o setor privado.
Deixou o PP, foi para o Novo e, pouco mais de um ano depois, voltou para
o setor público no alto escalão de Jair Bolsonaro.
Folheto da campanha de Ricardo Salles para deputado federal.
A favor da ‘autodeclaração’ das empresas
Com a tragédia de Brumadinho, provocada pela mineradora Vale, o
ministério do Meio Ambiente assumiu uma inesperada posição central no
início do governo Bolsonaro. O presidente chegou a cogitar a fusão da
pasta com o ministério da Agricultura – o que, na prática, submeteria
órgãos como o Ibama aos interesses agropecuários –, mas voltou atrás
após uma dura reação da sociedade civil. Acabou nomeando, então, o
ex-colega do PP, Ricardo Salles, agora filiado ao Novo.
Com uma campanha eleitoral em que prometia “munição de fuzil” contra o
MST, chamou a atenção de Bolsonaro. “Vocês gostaram do ministro do Meio
Ambiente agora, né?”, disse Bolsonaro a ruralistas logo após a escolha,
em um vídeo gravado no Clube Militar de Brasília.
Assim como seu chefe e seus colegas, Salles chegou ao ministério motivado a extirpar a “ideologia” de esquerda. Disse que
“perseguição ideológica não é saudável para ninguém” e que sua gestão seria responsável por “harmonizar” os interesses. Seguindo a cartilha de seu chefe – que
queria no ministério alguém “sem caráter xiita”
e proteger o meio ambiente sem “criar dificuldades para o nosso
progresso” –, Salles disse que no Brasil há um “descontrole na aplicação
da lei e da fiscalização”.
Depois de Brumadinho, o ministro
classificou a atual lei ambiental
como “complexa e irracional”. “Recursos humanos que deveriam estar
focados nas questões de médio e alto risco estão sendo dispersos.
Precisamos de legislação que funcione, licenciamento que funcione”,
disse.
‘É uma legislação tão complexa e irracional que não funciona’, disse Salles.
A flexibilização e a simplificação das leis ambientais é uma
demanda de setores como a mineração e a agropecuária,
que fazem lobby para aprovar o licenciamento para o setor. A proposta
de Salles, defendida antes de Brumadinho, é que a liberação
possa ser feita com uma “autodeclaração”
– ou seja, o empreendedor diz que a obra está ok, e a fiscalização vem
depois. Na proposta de Salles, não fica claro, por exemplo, quem define o
grau de impacto ambiental de uma obra.
Se depender do histórico de defesa dos interesses corporativos e
“desburocratização” – uma palavra bonita que ele usou para justificar
não ter cumprido os ritos tradicionais dos processos ambientais em seu
período como secretário –, não é difícil deduzir a quem o seu
posicionamento vai beneficiar.
Enquanto Salles recorre da condenação, o Ministério Público paulista
entrou com uma apelação
pedindo que ele seja impedido de exercer o cargo de ministro. Segundo o
MP, a mudança nos mapas ordenada por Salles poderia provocar
“gravíssimas consequências”. Os condenados, segundo os promotores,
agiram “com a clara intenção de beneficiar setores econômicos,
notadamente a mineração”. Vale lembrar que a justiça paulista livrou o
ex-secretário – e também a Fiesp – de uma multa milionária pelos
possíveis danos ambientais decorrentes das alterações. Outro advogado
entrou com uma ação para tentar impedir que Salles assumisse, mas a
justiça paulista negou o pedido. “Gostando ou não da escolha, parece que
ainda foi feita dentro do espaço de discricionariedade política próprio
do cargo de Presidente da República”, disse o
juiz na decisão.
Em entrevista à Jovem Pan, o ministro atribuiu a
condenação à perseguição
“ideológica”, como de praxe. O ministro disse que “esse processo e a
decisão são muito mais um combate político-ideológico contra a postura
que eu adotei na secretaria do que qualquer ilegalidade formal”. E que
Bolsonaro reconhece isso.
Apesar das denúncias, Salles assumiu normalmente o ministério. Sua
agenda foi ocupada, principalmente, por encontros com ruralistas,
empresários, banqueiros e mineradoras – nenhuma reunião com
ambientalistas e pesquisadores da área aconteceu em seu primeiro mês no
ministério. Na quarta-feira, 23, se encontrou com representantes da
Frente Parlamentar de Agropecuária e, logo depois, com Luiz Eduardo
Fróes do Amaral Osório, diretor-executivo de Sustentabilidade e Relações
Institucionais da Vale. Dois dias depois, a lama desceu sobre
Brumadinho.