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terça-feira, 26 de maio de 2020

Milicianos invadem área ambiental e formam máfia da areia no Rio de Janeiro


AGÊNCIA PÚBLICA

Milicianos invadem área ambiental e formam máfia da areia no Rio de Janeiro

https://apublica.org/2020/05/milicianos-invadem-area-ambiental-e-formam-mafia-da-areia-no-rio-de-janeiro/

Fonte: Agência Pública

Resumo:

Moradores vivem sob regime de medo dentro de uma APA na Baixada Fluminense que tinha oito areais clandestinos funcionando; empresa flagrada tem 11 notificações de órgãos ambientais

Por Mariana Simões

Rio de Janeiro. Tucanos sobrevoam densas camadas de Mata Atlântica que cercam duas construções brancas, de um andar. Uma frase em azul-marinho escrita à mão sinaliza que ali funciona a Escola Municipal Sargento João Délio dos Santos. Os mais de 200 alunos do ensino médio e primário estudam dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) do Alto Iguaçu, um oásis verde de 22 mil hectares em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Foi ali que, em dezembro do ano passado, o Ministério Público Federal (MPF) flagrou um crime ambiental altamente lucrativo: o carregamento de areia da APA.

A empresa Areal da Divisa Ltda. aproveitou as férias escolares e passou a extrair areia por dragagem, uma técnica que utiliza bombas de sucção submersas. Como resultado, desmatou a área e criou uma cratera do tamanho de quatro campos de futebol, repleta de uma água de cor verde claro, a apenas 8 metros da escola – que agora corre o risco de desabar. “Passaram muitos caminhões de areia aqui. Eu não estranhei porque isso acontece o tempo todo. É só mais um areal. Isso já é comum para essa comunidade”, disse um morador que não quis se identificar por medo de sofrer represálias. Mais de 65 mil pessoas moram na APA.

A extração de areia acontece ao lado da Escola Municipal Sargento João Délio dos Santos

Há mais de uma década, o MPF investiga a atuação de areais ilegais na área da APA. Em 2012, os procuradores impetraram uma ação civil contra uma empresa Areal da Divisa e orgãos de fiscalização estadual e federal pela extração indevida de areia em um local arqueológico dentro da APA, pedindo multas no valor de R$ 250 mil. O processo menciona que as autuações ambientais datam de 2002. O caso ainda está em andamento na 2ª Vara Federal de Duque de Caxias, mas uma decisão limitar em 2013 ordenou à empresa “interromper a execução de atividades de extração mineral nas áreas objeto da presente demanda, bem como em qualquer outra área, contígua ou não, na região do Amapá-Piranema, abstendo-se de praticar qualquer novo ato de degradação ambiental nas áreas objeto desta ação ”. O descumprimento levaria a uma multa de R $ 50 mil. No mesmo ano, o decreto que criou a APA estabelece que a “extração mineral de qualquer natureza” é proibida na região.

  • Lagoa da Areal da Divisa
  • ao lado da escola

Milícias

Durante a apuração da reportagem, moradores da APA do Alto Iguaçu disseram que empresas irregulares ligadas à milícia fazem a extração ilegal graças a um regime de medo. “A gente tem todo tipo de ameaça aqui, inclusive algumas mais diretas onde dizem que a milícia vem matar todo mundo, não anda sozinho se não vão pegar vocês”, contou uma moradora à Agência Pública. A Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) recebeu denúncias de moradores que alegam ter sofrido ameaças verbais por se posicionarem contra a abertura de areais na região. Segundo um representante da comissão, os deputados continuam acompanhando os casos, mas não divulgam detalhes por segurança.

Apesar da ilegalidade, muitos moradores da APA acabam trabalhando na extração de areia por falta de oportunidades de emprego. “A gente mora em uma região onde todas as famílias têm um parente que trabalha no areal”, diz um morador. A areia dá lucro porque é um dos componentes principais da produção do cimento, abastecendo o mercado de construção civil. Por isso, a extração ilegal de areia é a terceira atividade criminosa mais lucrativa do mundo – atrás apenas de pirataria e do tráfico de drogas. No Brasil, a atividade pode chegar até R$ 8 bilhões por ano, de acordo com um estudo do pesquisador Luís Fernando Ramadon, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). “Você não precisa de muita coisa para você transformar a areia em faturamento. A areia está bem ali na beira do rio, você pega, puxa ali ninguém viu e vai embora”, diz Ramadon, ex-chefe do Núcleo de Operações da Delegacia de Combate a Crimes Ambientais e Patrimônio Histórico do Rio. O pesquisador afirma que o roubo de areia no Brasil dá mais lucro do que o tráfico de maconha, por exemplo. “O tráfico de drogas tem um custo muito alto, porque, além da briga por território, tem as propinas que são pagas para a droga poder passar. Já com a extração de areia você não precisa de nada disso. Se lucra muito e muito mais rápido”, explica Ramadon.

“Porque que a milícia vai lá [na APA] e faz a extração da areia? Porque está dando dinheiro a extração da areia ali”, diz Ramadon. Ele acrescenta que a área de preservação ambiental é uma “presa fácil” para o roubo de areia. “Quantos funcionários trabalham em um local desse? São poucos. Um, dois, três, e às vezes não dão conta [de fiscalizar]. E existe também o medo. Se você pega e denuncia uma extração ilegal, tem gente que morre por causa disso.”

“Quando eu andava com as crianças aqui antes, era só mata, mas quando as aulas voltaram eu notei que já estava imenso o areal. Já tinha uma megaestrutura com maquinário pesado [para extrair a areia]. Eu levei um susto”, conta um morador da região, também sob anonimato. Depois da extração, o susto foi ainda maior com o aparecimento da cratera cheia de água de coloração azul. “Pensávamos que podia ter risco de a escola desabar por conta da lagoa que surgiu aqui do lado.”

No dia 4 de abril de 2019, a prefeitura de Duque de Caxias fez uma vistoria no local para verificar se a cratera ameaçava o dia a dia dos alunos. O laudo da visita, assinado por uma engenheira civil da Subsecretaria de Saúde e Defesa Civil de Caxias, diz que foi constatado “a cerca de 8 metros de distância dos fundos da escola, uma obra já paralisada de escavações de um areal, sem causar danos a estrutura da escola”. O documento ainda frisa que, “considerando as alterações descritas acima, não existe o risco iminente de colapso da estrutura”. A cratera permanece até hoje e os alunos seguem na escola à beira da “lagoa”, formada por água do lençol freático.

“Quando você faz aquela buraqueira lá, você está sujeitando a água à poluição e facilitando mais intensamente a evaporação. Em alguns lugares você tem perda dos níveis de água etc. Então esse é um problema que não tem solução”, diz o geólogo Décio Tubbs, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Especialistas alertam que a composição química das lagoas não é própria para contato humano. “Não é para consumo e muito menos para banho. A água tem um pH muito baixo e você começa a ter reações na pele, como coceiras”, diz o geólogo Eduardo Marques, coordenador nacional de geoquímica no Serviço Geológico do Brasil (CPRM). Mesmo assim, quem mora no entorno acaba usando as cavas como fonte de diversão. “As crianças falam com a gente que foram para a lagoa azul. Até os pais contam que vão nadar lá e que está sempre lotado. Falam que tem gente que vem de jet ski. Vão para se refrescar na água”, conta outro morador.

A reportagem da Pública foi abordada quando tirava fotos do areal e da lagoa. Um carro parou um pouco à frente, baixou o vidro e questionou uma moradora sobre por que estávamos tirando fotos do local. O motorista se identificou como “dono” de um areal da região.

“Pensávamos que podia ter risco de a escola desabar por conta da lagoa que surgiu aqui do lado”, relata o morador da região

A Areal da Divisa

Cansado de ver a inação dos órgãos fiscalizadores, o procurador Júlio Araújo acionou a PF e o Inea para realizar uma operação policial conjunta que tivesse como objetivo estancar a extração ilegal de areia na APA do Alto Iguaçu.

A operação liderada pelo MPF foi feita no dia 9 de dezembro de 2019 e levou à destruição de oito silos, uma espécie de funil utilizado para separar a areia da água no processo minerário. Os oito areais que funcionavam dentro da APA foram alvos da operação – entre eles, a cratera aberta que deixou a escola municipal à beira de um precipício. A reportagem da Pública apurou no site da Agência Nacional de Mineração que a empresa Areal da Divisa havia pedido em 2003 uma licença para realizar mineração exatamente naquele local, mas a licença nunca foi concedida. Dentre os 8 silos destruídos pela operação, um pertencia à Areal da Divisa.

“Existe uma omissão na fiscalização ali na região”, diz o procurador Julio Araujo, do MPF em São João de Meriti. “É uma atividade que prosperou. Virou um negócio muito lucrativo e vem sendo operado por grupos criminosos”.

Pública tentou entrar em contato com quatro telefones vinculados à Areal da Divisa, mas não conseguiu contato com nenhum responsável.


Para Júlio Araújo, a operação foi bem sucedida porque conseguiu destruir o equipamento usado pelos grupos criminosos. “A questão da destruição [do maquinário usado na extração] é superimportante porque ela inviabiliza a atividade”, diz o procurador. “Até hoje o que era feito era: a polícia ia lá com o fiscal do Instituto Estadual do Ambiente e prendia as pessoas que estavam fazendo a extração ilegal da areia. Aí isso gerava processos penais que acabavam esfriando porque geralmente essas pessoas eram apenas trabalhadores e efetivamente não dominavam o negócio. Então isso não era eficaz.”

Logo depois da operação foi concluída, o MPF enviou ofícios ao prefeito de Duque de Caxias e à Secretaria Municipal do Meio Ambiente cobrando uma resposta para prevenir a extração irregular de areia. O prefeito não respondeu, mas a secretaria afirmou, no início de janeiro, que dali por diante o procedimento seria relatar “o ocorrido ao Instituto Estadual do Ambiente, sendo o mesmo competente para as demais medidas cabíveis”. No dia 12 de fevereiro deste ano, o MPF fez uma reunião com o Inea questionando o representante da APA.

“O MPF vai continuar cobrando tanto o Inea quanto o próprio governo do estado”, diz Araujo.

Uma moradora, que conversou com a reportagem sob anonimato, disse que as os grupos criminosos começaram a retomar as suas atividades de extração ilegal de areia em fevereiro deste ano e atualmente estão para abrir um novo areal dentro da APA do Alto Iguaçu. “Esse novo areal é mais escondidinho, não é tão na cara como aquele que ficava do lado da escola”, conta. “Botaram uma caixa [de areia] nova e cavaram um buraco para ver se tem areia, e tem. Estão esperando só a poeira baixar. Mais cedo ou mais tarde vai voltar.”

Brechas no sistema e ‘modus operandi ilegal’

O pesquisador Luís Fernando Ramadon alerta que, como no caso da APA, é comum que órgãos fiscalizadores municipais permitam a extração de areia mesmo sem aprovação da ANM. “Tem aqueles que estão dentro do processo de legalização e atuam ilegalmente”, explica Ramadon. E dá um exemplo: “Se eu tenho um poligonal, ou seja, uma área minerária que eu pedi para a Agência Nacional de Mineração poder explorar, e eu não consegui o licenciamento dado pela ANM, eu não posso explorar. Se eu explorar, é um modus operandi ilegal”.

De fato. Em janeiro de 2003, a Areal da Divisa entrou com um pedido de autorização de pesquisa junto à Agência Nacional de Mineração. A área englobava 769 hectares, incluindo o terreno da escola municipal Sargento João Délio dos Santos.

Gilvoneick de Souza, presidente da ONG Defensoria Social Ambiental, que estudou o caso, diz que a empresa não conseguiu autorização para pesquisa. “As pessoas dão entrada no órgão e se aproveitam de um protocolo que, por exemplo, dá direito apenas a pesquisa e, em vez de pesquisar, passam a extrair e a vender aquele material, mas é só um primeiro passo, de um longo processo burocrático, para se obter uma concessão de lavra.”

Há mais de uma década ele denuncia areais clandestinos na Baixada Fluminense e chegou a participar, em 2016, da CPI dos Areais na Alerj. Segundo ele, é comum as milícias serem “beneficiadas pela ineficiência do sistema”. “Você tem empresas que entram no órgão para pedir essa concessão de extração que já foram flagradas usurpando esse material e mesmo assim a empresa continua indo para o órgão e pedindo novas solicitações. Ou seja, essa empresa deveria ter a sua autorização de extração cassada e ser incluída em um cadastro para que ela nunca mais opere nessa área. Mas não é isso que acontece”, diz.

Desde 2001, dezenas de vistorias foram feitas pelas autoridades competentes em areais comandados pela Areal da Divisa. Como resultado a empresa recebeu pelo menos 11 notificações por “condutas lesivas” ao meio ambiente apenas em áreas próximas à Escola Municipal Sargento João Délio dos Santos. As notificações foram emitidas pela ANM, pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Duque de Caxias e pelo Inea.

Um relatório de janeiro de 2002 informa que um areal da empresa na mesma região foi objeto de vistoria pelo deputado Carlos Minc em dezembro de 2001 e que “já foi solicitada a emissão de intimação para paralisar a extração […] por causar degradação ambiental já que a empresa não possui licença de operação”. Quatro anos depois, outro relatório de uma vistoria feita pela Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema), órgão de fiscalização ambiental depois absorvido pelo Inea, mostra que em março de 2006 a empresa continuava extraindo areia “de forma irregular”. Segundo o documento, o proprietário “iniciou a extração neste local alegando demora do órgão na emissão da Licença requerida”.

Destruição de sítio arqueológico

Antes de abrir a cratera atrás da escola em 2019, a Areal da Divisa já estava entre as sete empresas que viraram alvo do MPF, em 2012, pela destruição quase total dos sítios arqueológicos Terra Prometida e Aldeia das Escravas II, também dentro da APA do Alto Iguaçu. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) avaliou que o local continha vestígios da pré-história do Brasil, como cacos de cerâmica e artefatos de pedras de índios tupis-guaranis. Na ação civil o MPF acusa a ANM e o Inea de emitir autorizações irregulares e não fiscalizar as empresas. “Por tratar-se de uma área com alto potencial arqueológico, eventual licença para atividade de extração de areia em cava deveria ter sido precedida de pesquisas arqueológicas”, escreve o MPF.

Documentos do Inea obtidos pela Pública revelam que a Areal da Divisa obteve pelo menos 12 licenças para minerar areais nessa área com potencial arqueológico. O órgão que mais emitiu essas licenças foi a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Duque de Caxias.

A Areal da Divisa já estava entre as sete empresas que viraram alvo do MPF, em 2012, pela destruição quase total dos sítios arqueológicos Terra Prometida e Aldeia das Escravas II

Procurada pela reportagem, a prefeitura de Duque de Caxias disse que desconhece a ação civil pública movida pelo MPF. Segundo a administração, “a responsabilidade em fiscalizar qualquer empreendimento de exploração mineral é do Estado através do INEA”.

Por e-mail, o Inea diz que a APA do Alto Iguaçu foi criada em janeiro de 2013 e que “quando a unidade de conservação foi instituída, essa atividade já havia sido interrompida”. Sobre o sítio arqueológico, o Inea afirma que desde agosto de 2013 tem realizado vistorias e “não evidenciou atividade de extração mineral”.

Questionada sobre as licenças concedidas à Areal da Divisa, a ANM respondeu por e-mail: “As licenças emitidas para a empresa Areal da Divisa foram todas em acordo com a legislação vigente na época, tendo a última sido cancelada em 20/06/2008. Esclarecemos que a APA do Alto Iguaçu foi criada em 2013, posteriormente, portanto às licenças emitidas”. O órgão acrescenta que a “ANM vem tomando todas as medidas cabíveis no âmbito desta gerência no intuito de coibir a extração ilegal de recursos minerais na região”.

O mercado que facilita o crime

“Normalmente o miliciano ou o empreendedor criminoso extrai esse material e até estoca esse material, que é comprado pelas casas de materiais de construção da própria Baixada”, conta Gilvoneick de Souza, da ONG Defensoria Social Ambiental. Segundo ele, além de contar com pequenas casas de construção, os milicianos têm clientes de empresas maiores que utilizam a areia para erguer grandes obras. “O empresário acaba adquirindo esse material bem baratinho do miliciano. Então aquela empresa que ganhou uma licitação [para uma obra], em vez de adquirir de uma empresa legalizada, compra esse material que foi usurpado e dá um jeito de falsificar a documentação. Porque a empresa tem que dizer em documento de onde é extraído aquele material”, explica.

Luís Fernando Ramadon, que desde 2009 dá um curso sobre repressão a crimes ambientais e minerários na Academia Nacional de Polícia (ANP), explica como é feita a fraude. “Às vezes eles fazem a lavagem da areia através da nota fiscal de uma empresa que é legalizada”, diz. O que acontece geralmente, segundo o pesquisador, é que o minerador já possui uma empresa legal de mineração e passa a usar a nota fiscal dessa empresa em transações envolvendo a extração ilegal de areia. Usando a tal nota da empresa legalizada, “vende a areia ilegal que o comprador pensa que é legal”.

Mas na APA do Alto Iguaçu responsabilizar as empresas que compram o material ilegal tem sido mais difícil. Segundo o procurador Julio Araujo, que desde 2018 investiga impactos socioambientais na região pelo MPF em São João de Meriti, o mapeamento das empresas compradoras é uma linha de investigação que se provou ineficaz na APA. “Eu penso que em relação aos areais há um cenário de normalização”, diz o procurador. “Os órgãos municipais e federais se contentaram durante um bom tempo em enxugar gelo na situação fiscalizatória, o que indiretamente permitiu que a atividade continuasse e ao mesmo tempo não houvesse a responsabilidade das pessoas que comandam a atividade.”

Créditos de imagens

 Mariana Simões/Agência Pública
 Google Earth
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 Inea RJ
 Mariana Simões/Agência Pública
 Mariana Simões/Agência Pública

Reportagem originalmente publicada na Agência Pública

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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A AGENDA SECRETA DE RICARDO SALLES COM OS DESTRUIDORES DO PLANETA

https://theintercept.com/2019/09/28/a-agenda-secreta-de-ricardo-salles-com-os-destruidores-do-planeta/

A AGENDA SECRETA DE RICARDO SALLES COM OS DESTRUIDORES DO PLANETA

O ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles no programa Roda Viva, na sede da Tv Cultura, na noite de segunda-feira, 26 de agosto. Foto: Adriana Spaca/FramePhoto/Folhapress
Este texto foi publicado originalmente na newsletter do Intercept Brasil. Assine. É de graça, todos os sábados, na sua caixa de e-mails.
Ricardo “Yale” Salles não para.
Mesmo condenado por adulterar um mapa ambiental para a festa de mineradoras, Mr. Yale segue em seu cargo no Ministério do Meio Ambiente com uma agenda que, se for levada a sério, pode acabar com a necessidade da existência do próprio ministério (porque não teremos mais meio ambiente, de todo modo).
O funcionário público Salles – que deveria estar viajando o mundo para valorizar os ativos naturais do país – está, neste momento, cumprindo uma agenda secreta no exterior. No site do ministério, sua agenda está assim:
Então vamos a um exercício de transparência forçada, já que atuar nas sombras é uma prática do poder. A editora aqui do TIB Paula Bianchi conseguiu com o pessoal do Unearthed, a unidade de jornalismo investigativo do Greenpeace, a via nada sacra de Salles pelo exterior.
E por que o ministro esconde sua agenda da população? Porque, para um ministro do Meio Ambiente, ela mais parece o calendário de compromissos de um ruralista ou de um garimpeiro da Serra Pelada.
Alemanha, segunda-feira: ele vai se encontrar com a farmacêutica Bayer, condenada em maio desse ano a indenizar em 2 bilhões de dólares um casal dos EUA por causa do glifosato, uma das maiores bombas químicas legalizadas do mundo, proibida em muitos países, mas largamente utilizada no Brasil (leiam nossa reportagem sobre a cidade em que o agrotóxico glifosato contamina o leite materno e mata até quem ainda nem nasceu).
Talvez Mr. Yalle estará lá para cobrar que a Bayer respeite nosso meio ambiente e pare de pressionar o país para aprovação de venenos. Vindo do governo que já aprovou mais de 260 (!) produtos só esse ano, nem por milagre. O encontro tem cara de beija-mão.
Outros encontros na segunda-feira: mais uma empresa de agrotóxicos (a Basf), além da montadora Volkswagen. Será que Mr. Yale vai conversar sobre a fraude global que a Volks produziu ao mentir que seus carros eram verdes enquanto emitiam gases altamente tóxicos?
Salles viaja para a Inglaterra na quinta. Lá, sua agenda secreta marca compromissos com – essas aspas são da agenda que conseguimos – “investidores ingleses (mineração, farmacêutica, energia, petróleo e gás e setor financeiro)”. Quem são eles? Quais os objetivos desses encontros? Nada na agenda, ninguém sabe. O ministério de Salles opera como um aparato clandestino de lobby privado.
Antes de viajar para a Europa, Yale boy já havia se encontrado com negacionistas climáticos nos EUA. Seu histórico é um desastre. Em agosto, nossa editora senior Tatiana Dias expôs o método de trabalho da secretaria comandada por ele no governo de São Paulo. “A justiça reconheceu que a Fundação Florestal – então sob o comando de Salles – coagiu funcionários a cometerem ilegalidades, perseguindo os que não queriam se envolver na adulteração dos mapas ordenada pelo secretário.”
Mr. Yale anda mais discreto, mas não menos destrutivo. Seus encontros estão fora da agenda pública. Nós pagamos seu salário mas não podemos saber com quem conversa. O que ele anda aprontando em segredo? Vamos descobrir.
Dependemos do apoio de leitores como você para continuar fazendo jornalismo independente e investigativo. Junte-se a nós 

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

ELES SABIAM: a verdadeira conspiração por trás da questão climática

https://oquevocefariasesoubesse.blogspot.com/2019/07/eles-sabiam-verdadeira-conspiracao-por.html?showComment=1569460725732#c2834734600129696554


sexta-feira, 26 de julho de 2019

ELES SABIAM: a verdadeira conspiração por trás da questão climática

Cientistas são muitas vezes caricaturados como "malucos" ou
em alguns casos até mesmo como vilões enredados em cons-
pirações globais e para alguns o aquecimento global é uma
farsa montada numa delas (para quê nunca fica muito claro).
Neste artigo vamos mostrar que existe sim uma conspiração
relacionada ao clima, mas bem diferente do que essa narrativa
bizarra desenha.
A rede de computadores anda infestada pelas chamadas “teorias de conspiração”. Muitas delas são apenas histórias sem pé nem cabeça, algumas quase inofensivas, mas outras nem tanto, como é o caso das invencionices do chamado movimento antivacina. Outras são mentiras plantadas com interesses bastante específicos, como o caso de um certo presidente de topete estranho afirmando que “o aquecimento global é uma farsa inventada pelos chineses”.

O problema dessas “teorias” (usado de maneira imprópria, pois nada tem a ver com o uso da palavra nas ciências) é duplo: se as pessoas levam a sério as mentiras, podem ignorar evidências reais ou até militar por causas inexistentes; se dão de ombros para qualquer suposta conspiração, afinal a maior parte é pura invencionice mesmo, podem terminar não dando a devida atenção aos (raríssimos) casos em que uma conspiração (ou algo parecido) realmente exista.

Nestes tempos de vazamento de informações à la Wikileaks e Vaza-Jato, a divulgação de um certo material passou bastante despercebido, mas não deveria. Afinal, ele mostra, como veremos, que a indústria fóssil sabia há muitos anos do risco de caos climático e que o negacionismo climático jamais teve qualquer fundamento em debate científico real; pelo contrário, é uma cria de laboratório dessa mesma indústria, que montou uma enorme fraude - que persiste até hoje - apenas para defender seus interesses. Leiam. Até o fim.


A MUDANÇA DO CLIMA NO RADAR DA INDÚSTRIA FÓSSIL: O RELATÓRIO STANFORD

Capa do relatório “Fontes, Abundância e Destino
de Poluentes Atmosféricos Gasosos”, de 1968.
Fonte: https://www.smokeandfumes.org
A provável relação entre clima e concentração de CO2 é conhecida desde o século XIX e já na década de 1930 surgiram evidências observacionais de que a queima de combustíveis fósseis estaria contribuindo para aquecer o planeta.

Principais responsáveis pela extração, processamento e queima desses combustíveis, a mudança climática já estava no radar das grandes corporações petroquímicas há muito tempo, na verdade muito antes de a Organização das Nações Unidas convocar especialistas para comporem um painel sobre o tema (o IPCC, criado em 1988).

Com efeito, há mais de meio século, em 1968, o American Petroleum Institute (API) encomendou um relatório a ser preparado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Stanford. Ressalte-se que o API é a principal associação comercial da indústria do petróleo e gás dos EUA, reunindo 650 companhias, inclusive a Exxon, a Chevron e os braços estadunidenses da Shell e da BP. O objetivo do relatório era saber, de especialistas, quais os possíveis impactos da extração e queima de combustíveis fósseis sobre o clima, pois isso poderia vir a afetar em algum momento a lucratividade dessas empresas.

Quais as conclusões do relatório Stanford? O mesmo alertava que “a humanidade está realizando um vasto experimento geofísico” e que “mudanças significativas de temperatura quase certamente devem ocorrer em torno do ano 2000, trazendo consigo mudanças climáticas”.

O QUE A EXXON SABIA SOBRE O RISCO CLIMÁTICO AO FINAL DOS ANOS 1970

Slide apresentado por James Black à direção da Exxon, com
resultados de simulação climática, incluindo projeção para o
futuro. Fonte: https://insideclimatenews.org
A falta de qualquer desdobramento concreto a partir do Relatório Stanford já era um indício de que a indústria petroquímica não havia ficado feliz com as conclusões do mesmo e, nesse contexto, a Exxon resolveu ela mesma realizar estudos sobre as possíveis alterações do clima causadas pelas emissões de CO2 resultantes de sua atividade.

Nos anos 1970, ela montou um grupo de pesquisa, com um orçamento não desprezível, para por meio de gente "de dentro" responder à questão se queimar petróleo traria riscos para a estabilidade climática do planeta ou não. O grupo era liderado por James F. Black, pesquisador sênior do Departamento de Pesquisa e Engenharia da Exxon, ligado à companhia desde a sua antecessora (a Standard Oil), e que gozava da confiança dos seus chefes.

Mesmo com um modelo climático bem menos complexo do
que os disponíveis hoje em dia, as simulações apresentadas por
Black mostravam resfriamento da estratosfera e aquecimento
bem mais acentuado no Ártico do que no resto do planeta.
Já em 1978, James Black apresentou projeções de aquecimento global que são incrivelmente parecidas com aquelas produzidas pela comunidade de clima muitos anos depois. A hipótese é que, extrapolando o crescimento das emissões, poderíamos duplicar ou até quadruplicar a concentração de CO2 até 2075. A projeção climática correspondente apontava para um aquecimento em torno de 1-2°C após o ano 2000 (em 2016 chegamos a 1,2°C de anomalia de temperatura em relação ao período pré-industrial) e um valor mais provável em torno de 3°C em meados deste século.

O nível de sofisticação da simulação era atestado pela projeção de padrões que começam a ser observados e que passaram a constar das simulações realizadas pela comunidade científica de clima vários anos depois, incluindo: 1) Um aquecimento bem mais acelerado no Ártico do que em latitudes mais baixas; 2) O resfriamento da estratosfera, em contraste com o aquecimento da superfície e da troposfera, que consiste em uma das maiores evidências de que o aquecimento global está relacionado à redução da radiação infravermelho que escapa da troposfera em função do aumento da intensidade do efeito estufa e não a um aumento da atividade solar ou algo do gênero e 3) O reconhecimento de que os impactos sobre a temperatura global perdurariam por milênios mesmo que as emissões fossem interrompidas em algum momento permitindo que o planeta voltasse a resfriar.

Efeito de um "pulso" de emissão de CO2 na escala de
milhares de anos, na simulação de Black, que criou o
termo "super-interglacial".
Black também falava em uma janela “de cinco a dez anos” antes de tomar medidas drásticas para mudar o modelo energético. Em outras palavras, nos bastidores da Exxon, tanto o risco de um aquecimento global descontrolado quanto a necessidade de termos iniciado na década de 1980 uma transição energética que nos livrasse dos combustíveis fósseis, já eram conhecidas. 

Mas o que a Exxon fez a partir disso? O desenrolar dessa história não chega a ser de todo surpreendente, mas não é por isso que deixa de ser profundamente indignante.

A OPÇÃO CONSCIENTE DA EXXON PELO DESASTRE CLIMÁTICO

Trecho de documento da Exxon, disponibilizado por ClimateFiles.
Com uma dose extraordinária de maldade, o documento propõe,
como objetivo da campanha de comunicação, fazer com que os
defensores do Protocolo de Kyoto parecessem "fora da realidade"
Vindo de dentro, não tinha mais sentido questionar a informação. Era fato: o desastre climático viria mais cedo ou mais tarde, os combustíveis fósseis teriam de virar coisa do passado e - mais do que a fonte de lucro - a própria razão de existir da Exxon estava em xeque. A posição da companhia não poderia ser mais odiosa: a opção consciente pelos negócios, pelo lucro, um enorme f*da-se para a humanidade e para a própria vida no planeta como a conhecemos.

Em 1982, a Exxon encerrou o programa de pesquisas em clima. Tudo que havia sido produzido foi engavetado e a companhia passou a articular-se com grupos de direita e think tanks conservadores a fim de iniciar uma cruzada para esconder a verdade sobre o risco climático. Desde então, a Exxon financiou diversos grupos negacionistas, tendo transferido para eles mais de 30 milhões de dólares. 

Não foi algo feito de maneira aleatória. F oi caso pensado, com tática e estratégia. Os documentos internos da Exxon demonstram isso. Havia um "Plano de Comunicação da Ciência do Clima Global", cujo propósito era o de reformatar completamente o debate público sobre a questão climática que então se iniciava, após a criação da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (a UNFCCC) e a realização da Eco-92 e das primeiras Conferências das Partes (COPs), processo que viria a desaguar no (muito tímido) Protocolo de Kyoto.

Estratégias e táticas da coalizão liderada pela Exxon
em seus ataques à Ciência do Clima. Documento
disponibilizado via ClimateFiles.
Segundo a própria Exxon, esse plano só seria vitorioso quando o "cidadão médio" viesse a questionar o que eles chamavam de "conhecimento convencional", ou seja, a Ciência do Clima, para aderir à narrativa negacionista ou pelo menos viesse a ter dúvidas. Idem para o conjunto do empresariado e para a mídia, que deveria, segundo o plano da coalizão liderada pela Exxon, mostrar os "dois lados", isto é, abrir espaço tanto para a ciência quanto para a sua negação deliberada e arquitetada com fins mesquinhos e espúrios de preservar os lucros da indústria fóssil. O documento mostra toda a vilania e escrotidão da coalizão liderada pela Exxon, ao colocar como um dos seus objetivos fazer com que quem defendesse o Protocolo de Kyoto parecesse, perante o público, como "fora da realidade".

Embora não fossem exatamente novas, já que tudo fora inspirado na sabotagem anticiência feita anos antes pela indústria do tabaco, o nível de detalhamento das estratégias e táticas da "coalizão" não deixa margem para dúvidas de como a Exxon e seus comparsas conspiraram contra a comunidade científica, contra o interesse público, contra a humanidade e a biosfera, unicamente para defender seus lucros. Era necessário recrutar pessoas dentro da academia (em todo lugar sempre tem algum sujeito de caráter duvidoso disponível para vender a alma, não é?). Daí, seria necessário cavar espaço dentro da mídia, via editorias de ciência, cartas e editoriais escritos por esses "cientistas" recrutados, promover palestras de negacionismo junto a universidades, sindicatos, comunidades etc. Imaginem o que não constaria do plano se naquela época já existissem o YouTube, o WhatsApp, o Facebook, o Instagram etc...

Potenciais financiadores e implementadores do projeto da
"coalizão" anticiência.
Óbvio, toda essa campanha anticiência sórdida não sairia do lugar sem dinheiro! E no documento, que pode ser checado no site Climate Files, aparece o orçamento detalhado, totalizando dois milhões de dólares à época ou mais de três milhões, corrigindo para os dias de hoje. Isso bancaria não apenas ações na mídia e palestras, mas até como o negacionismo chegaria às escolas. Também é evidente que, em havendo esse orçamento, alguém teria de bancá-lo. Nenhuma surpresa sobre os financiadores: associações empresariais dos setores de mineração e petróleo, com destaque, mais uma vez, para o API. Quem "tocaria" o barco seriam consultorias e institutos ideologicamente ligados ao ultraconservadorismo como ALEC, Marshall Institute etc.

BREVES FRASES FINAIS SOBRE A IMPOSSÍVEL "CONSPIRAÇÃO DE CIENTISTAS"

As corporações capitalistas têm um interesse que, para elas, está acima de tudo: o próprio lucro. Às escondidas da opinião pública, à revelia do interesse da maioria das pessoas e por meio de suas associações e com recursos generosos, essas corporações têm todas as condições - e o motivo - para conspirarem na defesa desses interesses. E como mostramos, essa conspiração não apenas aconteceu como deixou-nos um legado maldito: o negacionismo climático, hoje multiplicado e difundido muito mais rapidamente através dos meios digitais.

Por outro lado, falar em "conspiração de cientistas" é um total contrassenso. Primeiro, porque a motivação do trabalho científico em geral não é o dinheiro. Em outras atividades, pessoas com a alta qualificação dos cientistas poderiam ganhar muito mais. Segundo, porque os cientistas são bem mais competitivos entre si do que corporativistas. A ideia de superar o trabalho do colega, ou até desbancar o entendimento científico vigente sobre determinado assunto é atraente. Traz prestígio, publicações em revistas conceituadas (como Science e Nature), citações. Mas terceiro e principalmente porque não é da natureza do fazer científico. Mesmo com as imperfeições e limites individuais e coletivos, a ciência se guia pelas evidências e os pontos de vista são moldados de tal modo que, mais cedo ou mais tarde, essas evidências prevalecem e, se for o caso, até mesmo uma revolução científica se impõe.

Não é que nós, cientistas, sejamos vestais, ou que entre nós reine uma pureza moral e ética que impeça desvios individuais e/ou temporários, alguns deles graves, incluindo fraudes científicas. Mas simplesmente que não faz sentido esperar que sejamos capazes de uma conspiração que efetivamente envolva milhares de cientistas e pesquisadores, estudantes e técnicos, todos imbuídos de um único propósito espúrio, que no fim das contas ninguém consegue dizer direito qual seria: vender bicicletas e paineis solares, atrapalhar a competitividade econômica dos países ricos, conter o desenvolvimento dos países pobres ou sabotar a economia como um todo? Desculpem, mas - diferente da indústria do tabaco e da indústria do petróleo - não temos "competência" para isso. Uma conspiração de cientistas daria errado. A não ser a conspiração de levantar evidências, se aproximar da verdade e melhor entender a realidade que nos cerca.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Em documento, Vale projetou mortes, custos e até causas possíveis de colapso


https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/02/em-documento-vale-projetou-mortes-custos-e-ate-causas-possiveis-de-colapso.shtml?fbclid=IwAR1_DCXO7h6PVTxFtZyO8RS7LyU2nWKrFN8KeI2htb-YiHLZgcclXCJ0FFQ

Em documento, Vale projetou mortes, custos e até causas possíveis de colapso

Empresa afirma que fazia manutenção de barragem e defende que estrutura não estava em risco


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Salas da Gerência de Tratamento de Minério e Movimentação de Produto, na sede da Mina do Córrego do Feijão, da Vale em Brumadinho (MG), que resistiu à passagem da lama - Isis Medeiros

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Como Ricardo Salles adulterou um mapa ambiental para beneficiar mineradoras

https://theintercept.com/2019/02/03/ricardo-salles-mineradoras/

O ministro do arremedo

Como Ricardo Salles adulterou um mapa ambiental para beneficiar mineradoras



3 de Fevereiro de 2019, 23h04
Era uma segunda-feira normal de trabalho na Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo quando Victor Costa recebeu uma demanda pouco usual. Fernanda Lemes, coordenadora do Núcleo do Plano de Manejo, pediu que ele “alterasse uns mapas”. Ele achou estranho. Não era dessa forma que esse tipo de pedido costumava vir.
Então coordenador do setor de Geoprocessamento e Cartografia da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e, portanto, responsável por elaborar mapas para qualquer tipo de empreendimento e licenciamento ambiental, ele perguntou o porquê da alteração. “Eu pedi para formalizar por e-mail”, lembra. Mapas de zoneamento levam meses para serem elaborados. São feitos por pesquisadores, discutidos em audiências públicas e aprovados pelo conselho ambiental. “Começaram a me pressionar, falando que era urgente, pedido do secretário.”
Lemes afirmou que a demanda havia surgido em uma reunião do então secretário estadual do Meio Ambiente, Ricardo Salles, com “pessoas da Fiesp”, a Federação das Indústrias de São Paulo. Segundo ela, a justificativa foi que o zoneamento da região não estava adequado para delimitar a extensão da Área de Proteção Ambiental.
O mapa em questão era o Plano de Manejo da Várzea do Rio Tietê, que havia sido elaborado por pesquisadores da USP sete anos antes. Salles e a Fiesp queriam rever o zoneamento de duas regiões específicas às margens do rio – uma entre as cidades de São Paulo e Suzano e a outra entre Barueri e Santana de Parnaíba, todas na grande São Paulo.
Em uma reunião no dia 11 de novembro de 2016, o secretário e os representantes da Fiesp marcaram no mapa, com anotações e post-its, as alterações que queriam fazer. O setor de geoprocessamento recebeu os mapas com os desejos da indústria sinalizados.
As demandas incluíam a redução de uma zona de conservação hidrodinâmica da planície fluvial, um tipo mais restritivo que serve para preservar o curso do rio, com áreas para enchentes, por exemplo. A região passaria a ser uma zona de reordenamento socioambiental e da paisagem, mais permissiva, que permite construções. A intenção era liberar atividade de mineração na região.
Desconfiado, Victor Costa pediu que a demanda fosse formalizada por e-mail. Recebeu todo o histórico: as alterações propostas diretamente pela Fiesp (mais especificamente, pela analista ambiental dos industriais, Maria Cristina Gurgel) e o pedido para que elas fossem feitas rapidamente. “Queria te pedir para tratar este tema como prioridade. O Secretário já me cobrou várias vezes a versão final dos documentos”, pediu a assessora de Salles, Roberta Buendia, à Fernanda Lemes, que foi a responsável por encaminhar a demanda ao setor de geoprocessamento.
Victor Costa respondeu por e-mail. Disse que atenderia a demanda, mas questionou o processo. “Entendemos que os mapas se referem a uma proposta de alteração do zoneamento já aprovado pelo referido Conselho”, escreveu Costa em um e-mail com cópias para os superiores e a Fiesp. “Temos a seguinte dúvida: os mapas aqui requisitados seraão objeto de uma nova deliberação do Conselho Gestor da Unidade?”, questionou, perguntando se as alterações seriam submetidas à avaliação do órgão formado por pesquisadores, sociedade civil, população e setor privado.
Não seriam. Ricardo Salles, à pedido da Fiesp, quis encurtar o processo.
“Esse pedido veio para que eu alterasse os mapas sem mostrar. Fraudar. Não colocar nome, data. Não mudar nada na legenda. Apenas mudar as cores”, diz Victor. Depois de questionar a alteração, o funcionário conta que começou a sofrer pressão e ameaças. O setor de geoprocessamento fez as alterações possíveis e entregou o mapa dentro do prazo – uma sexta-feira, 25 de novembro. Mas a equipe se negou a trocar, por exemplo, o nome “Rio Tietê” para “canal de circunvalação”. Também marcaram todas as alterações, explicitando que haviam sido feitas a pedido da Fiesp, e incluíram os créditos de quem fez o mapa original e quem o alterou.

Nos e-mails, o departamento de Victor é pressionado para fazer as alterações – sem os créditos.
A diretoria da secretaria não gostou. O Núcleo de Planos de Manejo disse que a discussão sobre a legalidade caberia ao órgão e que não era necessário “colocar a fonte” dos dados. Ou seja: a demanda era esconder que o mapa havia sido alterado.
Indignado com a pressão e por ter sido envolvido na fraude, Victor Costa pediu demissão duas semanas depois e denunciou o que viu ao Ministério Público de São Paulo. “Era a única forma de impedir que o novo mapa fosse aprovado”, diz. Foi acusado por Ricardo Salles de fazer parte de ONGs e de ser “eco-xiita”. Um de seus ex-colegas foi perseguido em reuniões e o outro, mudado de área sem aviso prévio depois que voltou de férias.
O MP denunciou Salles, a Fiesp e outros responsáveis. O então secretário justificou, em depoimento aos promotores, que havia “erros crassos” no material e que as alterações foram discutidas em “várias reuniões” na secretaria. Disse que, para “dar celeridade ao processo” e “desburocratizar”, fazia as convocações para as reuniões por e-mail – e não apresentou provas. E disse que, em divergências, “alguém tinha que tomar a decisão. E assim foi feito”. As alterações, para ele, “foram feitas para dar segurança jurídica” e não colocar empresas, pessoas e o Estado “na ilegalidade”.
Não colou. Salles foi condenado por improbidade administrativa, com multa de dez vezes o seu salário na época, e teve seus direitos políticos suspensos por três anos.
A condenação saiu no dia 18 de dezembro de 2018. Duas semanas depois, ele assumiu o cargo de ministro do Meio Ambiente na gestão de Jair Bolsonaro.
Victor Costa se negou a alterar os mapas sem deixar registradas as mudanças. A decisão desagradou seus superiores.

Desburocratização, a alma do negócio

Para entender a ascensão na carreira do advogado Ricardo de Aquino Salles ao mais alto escalão ambiental do país, é preciso olhar para sua carreira prévia. Mais especificamente, para seu trânsito fácil entre o setor privado e o governo, a começar pela gestão tucana de Geraldo Alckmin, onde o fundador do movimento Endireita Brasil ocupou seu primeiro cargo público.
Como político, Ricardo Salles foi um fiasco. Ele concorreu a deputado federal pelo PFL em 2006, a deputado estadual em 2010 pelo DEM, a vereador pelo PSDB em 2012 (renunciou à candidatura) e a deputado federal em 2018 pelo Novo. Perdeu todas. O máximo que conseguiu foi a posição de suplente em 2010 na Assembleia Legislativa de São Paulo. Como advogado, defendeu construtoras e uma das herdeiras de Hebe Camargo. Também foi diretor jurídico da Sociedade Rural Brasileira, associação que representa os interesses do agronegócio.
Em 2013, abandonou a advocacia e começou a trabalhar como secretário particular de Geraldo Alckmin, então governador de São Paulo. Nessa época, recebia um salário de R$ 12 mil e quase foi preso por não pagar pensão alimentícia de R$ 3 mil aos filhos. No processo, alegou que não tinha “condições financeiras” para pagar os R$ 28 mil que devia à ex-mulher pelos meses de pensão atrasada.
O período na iniciativa privada rendeu ótimos frutos a Ricardo Salles.
No começo do ano seguinte, no entanto, ele deixou o Palácio dos Bandeirantes e voltou para o setor privado – para a Vila Olímpia, no escritório da incorporadora Bueno Netto. Ele seria encarregado de cuidar do imbróglio judicial que a construtora tinha com um empreendimento chamado Parque Global, que seria um conjunto de dezenas de prédios na marginal Pinheiros, no Morumbi.
O terreno, que antes pertencia à Light, companhia elétrica de São Paulo, havia sido abandonado por contaminação por zinco e manganês. Foi preparado, comprado, autorizado pela prefeitura em 2010 e lançado em 2013 – mas a obra acabou embargada no ano seguinte pelo Ministério Público por problemas ambientais e urbanísticos. Segundo o MP, apenas parte do empreendimento havia sido autorizada pela prefeitura. O órgão também exigiu que a construtora retirasse a terra poluída do local – o que, segundo a Bueno Netto, inviabilizaria o empreendimento.
Defendida por Salles, a construtora fez uma reclamação formal contra o Ministério Público, alegando que já tinha cumprido os pré-requisitos para a obra. A justiça acabou embargando definitivamente o Parque Global, mesmo com a construtora conversando diretamente com o governo de Geraldo Alckmin.
O prejuízo chegou a R$ 500 milhões, entre gastos com publicidade, obtenção de licenças e manutenção do espaço, fora os R$ 800 milhões da compra do terreno e a obrigação de devolver o dinheiro de 300 clientes que compraram apartamentos na planta.
Dos processos milionários envolvendo antigas sociedades desfeitas para o empreendimento, a Bueno Netto foi condenada a pagar R$ 160 milhões aos antigos sócios, mas só pagou R$ 10 milhões – foi o dinheiro encontrado na justiça no processo de falência. Ainda no alvo do Ministério Público paulista, Ricardo Salles foi investigado por atuar na Bueno Netto, segundo os procuradores, cometendo fraudes para blindar o grupo que ele defendia. De acordo com o MP, mesmo atuando para um grupo privado, ele se apresentava como sendo “ligado ao governo do estado”.
O período na iniciativa privada rendeu ótimos frutos a Ricardo Salles. O ex-devedor de pensão declarou, na eleição de 2018, um patrimônio de R$ 8,8 milhões – um aumento de 4.000% desde sua primeira tentativa de eleição, em 2006.
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Ricardo Salles e Jair Bolsonaro: nomeação do ex-advogado acalmou os ânimos dos ruralistas e do setor industrial.
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Ideologia? Só os outros têm

Salles se tornou secretário estadual do Meio Ambiente pouco depois, em julho de 2016, na gestão de Alckmin. Então membro do PP, ele era próximo à ala do PSDB que apoiava a candidatura de João Doria à prefeitura de São Paulo, mas sua presença era incômoda para parte do PSDB. Quando Salles chegou ao governo como moeda de troca do PP pelo apoio a Doria, o tucano Alberto Goldman se disse “enojado”.
A adulteração nos mapas aconteceu três meses depois de sua posse como secretário. E não foi sua única acusação. Foi investigado por abrir uma chamada pública para vender 34 áreas do Instituto Florestal – sem passar pelo rito legislativo. Depois, tentou negociar a sede do Instituto Geológico para obter recursos para fusão com outros dois institutos – sem que eles concordassem, ideia interrompida pela Procuradoria Geral do Estado. Em 14 de junho de 2017, o Ministério Público Estadual acusou o secretário de advocacia administrativa – ou seja, de favorecer o interesse privado usando a administração pública. Neste caso, os interesses da Bueno Netto, a incorporadora para a qual ele havia trabalhado.
Pouco antes de deixar a secretaria, em um evento em Cajati, no Vale do Ribeira, em São Paulo, Salles se indignou com um busto de Carlos Lamarca, guerrilheiro de esquerda morto em 1971. Pediu ao prefeito que funcionários retirassem o busto. A estátua foi arrancada e levada por viatura da polícia ambiental até a capital paulista, e o pedestal, demolido. A passagem dos guerrilheiros da Vanguarda Popular Revolucionária, em 1969, era um atrativo histórico na pequena cidade.
O Ministério Público de São Paulo acusou Salles de improbidade administrativa ambiental por ordenar a remoção “à revelia do devido processo legal administrativo e apenas imbuído de patente móvel ideológico incompatível com o exercício da nobre função pública que ocupava”. Como secretário do Meio Ambiente, Salles não tinha poder para tomar a decisão, de acordo com o MP, mas achou importante remover qualquer vestígio de esquerda por onde passou. Uma posição curiosa para quem hoje diz rechaçar a “perseguição ideológica”.
No dia 28 de agosto de 2017, Salles pediu demissão. Segundo o G1, a decisão partiu do PP, descontente com o desempenho do secretário. Salles disse que saiu com a “sensação de dever cumprido” e que voltaria para o setor privado. Deixou o PP, foi para o Novo e, pouco mais de um ano depois, voltou para o setor público no alto escalão de Jair Bolsonaro.

Folheto da campanha de Ricardo Salles para deputado federal.

A favor da ‘autodeclaração’ das empresas

Com a tragédia de Brumadinho, provocada pela mineradora Vale, o ministério do Meio Ambiente assumiu uma inesperada posição central no início do governo Bolsonaro. O presidente chegou a cogitar a fusão da pasta com o ministério da Agricultura – o que, na prática, submeteria órgãos como o Ibama aos interesses agropecuários –, mas voltou atrás após uma dura reação da sociedade civil. Acabou nomeando, então, o ex-colega do PP, Ricardo Salles, agora filiado ao Novo.
Com uma campanha eleitoral em que prometia “munição de fuzil” contra o MST, chamou a atenção de Bolsonaro. “Vocês gostaram do ministro do Meio Ambiente agora, né?”, disse Bolsonaro a ruralistas logo após a escolha, em um vídeo gravado no Clube Militar de Brasília.
Assim como seu chefe e seus colegas, Salles chegou ao ministério motivado a extirpar a “ideologia” de esquerda. Disse que “perseguição ideológica não é saudável para ninguém” e que sua gestão seria responsável por “harmonizar” os interesses. Seguindo a cartilha de seu chefe – que queria no ministério alguém “sem caráter xiita” e proteger o meio ambiente sem “criar dificuldades para o nosso progresso” –, Salles disse que no Brasil há um “descontrole na aplicação da lei e da fiscalização”.
Depois de Brumadinho, o ministro classificou a atual lei ambiental como “complexa e irracional”. “Recursos humanos que deveriam estar focados nas questões de médio e alto risco estão sendo dispersos. Precisamos de legislação que funcione, licenciamento que funcione”, disse.
‘É uma legislação tão complexa e irracional que não funciona’, disse Salles.
A flexibilização e a simplificação das leis ambientais é uma demanda de setores como a mineração e a agropecuária, que fazem lobby para aprovar o licenciamento para o setor. A proposta de Salles, defendida antes de Brumadinho, é que a liberação possa ser feita com uma “autodeclaração” – ou seja, o empreendedor diz que a obra está ok, e a fiscalização vem depois. Na proposta de Salles, não fica claro, por exemplo, quem define o grau de impacto ambiental de uma obra.
Se depender do histórico de defesa dos interesses corporativos e “desburocratização” – uma palavra bonita que ele usou para justificar não ter cumprido os ritos tradicionais dos processos ambientais em seu período como secretário –, não é difícil deduzir a quem o seu posicionamento vai beneficiar.
Enquanto Salles recorre da condenação, o Ministério Público paulista entrou com uma apelação pedindo que ele seja impedido de exercer o cargo de ministro. Segundo o MP, a mudança nos mapas ordenada por Salles poderia provocar “gravíssimas consequências”. Os condenados, segundo os promotores, agiram “com a clara intenção de beneficiar setores econômicos, notadamente a mineração”. Vale lembrar que a justiça paulista livrou o ex-secretário – e também a Fiesp – de uma multa milionária pelos possíveis danos ambientais decorrentes das alterações. Outro advogado entrou com uma ação para tentar impedir que Salles assumisse, mas a justiça paulista negou o pedido. “Gostando ou não da escolha, parece que ainda foi feita dentro do espaço de discricionariedade política próprio do cargo de Presidente da República”, disse o juiz na decisão.
Em entrevista à Jovem Pan, o ministro atribuiu a condenação à perseguição “ideológica”, como de praxe. O ministro disse que “esse processo e a decisão são muito mais um combate político-ideológico contra a postura que eu adotei na secretaria do que qualquer ilegalidade formal”. E que Bolsonaro reconhece isso.
Apesar das denúncias, Salles assumiu normalmente o ministério. Sua agenda foi ocupada, principalmente, por encontros com ruralistas, empresários, banqueiros e mineradoras – nenhuma reunião com ambientalistas e pesquisadores da área aconteceu em seu primeiro mês no ministério. Na quarta-feira, 23, se encontrou com representantes da Frente Parlamentar de Agropecuária e, logo depois, com Luiz Eduardo Fróes do Amaral Osório, diretor-executivo de Sustentabilidade e Relações Institucionais da Vale. Dois dias depois, a lama desceu sobre Brumadinho.
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