quinta-feira, 2 de abril de 2020

Brasil tem milhões em grupo de risco para o coronavírus


I Jomalismo



Brasil tem milhões em grupo de risco para o coronavírus

Resumo:
Além de 22 milhões de idosos, país tem quase 3 mil internações por dia causadas por doenças do grupo de risco para a Covid-19, como pneumonia, diabetes e hipertensão
Por Bianca Muniz, Bruno Fonseca
Cerca de 3 mil internações por dia — essa é a média de hospitalizações no SUS de pessoas com doenças como pneumonia, diabetes e hipertensão. Segundo levantamento da Agência Pública, essas enfermidades levaram a mais de 1 milhão de internações na rede pública de saúde brasileira apenas em 2019, número que coloca milhares de brasileiros na faixa com maior risco para a infecção por coronavírus. E não se trata apenas de idosos: a maioria dessas hospitalizações (59%) envolveu pessoas com menos de 60 anos.
Além das internações, a reportagem contabilizou 83 mil mortes por essas condições no país em 2019 — cerca de 230 por dia. Para chegar a esses dados, a Pública levantou todas as internações e óbitos hospitalares em 2019 cuja causa principal foi tuberculose respiratória, pneumonia, asma, diabetes, obesidade, hipertensão e insuficiência renal.
O número total de brasileiros que estão no grupo de risco para o coronavírus na realidade é ainda maior, já que inclui também pessoas que foram atendidas em hospitais particulares e milhares de brasileiros que possuem doenças crônicas mal tratadas e não passaram pelos serviços de saúde.

Pneumonia causa 635 mil internações em um ano e mata 160 por dia

Pneumonias são a causa de internação mais comum no SUS dentre as condições que aumentam os riscos para infecções pelo coronavírus. Em 2019, foram mais de 635 mil hospitalizações no Brasil de pessoas com pneumonia — uma média de 1,7 mil por dia.
A quantidade de mortes também é alta: mais de 60 mil pessoas morreram no país por pneumonia apenas no ano passado, uma média de 160 mortes a cada dia. O número é quase 50% maior que a quantidade de pessoas que foram assassinadas no Brasil em 2019.
Como explica o professor do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal Fluminense (UFF), Aluísio da Silva Junior, a infecção pelo coronavírus é muito agressiva aos pulmões, diminuindo sua capacidade respiratória. Doenças em que as vias aéreas inferiores já são prejudicadas, como a pneumonia, agravam o quadro de Covid-19 por possibilitar uma “sobreposição de problemas” e uma sobrecarga da resposta imune.
“Imagina se você já tem essa agressividade natural do vírus e ainda tem uma predisposição, então alguém com asma, alguém com bronquite, alguém com uma doença crônica pulmonar devido a fumar, uma enfisema, essas pessoas também vão sofrer muito mais”, comenta o professor.
A asma, doença pulmonar crônica, levou a 79 mil internações em 2019 no SUS. O número de óbitos, contudo, é baixo: foram 442 no ano, a maior parte de idosos.

Tuberculose reflete desigualdade: periferia e presos são os que mais sofrem

A tuberculose — que segundo o levantamento da Pública levou a 13 mil internações no SUS em 2019 — é uma doença que reflete as desigualdades sociais no Brasil. A média de tuberculose na Rocinha, no Rio, é 11 vezes maior que a média brasileira. Segundo levantamento da Pública, presos têm 35 vezes mais a doença que a população que está em liberdade.
Segundo o professor Vandack de Nobre Júnior, do Departamento de Clínica Médica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a alta prevalência da tuberculose em países mais desiguais é um reflexo das condições sociais e econômicas.
“A OMS publicou recentemente um guia de orientações para a necessidade dos países terem muita atenção e manterem os programas de cuidados básicos com essas condições de saúde e prevenção de doenças como tuberculose, a questão dos programas de vacinação e o próprio pré-natal, porque o receio é que o descuido em relação a essas condições ‘abra o terreno’ para a entrada da Covid-19 de uma maneira mais forte e você acabar tendo também um excesso de mortes ou de agravos a essas doenças”, comenta.

Diabetes e insuficiência renal levam a 20 mil mortes no ano

Após pneumonias, complicações causadas por diabetes foram a segunda maior causa de internação no SUS em 2019 dentre as doenças que aumentam risco para a Covid-19. Segundo dados do DataSUS, foram mais de 135 mil internações por diabetes em 2019, levando a 5,7 mil mortes. Já insuficiências renais — que podem estar relacionadas à diabetes — levaram a 121 mil internações e um número de 15 mil óbitos.
A Sociedade Brasileira de Diabetes alertou que as pessoas com maiores chances de terem quadros graves por associação da Covid-19 com a diabetes são as “com longa história de diabetes, mau controle metabólico, presença de complicações e doenças concomitantes e especialmente os idosos”. Segundo a entidade, o risco de complicações para pessoas com diabetes bem controlado é menor. A recomendação é monitorar frequentemente a glicemia e ajustar medicações e insulinas apenas com orientação médica.
Hipertensão, uma das doenças que aumenta o risco para infecções por coronavírus, é mais frequente entre pessoas com menos escolaridade segundo Ministério da Saúde

Hipertensão atinge um a cada quatro brasileiros que vivem nas capitais

Outras duas situações que podem estar correlacionadas — a hipertensão e a obesidade — causaram juntas mais de 88 mil internações no SUS em 2019. Esse número representa mais de 243 hospitalizações por dia.
Segundo relatório divulgado pelo Ministério da Saúde, dentre as mortes confirmadas no Brasil por Covid-19, quase metade apresentava alguma doença cardiovascular, como a hipertensão. De acordo com pesquisa do Ministério, cerca de um a cada quatro brasileiros que vive em capitais possui hipertensão e a doença é mais frequente entre brasileiros com menor escolaridade.
A Sociedade Brasileira de Hipertensão chegou a divulgar nota em resposta ao pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro de 24 de março que criticou medidas de isolamento tomadas pelos governadores. No texto, a entidade reforçou que as medidas deveriam ser mantidas e que “os países que demoraram em tomar essas medidas têm sofrido maior número de casos e fatalidades”.

Doenças comuns em brasileiros colocam adultos e jovens no grupo de risco

De acordo com o Ministério da Saúde, a maior parte das mortes por Covid-19 envolveu pessoas com doenças cardiovasculares, diabetes, doenças respiratórias crônicas, hipertensão e pacientes com câncer com a imunidade reduzida. Apesar da maioria se concentrar em idosos, essas comorbidades colocam adultos, jovens e mesmo crianças no grupo de risco para infecções pelo coronavírus, que podem levar a mortes ou a quadros graves da doença, necessitando internações.
O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos alerta também o risco para obesos (com IMC acima de 40), quem tem doenças crônicas nos rins ou passa por diálise, pacientes com doenças no fígado e pessoas com outras condições que debilitam o sistema imunológico, como transplantes recentes de medula, AIDS ou que fazem uso prolongado de corticóides. O CDC ainda acrescenta que há discussão sobre o risco para grávidas e mulheres no pós-parto.
Como explica o professor da UFF, Aluísio da Silva Junior, as doenças consideradas fatores de risco para complicações nos casos de infecção pelo coronavírus tem algumas características comuns. “Todas essas doenças têm como componente comum a baixa de imunidade das pessoas e a dificuldade de resposta [imune] do organismo à agressões”, aponta.
Fatores sociais, como falta de saneamento, condições precárias de moradia e mesmo desigualdade de renda são considerados um agravante indireto nos caso de infecções pela Covid-19, como explica o professor adjunto da UFF, André Ricardo da Silva. “Pode ocorrer infecção [de pessoas] fora do grupo de risco, mas se ela mora com outras que apresentam um desses fatores [de risco], há mais chances delas se infectarem e o quadro evoluir para algo mais grave”. Ele também aponta que condições como desnutrição e falta de saneamento básico, mais comuns em populações vulneráveis, contribuem para uma saúde mais debilitada e, consequentemente, suscetível à complicações em uma infecção pelo coronavírus.
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Ghebreyesus, chama a atenção para o fato de que menores de 60 anos, além de serem os principais transmissores do coronavírus, não estão imunes a desenvolverem quadros graves da doença ou mesmo à morte. “Esta é uma doença séria. Embora as evidências sugiram que aqueles com mais de 60 anos correm maior risco, jovens, incluindo crianças, morreram”, afirmou.


Esquizofrenia, epilepsia, depressão: há 23 anos agricultor lida com efeitos trágicos do agrotóxico


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Esquizofrenia, epilepsia, depressão: há 23 anos agricultor lida com efeitos trágicos do agrotóxico

Resumo:
Pelos efeitos do Round Up, feito à base de glifosato, Monsanto perdeu processo em primeira instância, mas recorreu e foi absolvida
Por Pedro Grigori, Agência Pública/Repórter Brasil
Depois de passar cinco anos aplicando o glifosato em sua pequena lavoura de café, o agricultor Sebastião Bernardo da Silva desenvolveu um quadro de epilepsia e esquizofrenia que, segundo perícias feitas por um neurocirurgião, foi consequência à exposição ao agrotóxico. Com laudos médicos atestando que suas doenças eram sequelas da intoxicação, o pequeno agricultor obteve uma rara conquista judicial contra a gigante Monsanto em 2009. Mas sua vitória durou pouco. A empresa recorreu e ganhou em segunda e em terceira instância com argumento de que o caso estava prescrito.
Hoje, aos 68 anos de idade, Sebastião mora em Vitória, capital do Espírito Santo, longe das terras que cultivou durante quatro décadas. Aposentado e sofrendo com um delicado quadro de saúde, ele manda um recado para outros produtores que seguem aplicando o glifosato: “Não usaria de novo nem que me pagassem. Quando não mata a pessoa na hora, ele mata aos poucos”, afirma.
Tudo começou em 1992, quando ele buscava melhorar o resultado da plantação de café do seu sítio, de cerca de três alqueires de terra em Boa Esperança. Foi quando começou a usar o herbicida Round Up, produto da multinacional Bayer/Monsanto que tem como base o glifosato. De fato, o produto melhorou a produtividade da lavoura, mas aos poucos derrubou a saúde do agricultor.
Em 1997 veio o primeiro baque. “Estava um dia na roça e comecei a me sentir mal. A cabeça doía muito. Desmaiei, fiquei inconsciente e minha esposa me levou ao médico”, relembra Sebastião.
Ele passou 12 dias internado em um hospital em Vitória até receber o primeiro diagnóstico: esquizofrenia e epilepsia. Teria que deixar a fazenda e mudar-se para a capital para iniciar o tratamento. “Fiquei desesperado, toda renda da minha família vinha da roça”, conta.
O diagnóstico chegou cinco anos após ter ele contato com o herbicida da Monsanto pela primeira vez. Desde então, a saúde só piorou: depressão, pressão alta, diabetes, glaucoma, artrose e alterações no sistema nervoso estiveram entre os diagnósticos. “Foram idas e vindas ao hospital, vários médico e psiquiatras, e tudo só piorava. Os médicos disseram que era consequência do contato com agrotóxicos”, diz.
Sebastião, que é casado e tem quatro filhos, diz ter mais de 50 laudos médicos que apontam a intoxicação por Round Up.
De acordo com laudos médicos, Sebastião Bernardo da Silva desenvolveu epilepsia e esquizofrenia devido à exposição ao agrotóxico em sua lavoura

Comprovação médica

A reportagem teve acesso a dez desses laudos médicos, sendo que oito deles estão transcritos na decisão da ação no STJ. O primeiro data de julho de 1997. O médico que acompanhou o caso, o neurocirurgião Fred Tannure, identifica um quadro de “intoxicação aguda por agrotóxicos, apresentando crise convulsiva g.mal (grave) e distúrbio mental”.
Dois meses depois, outro laudo do mesmo médico atesta um “quadro de epilepsia temporal e distúrbio do comportamento que o impede (o agricultor) de exercer atividades de profissão e de negócios temporariamente”.
Em laudo de três anos depois, em 2000, Tannure escreve que os quadros de esquizofrenia e epilepsia temporal tornavam Sebastião incapaz em caráter permanente. Em 2002, mais um laudo do neurocirurgião atesta que o agricultor estava há cinco anos em tratamento neurológico e o encaminha para a psiquiatra “por apresentar invalidez permanente por acidente de trabalho, ocorrido pelo manuseio de agrotóxico do tipo Roundup, aplicado na sua lavoura para eliminação de ervas daninhas, o que lhe causou sequelas físicas e mentais”.
Outro exame, feito em 2008, ainda encontrou resíduos do agrotóxico no sangue de Sebastião, 11 anos após ele parar de utilizar o herbicida.
“Decidi guardar todos os remédios que eu tomava, já são mais de 100 mil comprimidos”, conta. Ele apresenta o saco onde guarda as embalagens, com mais de um metro de altura, como prova das consequências dos agrotóxicos em sua vida. Entre os medicamentos encontram-se o Rivotril (antidepressivo e ansiolítico), o Lodipil (hipertensão), Pamelor (antidepressivo) e o Tegretol (epilepsia e dor neuropática).
O agricultor Sebastião Bernardo da Silva foi contaminado pelo pesticida Round Up em sua lavoura de café

A conta das doenças

Após o primeiro diagnóstico, em 1997, Sebastião deixou a família no interior e foi morar com uma tia em Vitória. “Nunca mais voltei para a roça”, lamenta. Meses depois ele vendeu o sítio e toda família se mudou para a capital.
Apenas em 2000 Sebastião conseguiu aposentar por invalidez. Hoje, recebe um salário mínimo, mas gasta quase a metade, cerca de R$ 450, apenas com medicamentos. “Tomo remédios para diminuir as dores que sinto. Tenho insônia, então preciso de comprimidos para dormir. Além do medicamento para diabete e os problemas na cabeça”, diz.
A filha do aposentado, Suelly da Silva, acompanha de perto a luta do pai. “Desde a primeira ida ao hospital, lá em 97, o médico disse que as doenças eram consequências do agrotóxico que ele mexeu. E aí vem aparecendo problemas novos, agora os dedos do pé dele não estão movimentando mais”, conta.
Em 2005, Sebastião ajuizou ação de indenização de responsabilidade civil por dano material e moral contra a Monsanto, sob o argumento de que o manuseio do herbicida Roundup em sua lavoura foi a causa de uma série de problemas de saúde, que culminou com a concessão de aposentadoria por invalidez. “Demorei muito para me recuperar a ponto de pensar no processo”, explica ele.
A decisão saiu quatro anos depois. O juiz Abgar Torres Paraíso, da 11ª Vara Especializado em Defesa do Consumidor julgou parcialmente procedente a denúncia e condenou a Monsanto a pagar ao agricultor R$ 250 mil como indenização por danos morais, uma pensão mensal e vitalícia no mesmo valor pago pela Previdência Social, além de um valor mensal de R$ 139,49 cobrado de novembro de 1997 até a data da decisão, em 2009, totalizando cerca de R$ 23 mil.
O valor da da indenização foi baseado na multa mais alta aplicada pelo STJ até então, no valor de R$ 360 mil em um caso onde a vítima havia ficado em estado vegetativo por erro um erro médico. Com base nesse valor, o juiz estipulou o valor indenizatório para o agricultor que ficou com incapacidade total.
A empresa recorreu a decisão. Na segunda instância, além de argumentar que as provas apresentadas demonstram “de forma inequívoca a inexistência” o nexo causal entre as doenças e o agrotóxico, a defesa apelou pelo prazo de prescrição para a denúncia. De acordo com o artigo Art. 27 do Código de Defesa do Consumidor, o pedido de reparação pelos danos causados por um produto prescreve em cinco anos, sendo que a contagem passa a valer no momento em que o dano é conhecido.
A defesa de Sebastião alega que o prazo de conhecimento do dano deveria ser contado a partir de 23 de fevereiro de 2002, data em que o neurocirurgião Fred Tannure emitiu laudo definitivo acerca de sua invalidez permanente.
O Tribunal capixaba avaliou o que o prazo prescricional iniciou-se quando Sebastião passou a sofrer com os problemas de saúde. “O apelado tinha ciência inequívoca de seus problemas de saúde desde o ano de 1997, quando foi internado com suposto quadro de intoxicação aguda por agrotóxicos, apresentando crise convulsiva e distúrbio mental, como se extrai dos atestados médicos juntados aos autos, inclusive do laudo datado de 23.02.2002, circunstância que, segundo o próprio apelado, o levou a abandonar, naquele mesmo ano (1997), o trabalho rural”, diz a decisão.
Sebastião, então, recorreu e, em 2015, o relator da ação no Supremo Tribunal de Justiça (STJ), ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, votou contra o agricultor, seguindo o entendimento do Tribunal do Espírito Santo. “Os argumentos expendidos nas razões do regimental são insuficientes para autorizar a reforma da decisão agravada, de modo que esta merece ser mantida por seus próprios fundamentos”, afirmou na decisão. Os ministros Marco Buzzi, Marco Aurélio Bellizze, Moura Ribeiro, João Otávio de Noronha, Raul Araújo, Paulo de Tarso Sanseverino, Maria Isabel Gallotti e Antonio Carlos Ferreira votaram com o relator, e por unanimidade a seção decidiu por arquivar o processo.
Sebastião lamenta: “Receber a indenização me ajudaria a pagar o tratamento de remédios que estou tomando. Queria que algum advogado pudesse me ajudar”.

Líder de vendas e de processos

O agricultor cultivou suas terras no Espírito Santo por quatro décadas
O glifosato, nome do ingrediente ativo do Round Up, é o agrotóxico mais usado no país. Apenas em 2018, foram vendidos 195 mil toneladas, segundo o Ibama.
Existem hoje 123 produtos formulados à base do glifosato. Eles são usados para o controle de mais de 150 plantas infestantes em variados cultivos – de soja e café até feijão, maçã e uva.
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Em 2016, a empresa alemã Bayer adquiriu a americana Monsanto pelo valor de US$ 63 bilhões. Desde então, a empresa é a líder mundial no mercado de sementes, fertilizantes e agrotóxicos.
A gigante do mercado de pesticidas enfrenta uma série de ações contra o glifosato: cerca de 20 mil processos apenas nos Estados Unidos. Em agosto de 2018, foi condenada a pagar US$ 289 milhões ao jardineiro Dewayne Joshson, que enfrenta um linfoma desenvolvido por utilizar o herbicida. Em março do ano, também foi condenada a pagar R$ 80 milhões de indenização ao aposentado Edwin Hardeman, que enfrenta um linfoma não-Hodgkin, um tipo de câncer que tem origem nas células do sistema linfático, por ter mantido contato com o Round Up por 20 anos.
No Brasil, são raros oscasos em que um trabalhador que aplica o agrotóxico consegue receber os danos da empresa que o fabricou , conta a pesquisadora Ranielle Caroline de Sousa. Doutora pela Universidade de Brasília, ela fez um extenso levantamento sobre o assunto e encontrou apenas um caso como o de Sebastião, em que o trabalhador ganhou ao responsabilizar a fabricante de agrotóxicos. Mas, no único caso em que a empresa foi condenada sem opção de recorrer, a vítima era o piloto do avião que pulverizava o pesticida.
Ela explica que a maior dificuldade nesses processos é demonstrar o nexo causal. “O caso do Sebastião é importante justamente porque ele conseguiu demonstrar que as doenças e incapacidades que ele desenvolveu foram consequência da relação direta com o Round Up”, afirma.
A Agência Pública e a Repórter Brasil questionaram a Bayer/Monsanto sobre o caso e processo do agricultor Sebastião Bernardo da Silva. A empresa respondeu, por nota, que “a ação transitou em julgado e não ficou comprovado nenhum nexo causal entre o uso do glifosato e as doenças alegadas pelo demandante”.
“As soluções à base de glifosato têm sido utilizadas com segurança e sucesso no Brasil e, globalmente, há mais de 40 anos. Há um robusto número de pesquisas sobre herbicidas à base de glifosato, composto por mais de 800 estudos, e um extenso consenso científico partilhado pelos principais órgãos reguladores em todo o mundo, de que o glifosato é um produto seguro, sempre que observadas as orientações de bula”, informa o texto.
Cientistas e organizações discordam desse argumento da empresa. Em 2015, a Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer (Iarc) da Organização Mundial de Saúde (OMS), que em 2015 concluiu que o glifosato é “provavelmente cancerígeno” para humanos. Outro estudo, agora de 2017, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) mostrou que o uso de glifosato provoca alterações no DNA, resultando em doenças crônicas como diabetes, doenças neurológicas, alzheimer, esclerose lateral amiotrófica (ALS) e doença de Parkinson.
“Quando o glifosato é considerado provável cancerígeno, temos uma afirmação relacionando ele a doenças crônicas, que passam também por alterações hormonais e produção de um conjunto de efeitos que podem contribuir com essa quantidade de doenças”, conta Luiz Cláudio Meirelles, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), referindo-se às condições de Sebastião. “Infelizmente, não há programas voltados à saúde do trabalhador que acompanhem o agricultor e façam mensurações dos efeitos a longo prazo dos produtos, o que faria você ter um conjunto de provas”, explica.
Segundo Luiz Cláudio, que já atuou como gerente-geral de toxicidade da Anvisa, quando a ciência aponta que o produto é perigoso para à saúde, o regulador tem que tomar uma atitude da mesma proporção, agir preventivamente, retirando o produto do mercado. “Mas as agências reguladoras, tanto do Brasil, quando da Europa e dos Estados Unidos, são vinculadas ao setor econômico, e chegam a conclusão de que o parecer da OMS dizendo que o produto é cancerígeno não é válido”, explica.


Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Na ausência do Estado, ativistas informam a periferia sobre o coronavírus


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Na ausência do Estado, ativistas informam a periferia sobre o coronavírus
Resumo:
O que fazem os comunicadores populares na linha de frente de combate à pandemia em periferias e favelas de cinco capitais do país
Por José Cícero da Silva
A primeira contaminação por coronavírus em favela foi confirmada pela Secretaria Municipal de Saúde há 10 dias em uma das maiores comunidades da zona oeste do Rio de Janeiro, a Cidade de Deus. Ali, como em outras periferias, favelas, morros e quebradas pelo país, as diretrizes de prevenção do Ministério da Saúde para quase 14 milhões de brasileiros não são fáceis de cumprir. Nesses territórios classificados pelo IBGE como “aglomerados subnormais”, os comunicadores populares são fundamentais.
O próprio ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, na coletiva de imprensa da última segunda-feira (30), elogiou as precauções adotadas pelas comunidades: “(…) é muito importante que cada liderança desse país proteja as suas comunidades.”
Na ausência de medidas do governo federal direcionadas às favelas, a Agência Pública conversou com comunicadores populares em cinco capitais do país — Belém, Salvador, Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro — para mostrar como estão se articulando no combate à pandemia de coronavírus.

Em São Paulo, um podcast com linguagem da quebrada

“Quando a gente pensa comunicação ou periferia no Brasil, é uma questão muito complexa, porque a compreensão sobre território muda. Quando a gente está em São Paulo, vamos pensar em bolsão populacional, em distritos, em aglomeração. Quando se trata de favelas do Rio é outro rolê demográfico, quando a gente vai pro nordeste é uma parada ainda mais diferente, quando a gente pensa articulação nacional de comunicadores, a gente se depara com essas complexidades do território”, diz Ronaldo Mattos, comunicador e integrante do projeto Desenrola e Não Me Enrola, que reúne comunicadores periféricos da cidade que é o epicentro da Covid-19.
Ronaldo Mattos, Flavinha Lopes, Thais Siqueira e Evelyn Vilhena, integrantes do projeto Desenrola e Não Me Enrola
Com o intuito de combater fake news, dar dicas de prevenção, atualizar as medidas do governo, Mattos se juntou à jornalista Gisele Brito e ao comunicador Tony Marlon dos sites Periferia em Movimento e Alma Preta. Juntos, passaram a produzir o podcast Pandemia Sem Neurose.

“A gente pensou em um podcast curto, de 2 a 3 minutos de duração, que a pessoa não vai perder muito tempo acessando, que vai carregar rápido no celular, não vai ocupar espaço de memória do aparelho e pode ser reproduzido numa escala maior. Isso tem dado muito certo. A gente tem recebido retornos de idosos, de pessoas que moram em regiões completamente diferente. Da zona sul ao extremo da zona norte”, diz.
Falar para a periferia e não sobre a periferia é para Ronaldo uma “questão estruturante”, diz. “Se não, fazer comunicação na quebrada se torna só um produto jornalístico. Não importa se você mora na quebrada ou não. Você vai produzir conteúdo sobre os territórios e é algo que tem um valor muito forte. No entanto, se essa informação não vai parar nas mãos de quem precisa, qual é o valor público desta reportagem? Desse conteúdo jornalístico? Ele tem que servir para a discussão entre os mais velhos, entre a juventude que está indo pro pancadão, porque ainda não entende a gravidade em relação ao vírus e as possibilidades de contágio. Então a gente tem se atentando a isso”, esclarece.
Em São Paulo, outras ações estão ocorrendo nas duas maiores favelas do estado. Em Heliópolis, A União de Núcleos e Associações dos Moradores (UNAS) vem promovendo campanhas para arrecadação de alimentos e material de higiene. Recentemente também lançaram uma pesquisa inédita sobre os impactos do Coronavírus na favela. A pesquisa foi realizada online entre os dias 27 e 29 de março. Dos 653 formulários respondidos se destaca a questão econômica: “68% das famílias de Heliópolis já tiveram perdas no rendimento mensal desde a adoção das medidas de isolamento. Destas, 19% afirmam não contar com mais nenhuma renda.”
Em Paraisópolis, a União dos Moradores montou comitês com lideranças dos bairros. Segundo o presidente da associação, Gilson Rodrigues, “foram identificamos 420 líderes, que se voluntariaram e que vão monitorar 50 casas, em média. A ideia é cobrir 21 mil domicílios e atingir a população de 100 mil habitantes que vivem na favela”.

Desmontando fake news na periferia de Belém

Juraci olha firme para a câmera. “A gente resolveu fechar a via para reivindicar o direito de ter água. Por que não está chegando. Quando a água chega, chega muito amarela”, diz o morador do bairro Terra Firme, na periferia de Belém, Pará — com 60 mil habitantes. Quem grava a cena é a estudante Izabela Chaves, 25 anos, moradora local e comunicadora popular. O gatilho do protesto do último dia 18 de março na Avenida Perimetral, que foi fechada com fogo ateado em paus, resto de móveis e pneus foram as notícias sobre o coronavírus. “Eles estavam preocupados em ir trabalhar, tomar banho e fazer as coisas básicas”, diz Izabela, sobre alguns moradores que estavam comentando “sobre esse tal vírus” durante a manifestação. Estudante de cinema e audiovisual na Universidade Federal do Pará (UFPA), a jovem faz parte do coletivo Tela Firme, voltado produção audiovisual e formação de jovens da periferia de Belém.
No Pará, que até momento tem 32 casos confirmados e 33 suspeitos de covid-19, a Tela Firme se uniu à coalizão LabPerifaCom ou Laboratório de Jovens Comunicadores de Periferias de Belém, formado às pressas no dia 22 de março, com objetivo de monitorar conteúdos oficiais, levantar pautas e denúncias das periferias diante da pandemia. Eles combatem fake news e geram comunicação de acordo à realidade local.
A professora Lilia Melo, coordenadora do projeto Cine Clube TF — parte da coalizão — ressalta a importância dos comunicadores periféricos nesse período. “Com a questão do coronavírus, nós aproveitamos a nossa rede para que a gente pudesse, através de uma linguagem jovem, para o público jovem, orientar quanto a prevenção e o combate ao vírus. A gente percebeu que aqui no bairro existem alguns jovens que ainda estão negligenciando a seriedade do assunto. Que dentro da sua realidade e das dificuldades que enfrentam, acabam ridicularizando algumas recomendações do governo federal e estadual, que não atingem a realidade da periferia”, diz Lilia, que já foi finalista do Global Teacher Prize 2020 e considerada a melhor professora do Brasil (MEC-2018). Segundo a educadora, esse é um dos motivos que revelam o mérito de iniciativas de comunicação local.

Em Recife, cartazes traduzem a mensagem oficial

Panfleto na favela do Totó, em Recife
A escolha da linguagem também foi certeira para a cineasta periférica Yane Mendes, que, mesmo sendo “zero designer” decidiu adaptar as informações passadas pelo Ministério da Saúde, e direcioná-las aos cerca de 2.500 moradores da favela do Totó, em Recife, Pernambuco. Incomodada com o que considera descaso dos órgãos municipais com envio do material informativo esclarecendo as medidas de prevenção ao coronavírus, ela própria foi buscar os cartazes. No entanto, diante do texto técnico, institucional e protocolar, Yane elaborou um comunicado e começou a colar ao lado dos cartazes criados pela secretaria de saúde, fazendo uma espécie de tradução da mensagem institucional. “A ideia é passar a mensagem direta, com poucas palavras, mesmo que seja simples”.
Yane afirma que a ação de colagem dos comunicados rendeu frutos, pois alguns moradores que não a conheciam começaram a procurá-la para saber das próximas intervenções. Pessoas de outras comunidades também entraram em contato para solicitar o material, enfatizando a importância da linguagem utilizada, que fala diretamente com a população. A partir disso, Yane criou um grupo de Whatsapp com os interessados que pretendem construir formas de comunicação para onde vivem. “Percebi que, no momento, tenho que começar pelo mais próximo, que é a comunidade que eu nasci. Eu comecei ‘sozinha’, mas coloquei a Rede Tumulto, que é uma iniciativa que estou tendo com dois amigos, porque, por mais que a ideia seja minha, a gente tem que entender que é o coletivo. Ao mesmo tempo [a ação] foi muito inspirada pelo grupo #CoronaNasPeriferias. Ver que tem outras pessoas produzindo nas suas favelas, empolga muito”, diz.

Na periferia de Salvador, a ideia é não deixar a comunidade em pânico

Comunicadores e ativistas combatem a desinformação em Salvador
A aflição com a disseminação de notícias falsas sobre o coronavírus também preocupa Jefferson Borges, publicitário, ativista social e fundador do portal NORDESTeuSOU. Borges mora na periferia de Salvador, no bairro Nordeste de Amaralina. No momento em que falava com reportagem, dividia a atenção entre as perguntas e a notícia que a Secretaria de Saúde municipal divulgava na tevê local sobre novas contaminações por coronavírus. “A secretaria está divulgando agora os números nos bairros e o nosso é o único da periferia que não tem nenhum caso ainda. Cajazeiras, Itapuã e Engomadeira, são três bairros periféricos que estão com um caso cada”.
Jefferson diz que as notícias falsas deixam os moradores amedrontados e sem saber no que acreditar. “Por aqui, tem muitas correntes e, às vezes, pinta notícias que alguém morreu. Então a gente tem que verificar, para não deixar a comunidade em pânico”, comenta.
Na tentativa de mitigar os impactos dessas notícias, o coletivo adotou estratégias e linguagens de informação visando esclarecer os moradores sobre a real situação local. Para isso, os integrantes do portal começaram a distribuir panfletos em alguns pontos de circulação, pedindo para as pessoas evitarem aglomerações. O material é focado em medidas de prevenção distribuído por celular e também nas ruas — além disso, um carro de som circula com informações durante 5 horas por dia.
Panfletos entregues aos moradores buscam alertar sobre os riscos do coronavírus

Rio de Janeiro, “o que estava na Europa, também estava aqui”

Uma comunidade em que os comunicadores não tiveram tempo para combater notícia falsa foi a Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. No dia 22 de março, a Secretaria Municipal de Saúde confirmou o primeiro caso de contaminação em uma das maiores favelas da zona oeste da cidade. Para Ricardo Fernandes, ator e morador da CDD, “depois do primeiro caso confirmado, as pessoas passaram a ter mais consciência que de fato era algo sério, que o que estava na Europa, também estava aqui. Ficou muito nítida essa mudança no comportamento do moradores”.
Ricardo faz parte da recente iniciativa de união dos moradores, ativistas, profissionais da área de saúde, coletivos e indivíduos, a Frente CDD. A ação surgiu a partir da necessidade de reduzir os efeitos do coronavírus na comunidade. “Já tinham dois coletivos da CDD fazendo uma campanha de doação de alimentos. E aí a gente criou a Frente para ampliar a campanha, para ir além de doação e trabalhar a conscientização do moradores. Mas o objetivo máximo da Frente é reduzir todos os impactos do coronavírus. Já não basta os impactos que temos diariamente só por sermos uma favela no Rio de Janeiro. Violência, falta de saneamento básico, falta de aula, falta de água. Todos esses impactos já estão no nosso cotidiano. Com o corona, todos eles se potencializam”, reclama o comunicador e ativista.
Cartaz feito pela Frente CDD, da Cidade de Deus, no Rio de Janeiro
Em outra comunidade, no Complexo do Alemão, comunicadores se organizaram para fazer a própria campanha de conscientização. Criaram faixas e informativos colados nos postes, distribuíram panfletos e fazem conversas corpo a corpo pelas ruas chamando atenção sobre a importância de tentar evitar o coronavírus.
Na última quinta-feira, 26 de março, a Fundação Oswaldo Cruz convocou por meio do Youtube uma coletiva de imprensa apenas para comunicadores populares de favelas do Rio de Janeiro. No entanto, outros estados estavam representados. Mais de 100 pessoas participaram da coletiva enviando questões para o Coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fiocruz, Rivaldo Venâncio, e para o infectologista do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, André Siqueira.




Vítimas do coronavírus são alvos do ódio digital


I Jomalismo



Vítimas do coronavírus são alvos do ódio digital

Resumo:
Pessoas doentes ou com suspeita de infecção foram alvo de informações falsas, tiveram informações pessoais publicadas e foram até ameaçadas de morte
Por Ethel Rudnitzki, Laura Scofield
No dia 7 de março, quando a pandemia do coronavírus tinha acabado de chegar ao Brasil, Jeferson* foi a um casamento na Bahia, estado que havia acabado de confirmar seu segundo caso, dentre os 19 confirmados então. Quando voltou para sua cidade, no interior de São Paulo, ficou sabendo que três pessoas que foram no evento estavam infectadas com o vírus. Imediatamente, fez o exame para COVID-19 e se colocou em isolamento, interrompendo suas atividades de trabalho. Além disso, também publicou em suas redes sociais um vídeo com esclarecimentos sobre seu estado de saúde para informar a família e os amigos.
A resposta foi virulenta e imprevisível. Seu vídeo circulou em grupos de Whatsapp e Facebook, acompanhado de acusações de que estava espalhando o vírus pela cidade de 115 mil habitantes e desrespeitando a quarentena. “Surgiu muita coisa, pessoas falando que me viam na rua, e era mentira. Inventaram que eu estava na UTI, entubado, muita falação… Eu fiz tudo certinho, mas realmente teve muita invenção”, conta. A notícia do jornal local sobre o caso recebeu de 300 comentários no Facebook, entre eles: “Manda esse bosta pra PQP”; “É um total irresponsável”; “O doutor playboyzinho vai no casamento na casa do caralho e vem trazendo o vírus.” Enquanto ainda estava em isolamento, ele recebeu uma ligação no interfone de seu apartamento de um vizinho, que não se identificou. “Ah, se eu te ver no corredor… Fica esperto!”, dizia a ligação.
Ataques direcionados a Jeferson nas redes sociais
Alguns dias depois, saiu o resultado negativo do exame. Mas os ataques continuaram. “É um babaca que saiu anunciando que estava infectado e deixando a população assustada”; “Queria fama”.
“Foi um alívio quando saiu o resultado negativo. Mas continua tendo muita conversa”, contou à Agência Pública.
Jeferson é apenas uma das pessoas que teve suspeita de infecção ou ficou doente e sofreu ataques nas redes sociais. A Agência Pública conversou com outras quatro vítimas, que receberam desde xingamentos até ameaças de morte em grupos de Whatsapp e postagens em redes sociais. Os entrevistados relatam que grande parte dos ataques culpa eles pelo vírus através de falsas acusações e desinformação.

Responsabilização e estigma

Assim que Carlos* teve diagnóstico confirmado para coronavírus, começaram os ataques. Carlos nasceu em uma cidade do interior da Bahia e estava por lá passando férias com sua mãe e esposa. Havia recentemente voltado de uma viagem a trabalho nos Estados Unidos e, quando começou a sentir os sintomas da doença causada pelo COVID-19, procurou um médico. Fez o exame e, quatro dias depois, recebeu o resultado: era o primeiro e único caso de coronavírus em sua cidade.
A notícia se espalhou rápido. Assim que soube do resultado, a mãe de Carlos enviou um áudio a conhecidos via Whatsapp. Sua intenção era, além de alertar as pessoas, tranquilizar a todos ao dizer que a família estava isolada, seguindo os protocolos médicos. Mas a situação se tornou um caso de polícia.
Além de comentários maldosos pela internet, surgiu e se disseminou no Whatsapp um áudio que citava diretamente o nome de Carlos e pedia que aqueles que soubessem seu endereço o agredissem fisicamente. O áudio exortava o seu linchamento, o que é crime segundo o Código Penal. “Esse Carlos que chegou dos Estados Unidos é a colmeia do vírus. Enquanto a população não linchar ele e jogar ele para debaixo de sete palmos de terra, ele vai espalhar o vírus”, dizia.
Assustada, a família teve que buscar proteção da polícia. Além de vigiar o bairro onde mora, a PM está mobilizando suas redes para identificar o autor do áudio. “É como se a gente fosse responsável por contaminar a cidade inteira”, diz a mãe, que testou negativo para o vírus. “Todos os ataques se resumem a falar que a gente tinha consciência de que a gente tinha o vírus e a gente saiu para propagar”, concorda Carlos. Ele teme que muitas pessoas vão continuar acreditando nas notícias falsas. “Espalhou de um jeito que as mentiras passaram a ser verdade”, diz.
A mãe desabafa que a angústia de ter que lidar com os comentários, ameaças e boatos relacionados à sua família foi maior do que a de ter o filho contaminado pelo vírus. “Eu poderia estar morta, ele poderia estar morto, minha nora e meu neto poderiam estar mortos. As pessoas não pensaram isso, elas nos viram como os vilões da história, os transmissores do vírus.”

Redes nada cordiais

O mesmo aconteceu com Gabriel Azevedo, vereador de Belo Horizonte. Como forma de prevenção, o político e sua equipe começaram medidas de distanciamento social no dia 12 de março. No dia 14, o vereador resolveu fazer o teste para coronavírus por precaução. Azevedo recebeu seu teste positivo para COVID-19 no dia 18 de março e, como figura pública, resolveu compartilhar o resultado nas redes sociais.
Imediatamente, uma chuva de comentários negativos surgiram em suas postagens. Muitos deles acusavam o vereador de querer contaminar outras pessoas. “Ser acusado de querer contaminar é uma coisa absurda”, relatou. Foram tantos os ataques que um médico orientou que ele se afastasse das redes sociais.
Ataques direcionados ao vereador Gabriel Azevedo nas redes sociais sugeriam que ele estava transmitindo coronavírus para as pessoas
Gabriel Azevedo conta que desde que publicou o resultado positivo de seu exame para coronavírus tem recebido diversos relatos de pessoas que também foram estigmatizadas por estarem com a doença. “As pessoas não tiveram empatia e solidariedade. Ficaram imaginando que alguém quer contrair o vírus”, lamenta.
“Não é a primeira doença que está sendo estigmatizada”, explica a jornalista Alana Rizzo, fundadora da organização Redes Cordiais, não-violenta nas redes sociais através de influenciadores digitais parceiros.
Rizzo está acompanhando casos de ataques virtuais no contexto do coronavírus e é taxativa ao dizer que os piores ataques são aqueles que buscam responsabilizar as pessoas contaminadas. Isso acaba “estigmatizando, afastando e desumanizando” quem já está fragilizado por ter que lidar com a doença.
Outro tipo de ataque comum tem sido a disseminação de boatos e mentiras sobre elas – as chamadas “fake news”.
Isso aconteceu com Eduardo*, morador de uma cidade no sudeste de Minas Gerais. Quando voltou de uma viagem à França com a família, ele cumpriu rigorosamente o isolamento de 14 dias. Ainda assim, foi acusado de estar rompendo a quarentena e teve fotos de sua viagem e seu endereço espalhados pelas redes. Dizia-se que eles haviam voltado da Itália e transmitindo o vírus.
“A gente sente que tem a vida invadida, é pior do que um roubo”, relata Eduardo, que também teve que acionar a polícia.
A disseminação de boatos e mentiras também aconteceu com Carlos e com o vereador Gabriel Azevedo. Ambos foram acusados de desrespeitar o isolamento social, com perfis afirmando que eles haviam sido visto em diversos eventos.
“De acordo com tudo que eu fui recebendo, no final de semana eu devo ter ido a 100 eventos, quando eu estava, no sábado, lendo um livro em casa, e no domingo à noite, trancado em casa”, ironiza o vereador, que desmentiu os boatos em suas redes sociais.
O vereador Gabriel Azevedo desmentiu boatos a respeito dele nas redes sociais

“A um passo de um colapso nervoso”

Apesar de terem tido início nas redes sociais, alguns dos ataques às vítimas do coronavírus tomaram dimensões físicas, segundo apurou a Agência Pública.
Em Águas Lindas de Goiás, Célia* teve a casa apedrejada após um áudio de Whatsapp espalhar a informação de que ela estaria com suspeita de coronavírus e listar seu endereço. “Ela deve ter contaminado ali em volta tudinho”, dizia, no áudio, uma mulher que se identificava como enfermeira do hospital.
Célia está grávida de 4 meses e foi para o hospital em uma cidade vizinha no dia 18 de março com sintomas de gripe e falta de ar. Diagnosticada com pneumonia, ela fez o exame para coronavírus e foi internada para tratamento. No domingo, dia 22, sua casa foi apedrejada. “Ela me ligou desesperada. Em pânico mesmo, com medo do pessoal invadir a casa, bater nos seus filhos”, conta o irmão da vítima.
Agora, a polícia investiga quem está por trás do áudio e do apedrejamento.
Na segunda-feira, Célia recebeu o resultado de seu exame: negativo. Seu irmão também testou negativo. “As pessoas estão soltando muita coisa, muita mentira, muitas coisas falsas, e estão nos deixando a um passo de um colapso nervoso, de um surto”, lamenta ele.

Isolamento social e virtual

Muitas vítimas também preferiram ficar afastadas das redes para evitar novos ataques cuidar da saúde.
Depois dos ataques que sofreu, Jeferson recomenda que as pessoas não compartilhem nas redes sociais caso estejam com suspeita de vírus, “porque tem muita gente que mistura as coisas, por desinformação.”
Alana Rizzo, do Redes Cordiais, lembra que é importante cuidar da privacidade e da confidencialidade nesses casos. “Exponha só o que é a sua informação. A informação médica é extremamente confidencial e tem que ser”, ressalta.
Para quem quiser compartilhar suas informações, o Redes Cordiais criou um guia com orientações para as pessoas postarem sobre o coronavírus nas redes sociais, sem reforçar o estigma da doença. Entre as dicas estão evitar o uso de adjetivos, como “vírus mortal”, para não espalhar o pânico, e compartilhar suas experiências individuais, mas sempre embasado em informações validadas e oficiais.
Orientações do Redes Cordiais para postar com responsabilidade sobre o coronavírus

Infuenciadores

Para Rizzo, a experiência de pessoas com coronavírus ou que estão com suspeita pode ajudar a informar seus ciclos de amigos e familiares. No caso de influenciadores, o impacto pode ser ainda maior. “Os influenciadores estão virando um pouco essa rede de apoio para quem está com a doença.”
Pedro Doria, colunista do O Globo e editor do Meio, conta que resolveu escrever uma coluna sobre seu estado de saúde justamente para ajudar a informar as pessoas sobre a doença através de sua experiência individual. Ele está com sintomas de COVID-19, em isolamento e acompanhamento médico remoto, mas não fez o teste para o vírus por não querer sobrecarregar o sistema de saúde. “O objetivo de escrever foi exatamente esse de falar o que você sente, qual é a sensação, e passar a informação de que o vírus já estava entre nós.”
Apesar de não ter sofrido retaliações, ele diz que “o estigma é mesmo uma coisa de medo que as pessoas estão da doença, principalmente as pessoas que estão pouco informadas.”
Para a diretora do Redes Cordiais, as redes sociais devem ser usadas como ferramentas para achar pontos de aproximação, em vez de afastamento, nesse momento de pandemia. “Acho que o problema é que a gente segue na mesma polarização, num momento que é de união. Não tem espaço para ficar apontando o dedo”, defende. “É um momento em que não só os que estão lutando contra a doença, mas toda a sociedade está muito mais frágil. A gente precisa desenvolver ainda mais nossa capacidade de empatia nas redes”.


*Os nomes dos entrevistados foram trocados para preservar a identidade das fontes.


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