Brumadinho: MG tem mais de 300 barragens inseguras, diz superintendente do Ibama que fez alerta em dezembro
Fernanda OdillaDa BBC News Brasil em Belo Horizonte
26 janeiro 2019
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Rompimento de barragem em Brumadinho deixou ao menos nove mortos
Há um ano no
comando do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis (Ibama) em Minas Gerais, Julio Cesar Dutra Grillo lamenta em
entrevista à BBC News Brasil ser sempre voto vencido na luta para não
mais autorizar a expansão ou construção de novas barragens de rejeitos no Estado.
O
superintendente do Ibama em Minas diz que já havia alertado, em
dezembro do ano passado, que barragens de rejeitos em Brumadinho, entre
elas a da Vale que se rompeu na sexta-feira, "não ofereciam risco zero".
O aviso de Grillo foi feito durante reunião extraordinária da
Câmara de Atividades Minerárias. A discussão acabou com a aprovação, de
forma acelerada, da licença para a continuidade das Operações da Mina da
Jangada e das operações da Mina de Córrego do Feijão, cujo rompimento
matou pelo menos 34 pessoas e mobilizou uma multidão em busca de pessoas
desaparecidas em meio a um mar de lama.
Na reunião que aconteceu em 11 de dezembro de 2018 na sede da
Secretaria de Estado de Meio Ambiente, houve uma acalorada discussão com
a participação de dezenas de moradores que se manifestaram contra as
licenças por causa de possíveis abalos hídricos na região.
Mas o resultado foi pela aprovação, com folga, das licenças: 8 votos contra 1, com 1 abstenção. Grillo se absteve.
Ele
explica que era favorável ao descomissionamento [eliminação] de uma
barragem da região. Mas que esse descomissionamento estava atrelado à
continuidade de produção de outras minas, e era justamente isso que
colocava em risco a região.
"Optei pela abstenção, mas fiz questão
de registrar os dois lados", explica Grillo. Ele afirma que, na
ocasião, ressaltou que projeto trazia algumas novidades positivas como a
eliminação da barragem, mas que a região de Casa Branca tem algumas
barragens sem risco zero e que os moradores tinham razão em se
preocupar.
"Em uma negligência qualquer de quem está à frente de
um sistema de gestão de risco, aquilo rompe. Se essa barragem ficar
abandonada alguns anos, não for descomissionada, ela rompe, e isso são
10 milhões m³, é um quarto do que saiu de Fundão (em Mariana, que rompeu
há três anos), inviabiliza Casa Branca e inviabiliza ao menos uma das
captações do Paraopeba", afirmou Grillo na região, conforme o registro
da ata da reunião extraordinária.
'Mais de 300 barragens em risco'
Grillo é categórico em dizer que há mais de 300 barragens de rejeitos em Minas Gerais que não seguras. Direito de imagemEPAImage caption
Superintendente do Ibama afirma que mineradoras deveriam param de usar barragens como a de Brumadinho
"Ou param de usar essa técnica ou há o risco de cair
na cabeça das pessoas. Mesmo as que não estão mais recebendo rejeitos
não são seguras e, ao longo do tempo, podem despencar na cabeça das
pessoas", diz, emendando que há outras técnicas mais eficientes e que,
inclusive, já estão sendo testadas pela própria Vale.
Segundo
Grillo, contudo, as técnicas alternativas são mais caras, e os órgãos de
licenciamento têm autorizado projetos e novas intervenções "do jeito
que as mineradoras querem". "Essas votações têm sido atropeladas",
afirma Grillo.
De acordo com a Secretaria de Meio Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad), o Estado tem 688
barragens, das quais 677 têm estabilidade garantida por auditorias. Em
4, o auditor não apresentou uma conclusão, e 7 tem estabilidade não
garantida pelo auditor. "A quantidade de barragens com estabilidade
garantida aumentou de 96,7% em 2017 para 98,4% em 2018", afirmo a Semad.
Para
o superintendente do Ibama em Minas, contudo, a melhor forma de evitar
tragédias como a de Brumadinho é uma nova legislação. "Infelizmente,
está parado na Assembleia de Minas onde prevalece os interesses das
mineradoras. É muito melhor reduzir o lucro em alguns poucos porcentos e
evitar tragédias se repitam", afirma.
Questionado se a barragem
em Brumadinho se rompeu porque, mesmo sem estar recebendo rejeitos, pode
ter havido alguma intervenção no local depois do licenciamento, Grillo
diz ainda não ser possível saber a causa.
Mas afirma que,
"independente de qualquer ação no local, barragens como a que se rompeu
não são estáveis". "Ao longo do tempo, elas podem se romper. Só não
acontece toda hora porque tem gente vigiando, e a Vale costuma ter
atenção. Mas o risco não é zero", diz Grillo.
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